domingo, 7 de fevereiro de 2016

24.04.1982 - TV GLOBO MOSTRA AMANHÃ O "COSMOS" DE CARL SAGAN

JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro - Sábado, 24 de abril de 1982

TV GLOBO MOSTRA AMANHÃ O "COSMOS" DE CARL SAGAN

Os mistérios do espaço estarão a partir de amanhã nas telas de TV

A TV Globo começa a transmitir amanhã, às 23h15min, o primeiro episódio da série cientifica Cosmos, animada pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan. A série completa tem 13 capítulos e será mostrada a cada último domingo do mês. Sagan, a bordo da "nave espacial da imaginação", discutirá a criação do universo, o aparecimento e a evolução do homem, a astronomia, a exploração do espaço e o provável aparecimento de vida em outros planetas.

Produzida durante quase três anos, filmada em um ano em 100 locações e 12 países diferentes, a série conta com efeitos especiais resultantes de técnicas cinematográficas revolucionárias, entre elas o Zoom Cósmico, criado por Jamie Shourt e Robert Blalack, da equipe que ganhou um Oscar pelos efeitos em Guerra nas Estrelas. Graças ao Zoom Cósmico, o espectador tem um senso gráfico de como a Terra é pequena em relação ao resto do Universo, e recebe o impacto da "compressão de milhões de anos de viagem à velocidade da luz em cerca de quatro minutos", diz Shourt.
Questão de tom
"A minha experiência mostra que as pessoas são mais inteligentes do que se pensa e, portanto, é só encontrar o tom certo para passar uma série de informações e fatos que podem parecer complicados, mas, na realidade, estão ao alcance de qualquer um que tenha o mínimo de interesse em compreender", diz Carl Sagan, apresentando o programa, escrito por ele, Ann Druyan e Steven Soter. A trilha sonora terá canções folclóricas, Rolling Stones, Beatles, música concreta e eletrônica e diversas obras de compositores clássicos. A produção é da KCET e Car Sagan Produções, associados à BBC e Plytel Intemational.

No primeiro episódio, A Costa do Oceano Pacífico, uma viagem ao Universo conhecido: a constelação Andrômeda, a Via Láctea, estrelas azuis, pulsars, os planetas Urano, Saturno e seus anéis, Júpiter e o vermelho Marte, os menores Mercúrio e Vênus, o Sol, e a Terra; uma descida no Egito, o farol e a biblioteca de Alexandria, a cidade onde Eratóstenes descobriu por observação que a Terra é finita e redonda. No segundo, Uma Voz na Fuga Cósmica, mostra-se a origem da vida. Sagan especula sobre a possibilidade de vida em outros mundos. Uma animação espetacular revela o processo evolutivo do organismo unicelular até o homo sapiens.

A Harmonia dos Mundos, o terceiro episódio, indaga como seria um mundo sem causa e efeito, recupera a importância da astrologia na agricultura dos povos antigos, e ensina as lições de Kepler, Tycho Brahe, Copérnico, Galileu e Newton, pais da nossa concepção atual do Universo. Céu e Inferno, quarto, mostra os processos vitais do Universo, gradualismo e catastrofismo, responsáveis pela evolução. Discutem-se a hipótese de colisão de Vénus e Terra, a origem das crateras da Lua, as falhas geológicas da Terra, entre elas a de San Andreas. Sagan pede mais carinho com o planeta.

O quinto episódio, Blues para um Planeta Vermelho, abre com a dramatização de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, discorre sobre a lenda dos "marcianos", as idéias sobre o nosso mais próximo vizinho, e a mudança provocada pelas sondas Mariner e Viking. Contos de um Viajante, sexto, leva o espectador, em estilo cinema verité, a visitar Júpiter e seus satélites sob exploração da nave Voyager II, e a conhecer o Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia. A Espinha Dorsal da Noite, sétimo episódio, para conhecer o mistério das estrelas, vai a antiga Grécia, onde sábios como Anaximandro deram respostas cientificas que assombraram o mundo. Demócrito propõe o conceito de átomo. O mundo é acessível à razão.

Viagens no Espaço e Tempo, oitavo, começa com Sagan numa praia refletindo sobre o número de grãos de areia nela contidos. O número de estrelas é maior. Define-se ano-luz. Introduz-se a revolução no espaço-tempo feita por Einstein. As Vidas das Estrelas, nono episódio, esclarece o mundo subatômico, as supernovas, buracos negros. Sagan usa Alice no Pais das Maravilhas para mostrar os efeitos gravitacionais.
Ciência e religião convergem
O décimo episódio, A Margem do Para Sempre, serve para Sagan levantar a questão cosmológica: de onde viemos? Aparecem os mitos, as hipóteses científicas, a tese da Grande Explosão, a religião hinduísta com escalas de tempo correspondentes à moderna cosmologia cientifica. Na Índia, Sagan discute a convergência entre ciência e pelo menos uma religião.

A Persistência da Memória, décimo primeiro, sugere que as baleias podem ser uma espécie inteligente. São analisadas as canções das baleias, talvez um código. Sagan leva-nos a uma viagem pelo cérebro humano, ao código genético, à invenção das bibliotecas, extensões do homem. No décimo segundo, Enciclopédia Galática, Sagan busca os sinais de vida extraterrestre, discute as idéias de Erich Von Daniken, recria a decifração dos códigos desde Champollion até a comunicação interestelar. E finalmente, no décimo terceiro episódio, Quem Fala pela Terra?, Sagan resume tudo, o conhecimento do passado e as perspectivas futura. Chega-se a uma "estranha" civilização, o planeta Marduk, tecnologicamente avançado, mas que não resolveu uma questão crucial: a tecnologia rompe todos os limites morais de seus criadores e ameaça a própria sobrevivência da sociedade. É preciso vigilância, aconselha Carl Sagan, pois o conhecimento é algo frágil, ante o lado escuro do homem.
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CARL Sagan escolheu a sua profissão, astrônomo, quando tinha apenas 12 anos. Graduou-se pela Universidade de Chicago e depois estudou genética com o Prêmio Nobel Hermann Müller. Ensinou em várias escolas superiores e chegou a chefe do Departamento de Astronomia e Vida Extraterrestre da Universidade de Cornell. Como exobiologista (estudioso de vida fora da Terra), trabalhou para a NASA, principalmente em dois projetos. Foi sua a idéia de colocar na nave Pioneer 10 uma placa com informações gráficas sobre a posição da Terra no sistema solar e as características dos seus habitantes, para o possível conhecimento de outra civilização. Foi um dos analistas dos dados e fotografias enviados de Marte pela Viking. Sagan, 47 anos, é autor de 14 livros, alguns dos quais já traduzidos no Brasil, entre eles Os dragões do Éden e Cosmos.
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A TERRA É A CASA DO HOMEM;
O UNIVERSO É O SEU PAÍS

Mario Pontes

QUANDO desligar o seu aparelho, após a emissão do último dos 13 capítulos da série Cosmos, o telespectador que houver acompanhado atentamente o programa estará concluindo algo como um curso de nível universitário. Mas um curso que universidade nenhuma tem para oferecer. Pois nesta época de compartimentação da ciência, Cari Sagan, com a ambição de um sábio renascentista, tenta abarcar as diversas áreas essenciais do conhecimento e transmitir um saber quanto possível totalizante.

Sob esse aspecto, Cosmos vai muito além de outras séries culturais de televisão realizadas nos últimos anos, das quais apenas uma foi exibida no Brasil, A Era da Incerteza, de John K. Galbraith. Os objetivos de Galbraith, como se viu, eram limitados. Ele quis apenas mostrar como se instalou o capitalismo, de que maneira cresceu, a quem beneficiou, a quem prejudicou, e finalmente como a sua contestação pôs o nosso mundo no fio de uma navalha. 

Cosmos vai além, igualmente, de outra brilhante série criada para a televisão inglesa e por enquanto conhecida entre nós apenas através do livro que dela resultou: A escalada do homem (Editora da Universidade de Brasília), do recém-falecido Jacob Bronowski, filósofo polonês que passou boa parte da vida na Inglaterra. Bronowski, um dos autores que melhor souberam falar de filosofia e ciência para o grande público, cingiu-se a acompanhar a evolução cultural do homem, da pré-história aos dias atuais.
Divulgar é preciso
Na comunidade científica, não falta quem torça o nariz ao ouvir o nome de Carl Sagan. Embora reconheçam nele um cientista de valor, não aprovam a sua transformação em um showman da ciência, como ele mesmo gosta de definir-se. Acham que ele é narcisista, demasiado estrela, demasiado teatral. Que vulgariza em excesso e que, muitas vezes, ultrapassa as fronteiras da objetividade, aventurando-se no perigoso terreno da especulação. Sagan, porém, já declarou que corre seus riscos conscientemente. Pior do que a possibilidade de cometer erros tentando acertar, parece-lhe o fato de que o conhecimento científico, essencial à sobrevivência da humanidade, permaneça confinado nos laboratórios, nas salas onde os cientistas discutem entre si e nas páginas de livros compreensíveis unicamente aos altamente especializados.

É um absurdo, diz Sagan, que praticamente todos os jornais tenham uma coluna diária de astrologia e contem-se nos dedos os que tenham uma de astronomia. Ou seja, que às vésperas do ano 2000 ainda se de mais espaço à superstição do que à ciência. As naves até agora enviadas ao espaço extraterrestre — acrescenta ele — devolveram aos cientistas uma formidável massa de dados novos sobre o comportamento do Sol, a constituição dos planetas, a evolução das estrelas e outros corpos celestes. Mas, até agora, só uma pequenina fração dessas novidades chegou ao homem comum através dos meios de comunicação.

Impressionado com o que considera um fosso entre o interesse popular pela astronomia (e as ciências associadas, como a exobiologia) e a exigüidade das iniciativas destinadas a satisfazer essa curiosidade, Sagan resolveu que ele próprio tinha de fazer algo. Foi então que deixou de ser um cientista de gabinete e resolveu tornar-se também um divulgador. Sua primeira idéia foi fundar uma empresa para produzir filmes científicos destinados á televisão, idéia acolhida pela Public Boadcasting Service, de Los Angeles. Foi assim que Cosmos teve origem.

A série e o livro nasceram juntos. E Sagan, mais feliz do que tantos outros autores, pôde realizá-los exatamente na medida das suas intenções. Cosmos, a série para a televisão. foi concebida antes de mais nada como um produto de impacto visual, tão atraente quanto um filme de ficção científica do tipo Guerra nas Estrelas, capaz — disse o autor — de "tocar o coração e as mentes" de uma grande audiência popular. A resposta foi compensadora. Cerca de 140 milhões de pessoas — 3% da população humana — viram o programa e, a exceção de alguns cientistas ciosos do seu saber, declararam-se encantadas. O livro, publicado em várias línguas (no Brasil foi editado pela Francisco Alves), já alcançou a casa dos milhões de leitores.
Viagem às galáxias
Ao contrário de Galbraith e Bronowski. que desenvolvem suas explanações de maneira cronológica, Sagan não segue uma trajetória linear: a grande explosão na qual teria tido origem o universo, a condensação das galáxias e, finalmente, o aparecimento da vida em pelo menos um deles, este grãozinho de poeira em que vivemos. Sagan prefere um caminho em ziguezague. O mais comum, em seu método, é partir do geral para chegar ao particular. E, como um músico, freqüentemente repete o seu tema, expondo-o primeiro de maneira breve, depois estendendo-o e aprofundando-o.

A condição do leitor ou do espectador de Cosmos, no inicio do primeiro capítulo, é a de quem olha o céu numa noite escura, pontilhada de milhares de astros. De repente, algo o arrebata do seu ponto de observação, levando-o a viajar pelos abismos de milhões de anos-luz que separam estrelas e galáxias. Terminada a viagem, ei-lo de volta à Terra, onde o espera o comunicativo Sagan para uma digressão histórica sobre como, ao longo de milhares de anos, o conhecimento do universo evoluiu até chegar ao nível em que hoje se encontra.

Várias vezes, na sucessão dos capítulos, Sagan voltará a relembrar a trajetória dos homens de ciência, mostrando como através da observação paciente, da imaginação e ás vezes da intuição foram formando uma imagem cada vez mais verdadeira, nítida e coerente do universo. Como, partindo da percepção de fatos que hoje nos parecem tão óbvios — a esfericidade da Terra, por exemplo —aprenderam a distinguir estrelas de planetas, a notar movimentos no que parecia estático, a medir distâncias, a construir a própria história dessa infinidade de mundos que nos cercam.

Contudo, sugere Sagan, a maior de todas as descobertas da ciência é também a aparentemente mais simples: a noção de que não somos estranhos, e sim de que fazemos parte do universo. Nem sempre foi assim. No começo da história da civilização, o universo era algo estranho para os homens que o observavam. Era algo misterioso, dotado de forças capazes de decidir sobre os nossos destinos. Na medida em que fomos compreendendo os fenômenos do cosmos, fomos também nos libertando do mistério, do terror. Há muito ainda por compreender, há coisas que, decerto, jamais compreenderemos. Mas jamais voltaremos a imaginar nosso destino regido por forças misteriosas.

Quem entender isso, terá entendido Cosmos e estará em condições de aproveitar plenamente a essência do que Sagan quis transmitir. Somos parte do universo porque nascemos do mesmo bang inicial, somos formados da mesma matéria de que são feitas as estrelas e a poeira existente, as galaxias. Portanto, tudo o que acontece no resto do universo é do nosso interesse. Inclusive pela razão prática de que um dia talvez tenhamos de abandonar a Terra em busca de outro lar, quando este aqui se tomar inabitável.

Será isso possível? A resposta depende da solução de um sem-número de enigmas que ainda não fomos capazes de resolver, mas que um dia resolveremos. Ainda não sabemos, por exemplo, se em algum lugar do universo existem planetas de características semelhantes às da Terra, em condições, portanto, de abrigar os futuros imigrantes do espaço. Não sabemos, ainda, se e quando poderemos desenvolver a nossa tecnologia ao ponto de tomar possíveis as viagens à velocidade da luz, único meio de chegar a outros mundos. Não sabemos ainda se existem civilizações estelares e se elas estariam dispostas a nos acolher.
O lar e a pátria
Sagan não tem dúvida de que um dia encontraremos respostas para as nossas grandes e fundamentais interrogações acerca do universo. Mas antes que isso ocorra, milhares de anos se passarão. Até lá — é preciso não esquecer — nossa morada será esta casquinha de noz, que viaja pelo espaço protegida por um fina película de ar e ameaçada por energias que mal começamos a conhecer e sobre as quais talvez nunca possamos exercer um verdadeiro controle.

Contudo, observa o autor, a maior ameaça ao nosso futuro parte de nós mesmos. Do mau uso que vimos fazendo da tecnologia, do descuido com que tratamos o solo, a água, o ar. Somos uma civilização emergente e já à beira da catástrofe? Como evitá-la? A resposta de Sagan é que o melhor ponto de partida para não cometermos suicídio é adquirirmos a compreensão de que se a Terra é a nossa casa, o universo é o nosso país. Sobreviver, portanto, não é um problema exclusivamente nosso. Se somos parte do universo, continuarmos vivos e desenvolver a nossa civilização é uma responsabilidade para com o nosso país, este cosmos que não cumprirá inteiramente o seu destino se a humanidade não cumprir o seu.

Esta a lição essencial do irrequieto exobiólogo americano, que depois de ter conquistado os mais altos postos na vida cientifica e universitária, não hesitou em descer do seu pedestal para falar ao público com a simplicidade de um mestre-escola e o entusiasmo de um pregador que lança uma mensagem carregada de advertência, mas apesar de tudo otimista.

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Sábado, 24 de abril de 1982

sábado, 6 de fevereiro de 2016

10.08.1934 - O «Brazilian Clipper» a caminho do Rio



O «Brazilian Clipper» a caminho do Rio
Será baptizada pela Sra. Getulio Vargas a gigantesca aeronave

O "Brazilian Clipper", que trará ao Brasil, na sua viagem inaugural, figuras eminentes da sociedade americana

Vae ser inaugurado, nas linhas aereas do Brasil, um dos mais gigantescos aviões até hoje fabricado para o transporte de passageiros e cargas. Essa nova unidade, que virá dar maior impulso á aeronautica commercial no nosso paiz, pertence á frota da Panair. E' o formidavel hydro-avião Sikorsky S-42, que está em Miami, na base da empresa, prompto para levantar vôo com destino ao Rio de Janeiro, onde terá logar o seu baptismo official. A madrinha da nova aeronave, que receberá o nome de "Brazilian Clipper", será a Sra. Darcy Vargas, esposa do presidente da Republica.

De accordo com as ultimas informações, recebidas, o possante quadrimotor deixará Miami com declino ao Rio de Janeiro e Buenos Aires, em 16 de agosto, em viagem especial. Somente mais tarde será estabelecido o seu itinerário e horarios normaes, na linha rapida de passageiros Estados Unidos-Brasil-Uruguay-Argentlna.

Nessa viagem especial, anterior no seu baptismo, o "Brazilian Clipper" conduzirá apenas 24 passageiros, to-
(CONTINÚA NOUTRO LOCAL)

O "Brazilian Clipper" a caminho do Rio
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(CONTINUAÇÃO DA 1ª PAG.)
dos elles personalidades de destaque nos circulos sociaes, politicos e commerciaes dos Estados Unidos.

O itinerario organisado para essa viagem será o seguinte:

Agosto 18 — Chegada o Belém do Pará; dia 19 — Belém do Pará-S. Luiz do Maranhão-Natal-Cabedello (João Pessôa); dia 20 — Cabedello-Bahia-Rio de Janeiro; dias 21 e 22 — Rio de Janeiro (baptismo official); dia 23 — Rio de Janeiro-Porto Alegre-Montevidéo-Buenos Aires; dias 24 e 25 — Buenos Aires; dia 26 —Buenos Aires-Montevidéo-Porto Alegre-Rio de Janeiro; dia 27 — Rio de Janeiro-Bahia-Cabedello; dia 28 — Cabedello-Natal-S. Luiz do Maranhão; dia 29 — Partida de Belém para Miami.

Tratando-se de uma viagem feita exclusivamente para cerimonia do seu baptismo, o grande apparelho de 19 toneladas, o maior até hoje construido nos Estados Unidos, não transportará encommendas e malas postaes, e somente escalará nos portos acima referidos para fins de abastecimento e pernoite.

Com a entrada em serviço regular desse gigante dos ares e de mais dois apparelhoos gemeos cuja construcção está sendo apressada nos estaleiros de Bridgeport, nos Estados Unidos, o tempo das viagens entre as cidades servidas pela Panair será enormemente encurtado, o que representa uma grande vantagem para o progresso material e intellectual do paiz.

Jornal A Noite, Rio de Janeiro, sexta-feira, 10 de agosto de 1934

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

01.04.1965 - Teria Sido Assassinado o Homem Dado Como Suicida há 8 Anos em Pouso Alegre


Teria Sido Assassinado o Homem Dado Como Suicida há 8 Anos em Pouso Alegre

BELO HORIZONTE, 13 (O GLOBO) — Depois de laboriosas diligências, o delegado Asdrúbal Giovanini, da Corregedoria de Polícia, apontou Maria Delfim Campos e seus filhos Argentino e Nelcides, proprietários da Pensão Glória, de Pouso Alegre, como responsáveis pela morte de Enelides Bernardes dos Santos, que há oito anos fôra registrada como suicídio na delegacia daquela cidade. 
Investigações
O delegado teve a primeira suspeita ao examinar o relatório dos legistas que fizeram a autópsia do cadáver de Enelides, que fôra encontrado boiando, em novembro de 1957, nas águas do rio Sapucaí. Os médicos verificaram que os pulmões da vítima estavam secos e contraídos, o que afastou a hipótese de afogamento. Nas vísceras foi encontrada pequena quantidade de arsênico, mas o delegado não concordou com a possibilidade de suicídio, porque o morto era homem de profundas convicções religiosas. Uma fratura do crânio, finalmente, indicava que Enelides só poderia ter sido assassinado. De fato não lhe seria possível tomar arsênico, fraturar a base do crânio e atirar-se em seguida às águas do Sapucaí.
Assassinado
Prosseguindo nas investigações, o delegado Asdrúbal Giovanini descobriu que Enelides morava na Pensão Glória e estava desempregado, razão por que a proprietária e seus filhos viviam ameaçando-o do despejo. Para ver-se livre das ameaças, Enelides disse que tinha um pequeno depósito na Caixa Econômica de Pouso Alegre e saiu um dia para retirá-lo, em companhia de Nelcides. Lá se descobriu que êle nunca fôra depositante do estabelecimento e os dois saíram juntos. Uma semana depois o cadáver de Enelides apareceu boiando nas águas do Sapucaí, perto da cidade e o caso foi dado como suicídio.

Com as conclusões a que chegou o delegado de Belo Horizonte, o inquérito será reaberto. 

O GLOBO, segunda-feira, 1 de abril de 1965

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

01.02.1975 - Uma festa para Santa Teresa: inaugurada a estação de bondes

O GLOBO ♦ 1-2-75 - Sáb
A tardinha, os bondes já circulavam normalmente:
uma antiga cena nos Arcos da Lapa.

Uma festa para Santa Teresa: inaugurada a estação de bondes

O descarrilamento do bonde-oficina Revoltoso, pouco antes da hora marcada para a Inauguração da noca estação de bondes de Santa Teresa, não impediu ontem que as solenidades programadas fossem cumpridas no horário e não chegou sequer a ameaçar o brilhantismo da festa.

Depois de 40 minutos de trabalho, os operários da CTC conseguiram recolocar o Revoltoso sobre os trilhos, em frente à plataforma da estação, e exatamente às dez horas os bondes quatro, oito e treze puderam atravessar em triunfo os Arcos da Lapa, trazendo, da sede da administração regional do bairro, cerca de 200 convidados para a cerimonia de inauguração.

Com a chegada do Governador Chagas Freitas, do presidente da Petrobrás, Araken de Oliveira, do presidente da CTC, Heriberto Cascão, e do Secretário de Obras, Emílio Ibrahim, a festa começou: dezenas de balões de gás coloridos foram soltos, enquanto os presentes acompanhavam a banda da Polícia Militar, cantando Cidade Maravilhosa.
Alegria
Após a execução do hino nacional, o Governador do Estado descerrou a placa comemorativa da inauguração. O Secretário de Obras fez o primeiro discurso, exaltando o Governo da Guanabara por ter recompensado "finalmente a paciência, a longa espera e os anseios dos moradores de um dos locais mais atraentes e tradicionais da terra carioca".

Fica assim satisfeita  acrescentou — uma das mais justas aspirações dos moradores de Santa Teresa, que preferem os bondinhos, selando a sorte dos poucos que se inclinam pela opção dos onibus.

O Embaixador Pascoal Carlos Magno, um dos maiores defensores dos bondinhos de Santa Teresa, fez um discurso mais apaixonado:

— Depois de muita luta, de muitos memorandos e abaixo-assinados, os 70 mil moradores de Santa Teresa saúdam com imensa alegria o retorno dos bondinhos sobre os Arcos da Lapa. Ainda afastaremos totalmente do bairro os paquidérmicos onibus, que abalam as estruturas dos casarões e sobradões do Santa Teresa. E outra coisa: é necessária a volta dos bondes que iam até o Silvestre.

A idéia de restabelecer as linhas de bondes ponta-a-ponta — da nova estação ao Silvestre — já tem até, para sustentá-la, uma campanha preparada pelo Lions Clube de Santa Teresa. Ainda esta semana, informou o representante do Lions, Roque Ferrer, serão lançados os cartazes de propaganda.

— A volta dos bondinhos ponta-a-ponta tem muita importancia turística, além de grande utilidade pública para os moradores do bairro — disse Ferrer. Além disso, queremos também os bondes-bagageiros, única solução, diante da dificuldade de subida de caminhões.
Alegria, Alegria
A primeira viagem oficial, da nova estação (Estação Circular) até o Largo dos Guimarães — foi realizada ontem pelo bonde número 13, conduzido pelo motorneiro Antonio Pinto de souza.

Quando o bonde fez a travessia dos Arcos da Lapa, seus quase 60 passageiros vibraram de alegria. E, por todo o percurso, todos cantaram e pularam, saudando os moradores do bairro, que corriam para as ruas e janelas.

A viagem durou cerca de 20 minutos. Logo atrás vinham os outros dois bondes — números 4 e 8 — que também tinham participado da festa de inauguração. Na chegada ao Largo dos Guimarães, todos os passageiros desceram e os bondes seguiram para as oficinas.

A volta de um motorneiro

Quando o primeiro bondinho chegou à nova estação, uma pessoa mostrava-se particularmente feliz  o motorneiro Antonio Pinto de Souza, escolhido para fazer a viagem inaugural.

Antonio trabalha há 21 anos para a companhia dos bondinhos de Santa Teresa, mas nos últimos tempos fora transferido para o serviço de manutenção.

Muito sorridente, Antonio contou que ficou surpreso, ao ser convidado pelo gerente de Serviços de Bondes de Santa Teresa, Manuel Antunes, para ser o motorneiro na viagem inaugural:

— Eu não esperava poder vestir novamente o uniforme de motorneiro, mas fiquei feliz quando o chefe me chamou para fazer a viagem. Isto mostra que ele tem confiança em mim. Em 21 anos de trabalho, não tive nenhum acidente.

Ele considera importante para a volta dos bondinhos, "porque o passeio é pitoresco, o ar é mais puro; não é como nos onibus, aquela gente toda respirando o mesmo ar.

Os 28 bondes em serviço (dez dos quais estão sendo reformados) têm capacidade, cada um, para cerca de 50 pessoas — 32 delas sentadas. A companhia emprega 180 pessoas para condução e remuneração dos bondes, e cobra Cr$ 0,90 pela passagem.

Galeria de arte,
outra atração

O Governador Chagas Freitas e outras autoridades visitaram a galeria de arte também inaugurada ontem, na estação de bondinhos de Santa Teresa. A exposição foi mostrada aos convidados pela administração da 23a. Região, Elza Pinho Osborne.

O Governador deteve-se diante dos quadros de Vicente Semola, que retratam paisagens de Santa Teresa. Além dos trabalhos de Semola, estão espostos, na ampla sala da galeria, pinturas, esculturas e entalhes de artistas moradores no bairro, entre os quais José Tarcísio, Celeste Bravo, Vanilda, Mendez e Cássia Drummond.

Destaca-se, entre as obras expostas, um painel da pintora Djanira, antiga moradora e figura tradicional de Santa Teresa. Elza Osborne informou que o trabalho de Djanira ficará permanentemente exposto; os outros artistas realizarão, futuramente, exposições próprias.

Djanira, que chegou no primeiro bonde que trazia convidados para a inauguração da estação, disse que "a volta dos bondinhos representa o respeito às tradições de Santa Teresa, a este povo que tanto lutou, sob o comando da Dra. Elza Oaborne, pela conservação do mais agradável meio de transporte".

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O Globo, sábado, 1 de fevereiro de 1975

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

20.03.2000 - Mitos em torno das fusões

Mitos em torno das fusões


Adriano Pires Rodrigues* e
Viviana Cardoso de Sá e
Faria**


No início do século XX ocorreu, nos EUA, o mais conhecido e polêmico processo de prática de monopólio envolvendo a Standard Oil Company. O julgamento desse processo e a conseqüente divisão desta grande companhia em sete empresas, as chamadas "The Seven Sisters", ficaram mundialmente conhecidos. Assistimos, no final deste mesmo século, a um movimento inverso, onde vários setores da economia estão promovendo maga-fusões, sendo que as empresas do setor petrolífero figuraram como "vedetes" dessa tendência.
O movimento de fusão ocorre quando os preços se encontram num nível abaixo do ideal
O movimento de fusão de empresas é cíclico, ou seja, ele ocorre quando os preços se encontram num nível abaixo do ideal para fazer frente aos investimentos necessários para expandir e inovar os seus produtos e serviços. A união dessas empresas é uma tentativa de maximizar o uso da sua infraestrutura e minimizar os custos de produção. Outro aspecto importante são as trocas de tecnologia que estão envolvidas neste tipo de transação. As incorporações de empresas são, em muitos casos, inevitáveis, podendo até ser desejáveis no que tange aos avanços tecnológicos.

Do ponto de vista econômico, o processo de fusões e aquisições pode ser explicado pela presença dos seguintes fatores: baixo retorno do investimento realizado; plantas com alta capacidade ociosa; e, finalmente, um excessivo número de empresas num mesmo mercado. Sendo assim, os objetivos desse movimento são os de reduzir custos, buscando obter "economia de escala"; otimizar o uso de suas plantas industriais e diversificar o portfólio. No caso da indústria do petróleo, esses argumentos ficam reforçados quando observamos as principais tendências que irão influenciar a organização da indústria no próximo século. A primeira é referente à verticalização da cadeia de gás. A segunda, diz respeito à horizontalização do refino e do marketing. E, finalmente, a terceira é a busca incessante por parte dessas empresas de grandes projetos, com baixos custos unitários na área do upstream, a fim de diluir os altos riscos envolvidos na atividade.

Dentro deste contexto, as fusões da Exxon/Mobil e a da BP Amoco Arco obtiveram pareceres distintos do órgão regulador americano. O valor da transação, envolvendo a fusão da Exxon/Mobil, foi de US$ 81 bilhões. Esta fusão foi aprovada, em final de 1999, pelo órgão responsável pela defesa da concorrência, com restrições em função da posição ocupada por essas empresas em determinados locais do território analisado. O parecer do órgão americano, o Federal Trade Commission (FTC), recomendou a venda de aproximadamente 2.431 postos de gasolina da Exxon e Mobil. A sugestão seguiu a seguinte proporção: 1.740 no Nordeste e no Centro Atlântico; 360 na Califórnia: 319 no Texas; e 12 em Guam. Adicionalmente, terão que ser vendidas a refinaria da Exxon na Califórnia, terminais, oleodutos e outros ativos. O órgão exigiu que esses postos fossem vendidos para um único comprador, a fim de criar um novo concorrente na região. A nova empresa Exxon-Mobil irá sofrer uma queda no seu faturamento devido à venda desses postos. Porém, espera-se que, no longo prazo, os cortes de custos que devem resultar da troca de ativos do setor de varejo pelos da área de exploração e produção compensem essa perda.

Apesar de anteriormente a fusão BP Amoco ter sido aceita pelo FTC, a proposta atual de incorporação da Arco está sendo contestada pelo órgão regulador americano. O argumento da contestação baseia-se no fato de a fusão BP Amoco/Arco apresentar composições indesejáveis, em determinadas regiões dos EUA. Esta nova empresa controlará 70% da produção de óleo do Alasca, 72% do oleoduto Transalaska, além da significativa participação no varejo da Costa Oeste, onde a Arco oferece preços sempre mais competitivos.

A tendência, segundo analistas da indústria de petróleo, é de que as empresas continuem buscando parcerias/fusões que as tornem "super-majors", pois só assim terão condições de enfrentar os novos tempos da indústria do petróleo e concomitantemente competir com as megaestatais da Arábio Saudita, Irã, México e Venezuela.

Esses dois exemplos de fusão mostram que existem dois mitos que precisam ser revistos. O primeiro é o de que todo o processo de fusão provoca o aparecimento de práticas monopolísticas e, conseqüentemente, lucros acima da média das empresas do setor após esse tipo de transação.

O segundo é a "falsa" percepção dos órgãos reguladores de que a concorrência, de fato, só ocorre quando há um número significativo de agentes operando num mesmo mercado. Não resta dúvida de que o número de agentes ativos poderá propiciar uma maior concorrência, mas esta não é uma relação linear. Por exemplo, o aumento do numero de empresas no mercado de gás e eletricidade, na Espanha, parece estar ocasionando uma redução no nível de competição. No Brasil, o crescimento do número de empresas no setor de distribuição de derivados de petróleo parece estar provocando uma concorrência mais predatória do que benéfica ao consumidor.

Na realidade, a verdadeira concorrência só passa a existir quando o arcabouço legal e regulatório está bem definido, permitindo uma competição igual para todas as empresas participantes de um mesmo mercado. A recente venda de ativos da Shell, segundo explicação da própria empresa, ocorreu, principalmente, pela falta de definição de regras claras, o que impediu a Shell de concorrer com empresas que sonegam impostos e adulteram combustível. 

Conclusão, o papel dos órgãos reguladores e, em especial, dos responsáveis pela defesa da concorrência torna-se cada vez mais importante neste novo ciclo da economia brasileira, pois serão estes que irão regular as atividades das empresas nos diferentes mercados, elaborando uma legislação que impeça as práticas monopolísticas e ilegais, garantindo, assim, a qualidade do serviço/produto e, ao mesmo tempo, evitando normas que provoquem perdas de eficiência econômica. ◙
A verdadeira e concorrência só existe quando o arcabouço legal e regulatório está bem definido
* Professor do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coppe/UFRJ.
** Mestranda do PPE da Coppe.

Gazeta Mercantil, segunda-feira, 20 de março de 2000

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

29.01.1987 - Morte leva "Teixeirão" após longa enfermidade

"Teixeirão" ex-prefeito de Manaus e governador de Rondônia

EX-PREFEITO DE MANAUS

Morte leva "Teixeirão" após longa enfermidade 

Morreu o Teixeirão. Deixou um grande legado ao povo amazonense. Antes de ser governador de Rondônia, o coronel reformado do Exército, foi prefeito de Manaus, nomeado pelo então presidente Ernesto Geisel. Sua marca registrada era trabalho. Quebrou uma máxima de que o povo tinha medo de militar. Ao contrário, Teixeira tornou-se muito popular, várias vezes, aonde chegava, nos bairros, era obrigado a parar para cumprimentar as pessoas.

Avesso à politica, Jorge Teixeira sempre afirmava que disputar cargo eletivo não fazia o seu gênero. Para alguns amigos, como o jornalista Flaviano Limongi, "não era medo de enfrentar as urnas. Era o seu temperamento. Gaucho, Teixeirão deixou grandes obras em Manaus, mas o seu grande sonho não se realizou: ser governador do Estado. Ele chegou a ser cogitado, ainda, antes da eleição do ano passado para ser candidato do PDS ao Governo. Alem de doente, quando encerrou seu mandato de Governador de Roraima, Jorge Teixeira guardava ainda ressentimentos.

Teixeira foi prefeito de Manaus no período de 75 a 79, no governo do ministro Henock Bezerra. Ele antes de entrar para a politica, foi major do Grupamento Especial de Fronteira, de onde saiu, para vice-presidente da Federação Amazonense de Futebol. Sua primeira grande obra: a construção do Colégio Militar de Manaus. Foi fundador também do Cigs. Soldado fiel aos princípios militares, Jorge Teixeira sempre exigiu a disciplina dos seus comandatos.

Campeão brasileiro de basquete — chegou a jogar com o ex-capitão da Capitania dos Portos, Almirante Hermes da Fonseca —, o coronel Teixeirão marcou a sua administração na Prefeitura de Manaus iniciando o Sistema Viário de Manaus, a construção de 200 Km de novas vias; implantou a Usina de Lixo, da Compensa. Homem polêmico: não costumava dar importância para as críticas de políticos até do seu próprio partido — o PDS — Jorge Teixeira implantou o corredor exclusivo de ônibus e os primeiros calçadões do centro de Manaus foram construídos na sua gestão.

Reconhecido como um militar muito humano, o ex-prefeito de Manaus até hoje é lembrado pelas garis. Ninguém esquece a sua generosidade. "Era homem bom de coração; não maltratava ninguém; falava com todo mundo", afirmou a servente Sebastiana Alves de Souza, 47 anos — 9 de Prefeitura de Manaus. Ela afirmou que já marcou para o próximo domingo uma missa em homenagem póstuma ao falecimento do coronel Teixeira.

Pedro Feitosa de Souza, 61 anos, segurança do garajão, conta que Jorge Teixeira foi um dos poucos prefeitos que costumara visitar o garajão. "Lembro muito bem que, ele passava de manhã nas frentes de obras e à tarde voltava para constatar como estavam os trabalhos", disse.

A última vez que Jorge Teixeira esteve visitando o Garajão da Prefeitura de Manaus, foi em 1985. "Ele veio para pegar uma medicação dos galpões a fim de levar para Rondônia. Recordo muito bem, após nos cumprimentar, que ficou até um pouco triste quando viu algumas telhas soltas dos barracões que ele construiu para guardarem as máquinas pesadas, frisou Jones Wanderley, ex-motorista da administração do Teixeirão, atualmente diretor de terraplanagem. 

Jorge da Silva Luzana, um encarregado de trecho da Prefeitura, reviveu os bons momentos quando o coronel Jorge Teixeira visitava as frentes de obras. "Essa garagem era o orgulho dele. Teixeira pagava merenda do bolso muitas vezes para gente. E antigamente, na sua administração tínhamos fardas. A Prefeitura dava calças e camisas para a gente," explicou.

No Colégio Militar ninguém quis falar. O coronel Giorge, único remanescente da época do coronel Jorge Teixeira quando foi diretor do colégio, não foi encontrado. Estava participando de uma reunião no CMA. Mesmo assim, muitos oficiais já sabiam ontem que o fundador do CMM havia falecido no Rio de Janeiro em decorrência de um enfarto, aos 65 anos. 

1º GOVERNADOR

RIO, (AJB) — Criado em dezembro de 1981, o Estado de Rondônia teve como seu primeiro governador o coronel pára-quedista do Exército, especializado em combate nas selvas, Jorge Teixeira de Oliveira, nascido no Rio Grande do Sul em 1924.

Em 4 de janeiro de 1982 o coronel Teixeira assumiu o governo do 23º. Estado na Federação, depois de ter seu nome sido aprovado pelo Congresso Nacional, fator que motivou um verdadeiro carnaval em Porto Velho, a capital do novo Estado, quando a população saiu às ruas para comemorar.

Rondônia, cujo território é, em extensão, quase do tamanho de São Paulo, viveu momentos de grande euforia, embora todos soubessem dos problemas que deveriam ser enfrentados após sua autonomia, com a perda de verbas federais para seu sustento. Sua população, de cerca de 800 mil habitantes, é em sua maioria formada de lavradores paranaenses, gaúchos, paulistas e nordestinos, que foram para lá abrir a última fronteira agrícola do Pais.

O novo Estado foi um território criado em 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas, reuniundo partes do Amazonas e de Mato Grosso, em torno da estrada de ferro Madeira-Mamoré, batizado na época com o nome de Guaporé. Seu nome foi uma homenagem ao marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, considerado o maior militar brasileiro deste século.

Dezoito meses depois de sua criação, o Estado de Rondônia completou o ciclo de sua implantação, no momento em que os três poderes entraram em funcionamento. À frente do executivo, o governador Jorge Teixeira passou a desenvolver um esforço de modernização, criando as condições para o seu desenvolvimento econômico e social. No legislativo, os 24 deputados-constituintes eleitos em novembro de 82 apresentaram a proposta de constituição do Estado, elaborada durante três meses. Por poder judiciário, por sua vez, já inteiramente implantado, dotou o novo Estado de uma justiça ágil e adequada as características geográficas e sociais.

Teixeira foi o primeiro governador do novo Estado e o 26º. desde que foi criada aquela unidade da federação. Ele apenas foi confirmado no cargo, pois já vinha exercendo as funções de governador na unidade como território. Era, como ele afirmava, uma fase (pré-Estado), onde se fazia um campo experimental do País para a criação do Estado, o coronel Teixeira afirmava estar baseando a economia de Rondônia em cima da agricultura, com o pequeno produtor, o que representava 70 por cento da arrecadação. O restante provinha do minério.

O governador Jorge Teixeira, ao cumprir os quatro anos de seu mandato, considerou ter sido urna jornada "muito difícil porém muito honrosa", porque atingiu, como coroamento, a sua meta principal de transformar o então território, no Estado em que é hoje.

Jorge Teixeira, que o povo de Rondônia acostumou-se a chamar de "Teixeirão", afirmava:

— Hoje, depois de quatro anos de trabalho, posso com orgulho olhar o que foi feito e dizer que não passei por Rondônia em vão. Tenho certeza de que não decepcionei. Em abril de 1979, quando assumi o governo, tinha em mente um só objetivo: trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Jornal A Crítica, Manaus, quinta-feira, 29 de janeiro de 1987

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

26.01.1966 - Vitória do Coríntians sôbre a URSS por 3x1


Vitória do Coríntians sôbre a URSS por 3x1

S. PAULO — (Especial para a LUTA DEMOCRÁTICA)  Com tentos de Tales, que estreou para a platéia paulista, aos 2 minutos da primeira fase, Dino, de "penaltù" aos 20 e Rivelino, aos 40 minutos, já na etapa complementar, enquanto nessa mesma fase, Voronim marcava o gol de honra dos visitantes, o Coríntians paulista derrotou ontem no Morumbi, a União Soviética por 3x1, estreando em sua temporada pelos gramados da América do Sul, no Torneio Internacional que o Flamengo está patrocinando.

A arbitragem estêve a cargo de Olten Aires de Abreu, somando a arrecadação a quantia de Cr$ 41.946.000, com público pagante de 18.548 pessoas.

Agora, domingo vindouro, jogarão Flamengo x Coríntians e seleção da União Soviética x Palmeiras, havendo, todavia, gestões para que Coríntians e Palmeiras façam a principal partida, como únicos vencedores, jogando os perdedores, soviéticos e rubro-negros, na preliminar.

Os soviéticos estranharam o calor dos mais fortes que fêz na capitai paulista, porem, aos poucos a temperatura foi melhorando e êles puderam jogar de igual para igual com os brasileiros, que, todavia tiveram a chance à seus pes, quando Tales recebeu excelente lançamento de Dino Sâni e abriu o escore, aos 4 minutos. Daí para frente, os quadros se equivaleram nas ações não havendo superioridade. Algumas boas ocasiões de gol, entretanto, foram desperdiçadas pelos dois adversários. E o escore não se alterou até o final da etapa inicial. 

Fazendo entrar Flávio em lugar de Nei, que não vinha rendendo vem, Osvaldo Brandão proporcionou acentuada melhoria técnica em sua equipe. Aos 20 minutos, Flávio foi derrubado dentro da área e Oltem Aires de Abreu marcou a pena máxima que Dino Sâni converteu no segundo tento corintiano. Rivelino, aos 40, aumentou para 3-0, num belo gol, quando enveredou pelo centro da área e atirou para marcar.

URSS TIRA O ZERO
Todavia, a equipe da União Soviética carecendo de preparo físico, que demonstrou no desenrolar do jôgo, conseguiram, graças a uma bobeada da defesa coríntiana, tirar o zero de seu placar, por intermédio de Voronin aos 42 minutos, encerrando-se o confronto com esta contagem: CORÍNTIANS, 3 x UNIÃO SOVIÉTICA, 1.

JUIZ, RENDA E TIMES
Os quadros estiveram assim formados:

CORÍNTIANS; Heitor; Jair Marinho, Galhardo, Clóvis e Édson; Dino Sâni e Rivelino; Bataglia (Geraldo José) Nei (Flávio), Tales Gílson Pôrto
URSS: Kozavativili; Ponomariov, Schesterniov, Afonin e Danilov; Voronin e Kussainov; Chislakov, Kopaiex (Metreveli), Malafec (Banishev) e Meshli

Oltem Aires de Abreu foi o juiz somando a arrecadação .. Cr$ 41 milhões, com público pagante no Morumbi, de 18 548 pessoas. 

URSS SEM YASHIN 
Esta é a equipe da União Soviética (que ontem não contou com Lev Yashin), que caiu ante o Corintiains por 3x1, no Morumbi, em São Paulo

Luta Democrática, quarta-feira, 26 de janeiro de 1966