sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

01.04.1965 - Teria Sido Assassinado o Homem Dado Como Suicida há 8 Anos em Pouso Alegre


Teria Sido Assassinado o Homem Dado Como Suicida há 8 Anos em Pouso Alegre

BELO HORIZONTE, 13 (O GLOBO) — Depois de laboriosas diligências, o delegado Asdrúbal Giovanini, da Corregedoria de Polícia, apontou Maria Delfim Campos e seus filhos Argentino e Nelcides, proprietários da Pensão Glória, de Pouso Alegre, como responsáveis pela morte de Enelides Bernardes dos Santos, que há oito anos fôra registrada como suicídio na delegacia daquela cidade. 
Investigações
O delegado teve a primeira suspeita ao examinar o relatório dos legistas que fizeram a autópsia do cadáver de Enelides, que fôra encontrado boiando, em novembro de 1957, nas águas do rio Sapucaí. Os médicos verificaram que os pulmões da vítima estavam secos e contraídos, o que afastou a hipótese de afogamento. Nas vísceras foi encontrada pequena quantidade de arsênico, mas o delegado não concordou com a possibilidade de suicídio, porque o morto era homem de profundas convicções religiosas. Uma fratura do crânio, finalmente, indicava que Enelides só poderia ter sido assassinado. De fato não lhe seria possível tomar arsênico, fraturar a base do crânio e atirar-se em seguida às águas do Sapucaí.
Assassinado
Prosseguindo nas investigações, o delegado Asdrúbal Giovanini descobriu que Enelides morava na Pensão Glória e estava desempregado, razão por que a proprietária e seus filhos viviam ameaçando-o do despejo. Para ver-se livre das ameaças, Enelides disse que tinha um pequeno depósito na Caixa Econômica de Pouso Alegre e saiu um dia para retirá-lo, em companhia de Nelcides. Lá se descobriu que êle nunca fôra depositante do estabelecimento e os dois saíram juntos. Uma semana depois o cadáver de Enelides apareceu boiando nas águas do Sapucaí, perto da cidade e o caso foi dado como suicídio.

Com as conclusões a que chegou o delegado de Belo Horizonte, o inquérito será reaberto. 

O GLOBO, segunda-feira, 1 de abril de 1965

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

01.02.1975 - Uma festa para Santa Teresa: inaugurada a estação de bondes

O GLOBO ♦ 1-2-75 - Sáb
A tardinha, os bondes já circulavam normalmente:
uma antiga cena nos Arcos da Lapa.

Uma festa para Santa Teresa: inaugurada a estação de bondes

O descarrilamento do bonde-oficina Revoltoso, pouco antes da hora marcada para a Inauguração da noca estação de bondes de Santa Teresa, não impediu ontem que as solenidades programadas fossem cumpridas no horário e não chegou sequer a ameaçar o brilhantismo da festa.

Depois de 40 minutos de trabalho, os operários da CTC conseguiram recolocar o Revoltoso sobre os trilhos, em frente à plataforma da estação, e exatamente às dez horas os bondes quatro, oito e treze puderam atravessar em triunfo os Arcos da Lapa, trazendo, da sede da administração regional do bairro, cerca de 200 convidados para a cerimonia de inauguração.

Com a chegada do Governador Chagas Freitas, do presidente da Petrobrás, Araken de Oliveira, do presidente da CTC, Heriberto Cascão, e do Secretário de Obras, Emílio Ibrahim, a festa começou: dezenas de balões de gás coloridos foram soltos, enquanto os presentes acompanhavam a banda da Polícia Militar, cantando Cidade Maravilhosa.
Alegria
Após a execução do hino nacional, o Governador do Estado descerrou a placa comemorativa da inauguração. O Secretário de Obras fez o primeiro discurso, exaltando o Governo da Guanabara por ter recompensado "finalmente a paciência, a longa espera e os anseios dos moradores de um dos locais mais atraentes e tradicionais da terra carioca".

Fica assim satisfeita  acrescentou — uma das mais justas aspirações dos moradores de Santa Teresa, que preferem os bondinhos, selando a sorte dos poucos que se inclinam pela opção dos onibus.

O Embaixador Pascoal Carlos Magno, um dos maiores defensores dos bondinhos de Santa Teresa, fez um discurso mais apaixonado:

— Depois de muita luta, de muitos memorandos e abaixo-assinados, os 70 mil moradores de Santa Teresa saúdam com imensa alegria o retorno dos bondinhos sobre os Arcos da Lapa. Ainda afastaremos totalmente do bairro os paquidérmicos onibus, que abalam as estruturas dos casarões e sobradões do Santa Teresa. E outra coisa: é necessária a volta dos bondes que iam até o Silvestre.

A idéia de restabelecer as linhas de bondes ponta-a-ponta — da nova estação ao Silvestre — já tem até, para sustentá-la, uma campanha preparada pelo Lions Clube de Santa Teresa. Ainda esta semana, informou o representante do Lions, Roque Ferrer, serão lançados os cartazes de propaganda.

— A volta dos bondinhos ponta-a-ponta tem muita importancia turística, além de grande utilidade pública para os moradores do bairro — disse Ferrer. Além disso, queremos também os bondes-bagageiros, única solução, diante da dificuldade de subida de caminhões.
Alegria, Alegria
A primeira viagem oficial, da nova estação (Estação Circular) até o Largo dos Guimarães — foi realizada ontem pelo bonde número 13, conduzido pelo motorneiro Antonio Pinto de souza.

Quando o bonde fez a travessia dos Arcos da Lapa, seus quase 60 passageiros vibraram de alegria. E, por todo o percurso, todos cantaram e pularam, saudando os moradores do bairro, que corriam para as ruas e janelas.

A viagem durou cerca de 20 minutos. Logo atrás vinham os outros dois bondes — números 4 e 8 — que também tinham participado da festa de inauguração. Na chegada ao Largo dos Guimarães, todos os passageiros desceram e os bondes seguiram para as oficinas.

A volta de um motorneiro

Quando o primeiro bondinho chegou à nova estação, uma pessoa mostrava-se particularmente feliz  o motorneiro Antonio Pinto de Souza, escolhido para fazer a viagem inaugural.

Antonio trabalha há 21 anos para a companhia dos bondinhos de Santa Teresa, mas nos últimos tempos fora transferido para o serviço de manutenção.

Muito sorridente, Antonio contou que ficou surpreso, ao ser convidado pelo gerente de Serviços de Bondes de Santa Teresa, Manuel Antunes, para ser o motorneiro na viagem inaugural:

— Eu não esperava poder vestir novamente o uniforme de motorneiro, mas fiquei feliz quando o chefe me chamou para fazer a viagem. Isto mostra que ele tem confiança em mim. Em 21 anos de trabalho, não tive nenhum acidente.

Ele considera importante para a volta dos bondinhos, "porque o passeio é pitoresco, o ar é mais puro; não é como nos onibus, aquela gente toda respirando o mesmo ar.

Os 28 bondes em serviço (dez dos quais estão sendo reformados) têm capacidade, cada um, para cerca de 50 pessoas — 32 delas sentadas. A companhia emprega 180 pessoas para condução e remuneração dos bondes, e cobra Cr$ 0,90 pela passagem.

Galeria de arte,
outra atração

O Governador Chagas Freitas e outras autoridades visitaram a galeria de arte também inaugurada ontem, na estação de bondinhos de Santa Teresa. A exposição foi mostrada aos convidados pela administração da 23a. Região, Elza Pinho Osborne.

O Governador deteve-se diante dos quadros de Vicente Semola, que retratam paisagens de Santa Teresa. Além dos trabalhos de Semola, estão espostos, na ampla sala da galeria, pinturas, esculturas e entalhes de artistas moradores no bairro, entre os quais José Tarcísio, Celeste Bravo, Vanilda, Mendez e Cássia Drummond.

Destaca-se, entre as obras expostas, um painel da pintora Djanira, antiga moradora e figura tradicional de Santa Teresa. Elza Osborne informou que o trabalho de Djanira ficará permanentemente exposto; os outros artistas realizarão, futuramente, exposições próprias.

Djanira, que chegou no primeiro bonde que trazia convidados para a inauguração da estação, disse que "a volta dos bondinhos representa o respeito às tradições de Santa Teresa, a este povo que tanto lutou, sob o comando da Dra. Elza Oaborne, pela conservação do mais agradável meio de transporte".

FÁBRICA de MÓVEIS
ARMÁRIOS EMBUTIDOS
em CEREJEIRA MACIÇA
Cr$ 1.000 o metro quadrado
DUPLEX, CAMAS, ARCAS, MESAS E ESTANTES
EM CEREJEIRA E JACARANDÁ — VÁRIOS
MODELOS EM FINÍSSIMO ACABAMENTO
ENTREGA EM 10 DIAS
FÁBRICA DE MÓVEIS S. JOAQUIM LTDA.
RUA BELA, 1133 (próximo Av. Brasil) 

O Globo, sábado, 1 de fevereiro de 1975

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

20.03.2000 - Mitos em torno das fusões

Mitos em torno das fusões


Adriano Pires Rodrigues* e
Viviana Cardoso de Sá e
Faria**


No início do século XX ocorreu, nos EUA, o mais conhecido e polêmico processo de prática de monopólio envolvendo a Standard Oil Company. O julgamento desse processo e a conseqüente divisão desta grande companhia em sete empresas, as chamadas "The Seven Sisters", ficaram mundialmente conhecidos. Assistimos, no final deste mesmo século, a um movimento inverso, onde vários setores da economia estão promovendo maga-fusões, sendo que as empresas do setor petrolífero figuraram como "vedetes" dessa tendência.
O movimento de fusão ocorre quando os preços se encontram num nível abaixo do ideal
O movimento de fusão de empresas é cíclico, ou seja, ele ocorre quando os preços se encontram num nível abaixo do ideal para fazer frente aos investimentos necessários para expandir e inovar os seus produtos e serviços. A união dessas empresas é uma tentativa de maximizar o uso da sua infraestrutura e minimizar os custos de produção. Outro aspecto importante são as trocas de tecnologia que estão envolvidas neste tipo de transação. As incorporações de empresas são, em muitos casos, inevitáveis, podendo até ser desejáveis no que tange aos avanços tecnológicos.

Do ponto de vista econômico, o processo de fusões e aquisições pode ser explicado pela presença dos seguintes fatores: baixo retorno do investimento realizado; plantas com alta capacidade ociosa; e, finalmente, um excessivo número de empresas num mesmo mercado. Sendo assim, os objetivos desse movimento são os de reduzir custos, buscando obter "economia de escala"; otimizar o uso de suas plantas industriais e diversificar o portfólio. No caso da indústria do petróleo, esses argumentos ficam reforçados quando observamos as principais tendências que irão influenciar a organização da indústria no próximo século. A primeira é referente à verticalização da cadeia de gás. A segunda, diz respeito à horizontalização do refino e do marketing. E, finalmente, a terceira é a busca incessante por parte dessas empresas de grandes projetos, com baixos custos unitários na área do upstream, a fim de diluir os altos riscos envolvidos na atividade.

Dentro deste contexto, as fusões da Exxon/Mobil e a da BP Amoco Arco obtiveram pareceres distintos do órgão regulador americano. O valor da transação, envolvendo a fusão da Exxon/Mobil, foi de US$ 81 bilhões. Esta fusão foi aprovada, em final de 1999, pelo órgão responsável pela defesa da concorrência, com restrições em função da posição ocupada por essas empresas em determinados locais do território analisado. O parecer do órgão americano, o Federal Trade Commission (FTC), recomendou a venda de aproximadamente 2.431 postos de gasolina da Exxon e Mobil. A sugestão seguiu a seguinte proporção: 1.740 no Nordeste e no Centro Atlântico; 360 na Califórnia: 319 no Texas; e 12 em Guam. Adicionalmente, terão que ser vendidas a refinaria da Exxon na Califórnia, terminais, oleodutos e outros ativos. O órgão exigiu que esses postos fossem vendidos para um único comprador, a fim de criar um novo concorrente na região. A nova empresa Exxon-Mobil irá sofrer uma queda no seu faturamento devido à venda desses postos. Porém, espera-se que, no longo prazo, os cortes de custos que devem resultar da troca de ativos do setor de varejo pelos da área de exploração e produção compensem essa perda.

Apesar de anteriormente a fusão BP Amoco ter sido aceita pelo FTC, a proposta atual de incorporação da Arco está sendo contestada pelo órgão regulador americano. O argumento da contestação baseia-se no fato de a fusão BP Amoco/Arco apresentar composições indesejáveis, em determinadas regiões dos EUA. Esta nova empresa controlará 70% da produção de óleo do Alasca, 72% do oleoduto Transalaska, além da significativa participação no varejo da Costa Oeste, onde a Arco oferece preços sempre mais competitivos.

A tendência, segundo analistas da indústria de petróleo, é de que as empresas continuem buscando parcerias/fusões que as tornem "super-majors", pois só assim terão condições de enfrentar os novos tempos da indústria do petróleo e concomitantemente competir com as megaestatais da Arábio Saudita, Irã, México e Venezuela.

Esses dois exemplos de fusão mostram que existem dois mitos que precisam ser revistos. O primeiro é o de que todo o processo de fusão provoca o aparecimento de práticas monopolísticas e, conseqüentemente, lucros acima da média das empresas do setor após esse tipo de transação.

O segundo é a "falsa" percepção dos órgãos reguladores de que a concorrência, de fato, só ocorre quando há um número significativo de agentes operando num mesmo mercado. Não resta dúvida de que o número de agentes ativos poderá propiciar uma maior concorrência, mas esta não é uma relação linear. Por exemplo, o aumento do numero de empresas no mercado de gás e eletricidade, na Espanha, parece estar ocasionando uma redução no nível de competição. No Brasil, o crescimento do número de empresas no setor de distribuição de derivados de petróleo parece estar provocando uma concorrência mais predatória do que benéfica ao consumidor.

Na realidade, a verdadeira concorrência só passa a existir quando o arcabouço legal e regulatório está bem definido, permitindo uma competição igual para todas as empresas participantes de um mesmo mercado. A recente venda de ativos da Shell, segundo explicação da própria empresa, ocorreu, principalmente, pela falta de definição de regras claras, o que impediu a Shell de concorrer com empresas que sonegam impostos e adulteram combustível. 

Conclusão, o papel dos órgãos reguladores e, em especial, dos responsáveis pela defesa da concorrência torna-se cada vez mais importante neste novo ciclo da economia brasileira, pois serão estes que irão regular as atividades das empresas nos diferentes mercados, elaborando uma legislação que impeça as práticas monopolísticas e ilegais, garantindo, assim, a qualidade do serviço/produto e, ao mesmo tempo, evitando normas que provoquem perdas de eficiência econômica. ◙
A verdadeira e concorrência só existe quando o arcabouço legal e regulatório está bem definido
* Professor do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coppe/UFRJ.
** Mestranda do PPE da Coppe.

Gazeta Mercantil, segunda-feira, 20 de março de 2000

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

29.01.1987 - Morte leva "Teixeirão" após longa enfermidade

"Teixeirão" ex-prefeito de Manaus e governador de Rondônia

EX-PREFEITO DE MANAUS

Morte leva "Teixeirão" após longa enfermidade 

Morreu o Teixeirão. Deixou um grande legado ao povo amazonense. Antes de ser governador de Rondônia, o coronel reformado do Exército, foi prefeito de Manaus, nomeado pelo então presidente Ernesto Geisel. Sua marca registrada era trabalho. Quebrou uma máxima de que o povo tinha medo de militar. Ao contrário, Teixeira tornou-se muito popular, várias vezes, aonde chegava, nos bairros, era obrigado a parar para cumprimentar as pessoas.

Avesso à politica, Jorge Teixeira sempre afirmava que disputar cargo eletivo não fazia o seu gênero. Para alguns amigos, como o jornalista Flaviano Limongi, "não era medo de enfrentar as urnas. Era o seu temperamento. Gaucho, Teixeirão deixou grandes obras em Manaus, mas o seu grande sonho não se realizou: ser governador do Estado. Ele chegou a ser cogitado, ainda, antes da eleição do ano passado para ser candidato do PDS ao Governo. Alem de doente, quando encerrou seu mandato de Governador de Roraima, Jorge Teixeira guardava ainda ressentimentos.

Teixeira foi prefeito de Manaus no período de 75 a 79, no governo do ministro Henock Bezerra. Ele antes de entrar para a politica, foi major do Grupamento Especial de Fronteira, de onde saiu, para vice-presidente da Federação Amazonense de Futebol. Sua primeira grande obra: a construção do Colégio Militar de Manaus. Foi fundador também do Cigs. Soldado fiel aos princípios militares, Jorge Teixeira sempre exigiu a disciplina dos seus comandatos.

Campeão brasileiro de basquete — chegou a jogar com o ex-capitão da Capitania dos Portos, Almirante Hermes da Fonseca —, o coronel Teixeirão marcou a sua administração na Prefeitura de Manaus iniciando o Sistema Viário de Manaus, a construção de 200 Km de novas vias; implantou a Usina de Lixo, da Compensa. Homem polêmico: não costumava dar importância para as críticas de políticos até do seu próprio partido — o PDS — Jorge Teixeira implantou o corredor exclusivo de ônibus e os primeiros calçadões do centro de Manaus foram construídos na sua gestão.

Reconhecido como um militar muito humano, o ex-prefeito de Manaus até hoje é lembrado pelas garis. Ninguém esquece a sua generosidade. "Era homem bom de coração; não maltratava ninguém; falava com todo mundo", afirmou a servente Sebastiana Alves de Souza, 47 anos — 9 de Prefeitura de Manaus. Ela afirmou que já marcou para o próximo domingo uma missa em homenagem póstuma ao falecimento do coronel Teixeira.

Pedro Feitosa de Souza, 61 anos, segurança do garajão, conta que Jorge Teixeira foi um dos poucos prefeitos que costumara visitar o garajão. "Lembro muito bem que, ele passava de manhã nas frentes de obras e à tarde voltava para constatar como estavam os trabalhos", disse.

A última vez que Jorge Teixeira esteve visitando o Garajão da Prefeitura de Manaus, foi em 1985. "Ele veio para pegar uma medicação dos galpões a fim de levar para Rondônia. Recordo muito bem, após nos cumprimentar, que ficou até um pouco triste quando viu algumas telhas soltas dos barracões que ele construiu para guardarem as máquinas pesadas, frisou Jones Wanderley, ex-motorista da administração do Teixeirão, atualmente diretor de terraplanagem. 

Jorge da Silva Luzana, um encarregado de trecho da Prefeitura, reviveu os bons momentos quando o coronel Jorge Teixeira visitava as frentes de obras. "Essa garagem era o orgulho dele. Teixeira pagava merenda do bolso muitas vezes para gente. E antigamente, na sua administração tínhamos fardas. A Prefeitura dava calças e camisas para a gente," explicou.

No Colégio Militar ninguém quis falar. O coronel Giorge, único remanescente da época do coronel Jorge Teixeira quando foi diretor do colégio, não foi encontrado. Estava participando de uma reunião no CMA. Mesmo assim, muitos oficiais já sabiam ontem que o fundador do CMM havia falecido no Rio de Janeiro em decorrência de um enfarto, aos 65 anos. 

1º GOVERNADOR

RIO, (AJB) — Criado em dezembro de 1981, o Estado de Rondônia teve como seu primeiro governador o coronel pára-quedista do Exército, especializado em combate nas selvas, Jorge Teixeira de Oliveira, nascido no Rio Grande do Sul em 1924.

Em 4 de janeiro de 1982 o coronel Teixeira assumiu o governo do 23º. Estado na Federação, depois de ter seu nome sido aprovado pelo Congresso Nacional, fator que motivou um verdadeiro carnaval em Porto Velho, a capital do novo Estado, quando a população saiu às ruas para comemorar.

Rondônia, cujo território é, em extensão, quase do tamanho de São Paulo, viveu momentos de grande euforia, embora todos soubessem dos problemas que deveriam ser enfrentados após sua autonomia, com a perda de verbas federais para seu sustento. Sua população, de cerca de 800 mil habitantes, é em sua maioria formada de lavradores paranaenses, gaúchos, paulistas e nordestinos, que foram para lá abrir a última fronteira agrícola do Pais.

O novo Estado foi um território criado em 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas, reuniundo partes do Amazonas e de Mato Grosso, em torno da estrada de ferro Madeira-Mamoré, batizado na época com o nome de Guaporé. Seu nome foi uma homenagem ao marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, considerado o maior militar brasileiro deste século.

Dezoito meses depois de sua criação, o Estado de Rondônia completou o ciclo de sua implantação, no momento em que os três poderes entraram em funcionamento. À frente do executivo, o governador Jorge Teixeira passou a desenvolver um esforço de modernização, criando as condições para o seu desenvolvimento econômico e social. No legislativo, os 24 deputados-constituintes eleitos em novembro de 82 apresentaram a proposta de constituição do Estado, elaborada durante três meses. Por poder judiciário, por sua vez, já inteiramente implantado, dotou o novo Estado de uma justiça ágil e adequada as características geográficas e sociais.

Teixeira foi o primeiro governador do novo Estado e o 26º. desde que foi criada aquela unidade da federação. Ele apenas foi confirmado no cargo, pois já vinha exercendo as funções de governador na unidade como território. Era, como ele afirmava, uma fase (pré-Estado), onde se fazia um campo experimental do País para a criação do Estado, o coronel Teixeira afirmava estar baseando a economia de Rondônia em cima da agricultura, com o pequeno produtor, o que representava 70 por cento da arrecadação. O restante provinha do minério.

O governador Jorge Teixeira, ao cumprir os quatro anos de seu mandato, considerou ter sido urna jornada "muito difícil porém muito honrosa", porque atingiu, como coroamento, a sua meta principal de transformar o então território, no Estado em que é hoje.

Jorge Teixeira, que o povo de Rondônia acostumou-se a chamar de "Teixeirão", afirmava:

— Hoje, depois de quatro anos de trabalho, posso com orgulho olhar o que foi feito e dizer que não passei por Rondônia em vão. Tenho certeza de que não decepcionei. Em abril de 1979, quando assumi o governo, tinha em mente um só objetivo: trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Jornal A Crítica, Manaus, quinta-feira, 29 de janeiro de 1987

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

26.01.1966 - Vitória do Coríntians sôbre a URSS por 3x1


Vitória do Coríntians sôbre a URSS por 3x1

S. PAULO — (Especial para a LUTA DEMOCRÁTICA)  Com tentos de Tales, que estreou para a platéia paulista, aos 2 minutos da primeira fase, Dino, de "penaltù" aos 20 e Rivelino, aos 40 minutos, já na etapa complementar, enquanto nessa mesma fase, Voronim marcava o gol de honra dos visitantes, o Coríntians paulista derrotou ontem no Morumbi, a União Soviética por 3x1, estreando em sua temporada pelos gramados da América do Sul, no Torneio Internacional que o Flamengo está patrocinando.

A arbitragem estêve a cargo de Olten Aires de Abreu, somando a arrecadação a quantia de Cr$ 41.946.000, com público pagante de 18.548 pessoas.

Agora, domingo vindouro, jogarão Flamengo x Coríntians e seleção da União Soviética x Palmeiras, havendo, todavia, gestões para que Coríntians e Palmeiras façam a principal partida, como únicos vencedores, jogando os perdedores, soviéticos e rubro-negros, na preliminar.

Os soviéticos estranharam o calor dos mais fortes que fêz na capitai paulista, porem, aos poucos a temperatura foi melhorando e êles puderam jogar de igual para igual com os brasileiros, que, todavia tiveram a chance à seus pes, quando Tales recebeu excelente lançamento de Dino Sâni e abriu o escore, aos 4 minutos. Daí para frente, os quadros se equivaleram nas ações não havendo superioridade. Algumas boas ocasiões de gol, entretanto, foram desperdiçadas pelos dois adversários. E o escore não se alterou até o final da etapa inicial. 

Fazendo entrar Flávio em lugar de Nei, que não vinha rendendo vem, Osvaldo Brandão proporcionou acentuada melhoria técnica em sua equipe. Aos 20 minutos, Flávio foi derrubado dentro da área e Oltem Aires de Abreu marcou a pena máxima que Dino Sâni converteu no segundo tento corintiano. Rivelino, aos 40, aumentou para 3-0, num belo gol, quando enveredou pelo centro da área e atirou para marcar.

URSS TIRA O ZERO
Todavia, a equipe da União Soviética carecendo de preparo físico, que demonstrou no desenrolar do jôgo, conseguiram, graças a uma bobeada da defesa coríntiana, tirar o zero de seu placar, por intermédio de Voronin aos 42 minutos, encerrando-se o confronto com esta contagem: CORÍNTIANS, 3 x UNIÃO SOVIÉTICA, 1.

JUIZ, RENDA E TIMES
Os quadros estiveram assim formados:

CORÍNTIANS; Heitor; Jair Marinho, Galhardo, Clóvis e Édson; Dino Sâni e Rivelino; Bataglia (Geraldo José) Nei (Flávio), Tales Gílson Pôrto
URSS: Kozavativili; Ponomariov, Schesterniov, Afonin e Danilov; Voronin e Kussainov; Chislakov, Kopaiex (Metreveli), Malafec (Banishev) e Meshli

Oltem Aires de Abreu foi o juiz somando a arrecadação .. Cr$ 41 milhões, com público pagante no Morumbi, de 18 548 pessoas. 

URSS SEM YASHIN 
Esta é a equipe da União Soviética (que ontem não contou com Lev Yashin), que caiu ante o Corintiains por 3x1, no Morumbi, em São Paulo

Luta Democrática, quarta-feira, 26 de janeiro de 1966

domingo, 31 de janeiro de 2016

03.07.2007 - Um auto de esperança

O GLOBO
SEGUNDO CADERNO
Arte: Nova galeria abre no Centro em bom momento para o setor • 2
Gente Boa: 'O beijo no asfalto' reúne escritores em leitura • 3
DOMINGO, 3 DE JUNHO DE 2007

Um auto de esperança

Próximo aos 80 anos, Ariano Suassuna é entrevistado por Fernanda Montenegro

André Miranda

Em pouco mais de uma hora de entrevista, Fernanda Montenegro conseguiu arrancar lágrimas de Ariano Suassuna. Mas não foi só. Arrancou também palavras sobre o Brasil, sobre a cultura, sobre as mudanças da idade e, principalmente, palavras sobre esperança.

A pedido do GLOBO, a atriz entrevistou o escritor no Teatro Municipal do Rio. Motivo, local e data não poderiam ser mais apropriados. Entre os dias 10 e 17 de junho, a cidade vai receber o evento "Ariano Suassuna — 80 anos", com exposições, mesas-redondas, mostra de filmes, lançamento de livro, espetáculos e uma vasta programação sobre o dramaturgo (as atividades estão listadas em www.arianosuassuna.com.br). Será no Municipal que o autor de "A Pedra do Reino", romance que ganha uma adaptação numa minissérie para a Rede Globo a partir de 12 de junho, vai abrir a série de homenagens, proferindo uma de suas aulas-espetáculo, marcada para o dia 10, às 12h. Tudo em comemoração aos 80 anos que ele completará no próximo dia 16.

A entrevistadora também não poderia ser mais bem escolhida. Há 50 anos, exatamente em 1957, Suassuna e Fernanda foram ao cinema juntos, assistir a "A estrada da vida", de Federico Fellini, em Recife. Um filme mágico, para dois amigos mágicos.

— Acho que o Suassuna é um criador tão amplo, tão forte, tão referencial no Brasil, que eu só posso reverenciá-lo — afirmou Fernanda.

Então, a seguir, a reverência. 

Fernanda Montenegro

             ENTREVISTA             

Ariano Suassuna

• FERNANDA: Suassuna, esses cem anos pelos quais nós passamos foram um século de grandes transformações, e o Brasil veio com os olhos pela vida afora. O que o pais ganhou no século que se foi e que pode permanecer de bom? O que, na sua memória, na sua vivência, na sua experiência, você acha que o Brasil conquistou?
SUASSUNA: Fernanda, eu procuro não ser otimista porque eu considero os otimistas ingênuos, e não sou pessimista porque eu considero os pessimistas amargos. Eu sou um realista esperançoso. Digo que, das chamadas três virtudes, eu sou fraco na fé, fraco na caridade e só me resta a esperança (risos). Sou um homem da esperança. E o que mais me toca no Brasil é que, apesar de todos os tropeços, estou notando que está diminuindo a diferença entre aquilo que Machado de Assis chamava de o Brasil oficial e o Brasil real. O Brasil real para mim é o Brasil dos despossuídos. Outro dia vi o IBGE dizendo que o governo Lula diminuiu o número de pessoas que estão abaixo da linha de pobreza para 18,4%, o indica mais baixo da História. Ainda assim é um horror, e a gente tem que ser realista, porque isso representa cerca de 40 milhões de pessoas. Mas, ao mesmo tempo, me dá uma esperança muito grande. É a coisa que mais me alegra aos 80 anos.

• FERNANDA: Dos fatos do século que passou, em qual você enxerga que se iniciou a construção de um caminho que possibilitasse a diminuição dessa diferença?
SUASSUNA: Principalmente a partir de uma figura muito controvertida que foi o Getúlio Vargas. No meu entender, ele foi derrubado não pelo que ele tinha de ruim, que era o autoritarismo, mas pelo que e!e tinha de bom, que era a preocupação de desenvolver o Brasil com capitais brasileiros e uma preocupação com os mais pobres. Com todos os defeitos que possa haver ao redor dele, Lula está retomando esse caminho. Ele é um homem do povo, pela primeira vez na História do Brasil um homem do povo chegou à Presidência da República. E, falando em amizades e admirações, devo lembrar aquele que desempenhou papel fundamental na política brasileira, por ser uma espécie de elemento de ligação entre o que Getúlio Vargas tinha de bom e o que de melhor existe em Lula: Miguel Arraes.

• FERNANDA: Você acha que, se Getúlio não tivesse fechado o Congresso, ele teria conseguido fazer, para não dizer a palavra "impor", suas leis?
SUASSUNA: E possível que não tivesse conseguido, eu não sei, posso ser muito mal interpretado ao dizer isso. Mas eu estou falando principalmente do Getúlio que foi eleito. Foi depois que ele voltou eleito ao governo, em 1951, que ele levou adiante suas grandes criações. Outro governante que é, a meu ver, um injustiçado pelo Brasil é o Dom João VI. Eu conversei com os portugueses, e as melhores figuras de Portugal são contra Dom João VI. Eles têm um ressentimento enorme por causa da Independência do Brasil. Ele elevou o Brasil à categoria de reino e foi isso que os portugueses nunca perdoaram.

• FERNANDA: Eu acho que sempre vai haver uma dualidade em torno do Dom João VI, por ele ser meio abobalhado e esperto.
SUASSUNA: Exatamente.
Continua na página 2

FERNANDA MONTENEGRO e Ariano Suassuna se encontram no Teatro Municipal, onde o escritor vai realizar uma de suas aulas-espetáculo no dia 10.

O GLOBO, domingo, 3 de junho de 2007

sábado, 30 de janeiro de 2016

17.07.1988 - Mamede, aos 59, comanda o judô


Mamede, aos 59, comanda o judô


Já pôs a nocaute o pai de um dos seus alunos

Marcelo França

Você compraria briga com um sujeito de 59 anos, 1,55m, visivelmente barrigudo e avô de cinco netinhos?

O desafio continuaria de pé se este mesmo sujeito fosse ex-campeão pan-americano de halterofilismo, faixa-preta e 5° dan de judô, ainda praticante de caratê e protagonista da fratura da clavícula do netinho de três anos?

A escolha é sua, mas saiba logo que o avô barrigudo e o avô quebrador de clavícula são a mesma pessoa: Joaquim Mamede Carvalho e Silva, presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), o baixinho folgado.

Carioca da Tijuca há 59 anos, morador da Ilha do Governador, casado, pai de seis filhos e avô de cinco netos, o professor Mamede faz jus ao título há 38 anos, quando fundou sua academia, a sexta do Rio. E não seria injusto dizer que briga é uma das palavras mais constantes em sua vida.

Ele já brigou (e pôs a nocaute) com pai de aluno que o xingou, já brigou com judocas que estão agora sob seu comando e vão a Seul e diz brigar constantemente para pôr o judô em funcionamento — seja viabilizando viagens internacionais, seja arregimentando dinheiro para o Centro de Treinamento de Santa Cruz ou construindo sua carreira no judô brasileiro.

Brasileira por acusação de bebedeira —, brigou com Aurélio Miguel (talvez o melhor judoca do pais nos últimos anos) e vários outros atletas de nível, como o experiente Luís Onmura, duas Olimpíadas nas costas.

Frases como "quem manda sou eu", ou "opinião de atleta não conta" inundaram o esporte. Proibiu a entrada daqueles judocas durante um Sul-Americano no CIAGA e se julgou o presidente "mais liberal que passou pela CBJ". De quebra, dava declarações como esta:

"Invocou comigo, eu dou porrada".

Esta ameaça tem quase quatro anos. E foi refeita semana passada no Centro de Santa Cruz, na reapresentação dos olímpicos para a concentração de 58 dias. Atletas sentados na pequena arquibancada do jogo, ele foi claro:

"Tenho 59 anos e estou pronto pro pau com quem quiser", gritou, com rosto verme-lho. "E ai de quem me vencer".

Diante dele, os ex-brigados como Carmona, Miguel e Onmura.

E abaixo dos olhos, o regulamento para utilização do Centro para aquela temporada. Dentre as 27 recomendações, algumas eram pérolas do universo de Mamede:

— O trânsito no Centro deve ser feito calçado ou de camisa.

— Não é permitido mexer em qualquer árvore ou animais do Centro.

— É proibido falar alto ou falar palavrão.

Para esta última, Mamede reagiu assim:

"Nisso eu sou especialista e já basta um".

Jornal do Brasil, domingo, 17 de julho de 1988