quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

01.05.1890 - A "Giraldinha"


A "Giraldinha"
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O artista que aos 23 annos conseguiu ter a sua reputação firmada por obras que merecem a attenção de toda a gente, pode julgar-se possuidor de um talento excepcional; deixa mesmo de ser um talentoso para se elevar á proeminencia de um genio, pode se dizer que tem o fogo sagrado a animal-o no caminho para o Capitolio.

Ser-se celebre aos 23 annos não é por ahi uma brincadeira; é um caso muito sério, e que está mesmo a pedir biographia acompanhada ao som de adjectivos de certo peso... e valor, que são, por assim dizer, os foguetes de lagrimas da celebridade.

Está n'este caso a Giraldinha, que conta apenas 23 primaveras e já tem proezas de tal finura a attestar-lhe o talento, que não temos remedio senão caixa nova de adjectivos para lhe depormos respeitosamente no seu pedestal de celebridade; porque a Giraldinha, meus senhores, não é qualquer vulgarona, é uma gatuna de primeirissima agua, deante da qual fica eclipsada toda a moderna geração de gatunos, que tem de se curvar humildemente a seus pés.

Giraldinha, uma larapia de pulso e... sobretudo de muito olho, é o terror das algibeiras de cada um; a policia não consegue deitar-lhe os tentaculos antes de queimar o ultimo cartucho; e por vezes a mesma policia, com toda a argucia propria do seu mister deixa de voar, sem saber como, da gaiola que suppõe sufficiente-te segura, aquela ave, que mette n'um chinello a Cêpa, gatuna também de bons creditos, e todos os collegas de calças.

Em Portugal, pode dizer-se, a gatunice não se amolda lá muito bem ao sexo fragil, o que não quer dizer que não esperemos com bem fundadas razões que essa arte venha a ser um dia cultivada pela mulher; pois do progresso tudo ha a esperar e nada nos deve surprehender.

Lá fora, na França, na Inglaterra, na Italia, nos Estados-Unidos, na Hespanha e no Brazil, mesmo, a mulher cultiva a arte de roubar com uma distincção pasmosa, com um entrain que nos deixa embasbacados; ─até dá gosto ficar sem a bolsa ou sem o relogio quando a empalmação nos é feita tão gentil e galantemente como ellas sabem.

Portugal, como tem um poucochinho de tudo ─ e bom, ─ não podia de modo algum ficar em casa no artigo gatuna; ahi está a Giraldinha que não nos deixa ficar mal ao lado das outras nações.

Ora como esta senhora se tornou tão celebre como gatuna, que caminha a passos de gigante para a posteridade, não nos pareceu mau dar o seu retrato aos leitores da Tarde; e cremos que assim lhes prestaremos, modestia á parte, um relevante serviço sob todos os pontos de vista.

Conhecer o retrato d'esta verdadeira heroina, tem, quanto a nós, a dupla vantagem de satisfazermos uma curiosidade, aliás muito justificavel, ─ visto que todos desejam conhecer as celebridades, principalmente o seu paiz, ─ e de nos pôr de alcateia e de pedra no sapato, quando porventura nos toque a vez de sermos os escolhidos por Giraldinha, para o seu campo de manobras.

A fim de colhermos todos os dados que por alguma fórma podessem interessar, acerca da vida da Giraldinha, fomos pessoalmente visital a ao Aljube, onde ella, d'esta vez, está... cremos que bem segura, para responder em face da justiça pelas suas ultimas proezas.

Para conseguirmos esta interessantissima entrevista dirigimo nos ao illustre director da cadeia, sr. general Almeida, que nos recebeu com aquella amabilidade que o distingue como cavalheiro primoroso que é.

S. ex.ª, quando lhe expuzemos o fim de nossa visita, concedeu-nos immediatamente a entrevista pedida, mas... desde logo nos deu as mais desanimadoras esperanças ácerca do exito que iamos colher.

Não desanimámos, confiados em que a nossa loquella poderia demover a Giraldinha a contar-nos todos os pormenores da sua vida alegra.

Chegados ao Aljube, pudémos conseguir, ─ graças ainda ao caracter extremamente amavel e obsequioso do porteiro e do secretario, sr. Oliveira, ─ que a Giraldinha viesse á secretaria; isto depois de lhe havermos exposto, a uma especie de locutorio que ali ha, qual o motivo que lá nos levava; e d'ella nos ter declarado nos termos mais laconicos que... tinhamos perdido o nosso precioso tempo.

Giraldinha veiu á secretaria e começou logo por dizer, mesmo em presença do sr. Oliveira, que assistiu a toda a entrevista:

─ Eu é que não estou para fazer mais partidas! porque se estivesse não me apanhavam cá!

Em vista da attitude da Giraldonha, começámos a empregar os nossos recursos, acalmando a com algumas palavras lisongeiras; demonstramos lhe que não iamos arrancar-lhe confissões para lhe formularmos um libello, mas simplesmente, pedir-lhe que nos contasse alguns episodios da sua vida para lhe acompanharmos o retrato, etc.

Quando a Giraldinha soube que iamos publicar lhe o retrato sorriu, como que lisongeada, e tomou uma atitude mais condescendente, mas sempre retrahindo se a fornecer-nos quaesquer notas que nos pudessem servir.

Ponderámos-lhe que se ella nos recusasse esses apontamentos, não nos seria difficil obtel-os, pelas declarações que se acham nos registros de policia.

A Giraldinha então riu-se maliciosamente e disse que todas as declaralções prestadas por ella na policia, eram meramente da sua invenção.

─ Então não se chama Maria Rosa? perguntámos. Não é filha de José Telles Vicente Novellas e de Maria dos Ramos, não é natural de Faia, concelho da Guarda?

─ Isso foi o que eu declarei á policia, mas não digo a verdade a ninguem.

─ E só agora é que mudou o nome?

─ Mudei-o quando vim da minha terra, ha proximadamente 6 annos.

─ Quando veiu para Lisboa foi para servir em alguma casa?

─ Não, senhor; fugi para a companhia d'um rapaz de quem gostava e por causa de quem meu pae me dava maus tratos. Quando cheguei prenderam me e estive no Aljube 8 dias, ao fim dos quaes me mandaram embora.

─ E quantas vezes tem estado presa?

─ Só d'essa vez e agora, por causa d'aquella velhaca da Francisca; mas ella, quando eu responder, ha-de regalar-se tambem, de sentar se no banquinho dos réus!

─ E quem é essa Francisca?

─ E' uma bagateira que mora em Belem; por causa d'umas bebidas que ella deu a um fragateiro, lá está o pobre homem doido!

─ Mas, o que mais nos interessa é a historia do tal rapaz que a desenquietou; como se chama elle?

─ Isso é que eu não digo por caso nenhum.

─ Basta! ... então a primeira lettra do seu nome.

─ Ponha lá um D...

─ Está dito; e em que se emprega elle?

─ E' padeiro, estabelecido.

─ E quando foi presa ainda estava com esse rapaz?

─ Não, senhor; ha trez annos que nos separámos, porque elle estava para casar com outra.

─ E durante o tempo que esteve na companhia d'elle, em que se empregava?

No serviço de casa; eu não precisava de trabalhar fora.

─ E onde morou durante esse tempo?

─ A's Portas de Santo Antão, por cima da casa onde morava a mãe do chefe Ferreira.

Mais tarde estivemos uma temporada da terra d ella, que é Alcorovim, proximo de Aveiro.

─ E depois que se desligou d'ella o que fez?

─ Depois fui morar sosinha para a Casa Branca, onde me empregava a lavar roupa.

A Giraldinha contou mais que a tal Francisca lhe apanhara muito dinheiro por varias vezes, a fim de fazer com que o D... voltasse para a sua companhia; que da ultima vez lhe exigira 7 libras, e que o roubo da pulseira havia sido combinado entre ambas.

Diz mais que são inexactas as noticias que os jornaes deram a seu respeito e queixa-se principalmente do Seculo.

Giraldinha é como se sabe a ultima palavra da velhacaria, o que nos faz supor que toda, ou grande parte d'esta historia seja falsa; mesmo porque ella cahiu em contradicções flagrantes; diz e desdiz com a mesma semcerimonia com que nos pode metter a mão no bolso e empalmar-nos o lenço.

Declarou ella que se dá muito bem com as demais reclusas; e que quando sahir d'ali tenciona ir para a sua terra natal.

A Giraldinha é de estatura mediana; tez um pouco afogueada, olhos e cabellos castanhos escuros.

A sua physionomia não é antipathica; ha mesmo no seu olhar uma certa vivacidade que denota um espirito vulgar.

Falla accentuadamente ao uso das provincias do norte, mas com certo desembaraço.

Traja uma saia de chita côr de grão com uns ramos mais escuros, chale côr de rato e um lenço amarello na cabeça.
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A Giraldinha tem na sua vida de gatuna uma nota extremamente comica e que define bem o seu instincto ardiloso.

Quando na travessa dos Romulares foi assassinado o Custodio e a policia andava preocupada para saber o paradeiro do assassino, que como se sabe, se evadira, a Giraldinha tinha cahido nas armas da policia e estava detida n'uma das esquadras.

A Giraldinha disse então a um policia que sabia onde parava o assassino e que se quizessem acompanhal-a a certo sitio, ella indicaria o fugitivo.

Como o crime d'este era de summa importancia, o policia viu na Giraldinha um verdadeiro achado e não hesitou em acompanhal-a.

Chegados ao sitio designado, a Giraldinha mandou esperar o policia dizendo-lhe que era para não fazer desconfiar o fugitivo.

O policia cahiu em esperar e a Giraldinha sahiu por outra porta, que era a d'uma taberna onde ella até bebeu, segundo declarou depois, dois decilitros!

E a policia ficou a chuchar no dedo.
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A Giraldinha já figurou na revista do sr. Sousa Bastos, no celebre Tim Tim, antes das ultimas remodelações.

Era até, se bem nos lembra, a actriz Encarnação que fazia esse papel.

Perguntamos-lhe d'onde lhe provinha o apodo de Giraldinha; ella respondeu-nos que quando alguem lhe perguntava d'onde vinha, respondia invariavelmente:

─ Da giraldinha.

Leitores: ─ cuidado com ella! Ahi fica o retrato e os signaes caracteristicos.

Agora deixem-se roubar...
Santonillo.
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Foi revogado o decreto de 8 de agosto de 1889, que mandava entregar provisoriamente ao ministerio do reino e edificio e cerca do convento de Santo Alberto, de Lisboa, para estabelecimento de dependencias do museu nacional de bellas artes e archeologia.
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Recordamos á elite
Das senhoras elegantes
(Recordar nunca mal fez)
Que ha sempre bijous galantes
Baratinhos, d'apetite,
Na rua Aurea 103
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CAFÉ PORTUGUEZ
43 ─ RUA IVENS ─ 43
─────
Lisboa, 1 de maio de 1890
─────
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SOPA
Julienne
FRITURAS
Coquilhas de camarão au soufflé
PEIXE
Pargo assado á portuguesa
ENTRADAS
Escalopes de vitella á italiana
ASSADO
Borracho au natural
LEGUMES
Favas á hespanhola
─────
Doce─Queijo─Fructas─Café
Meia garrafa de Collares ou Termo--Uma
taça de Champagne.
Das 5 ás 8 da tarde──Preço 800 réis
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D. E. Gouveia e Silva
MAIS UMA SORTE GRANDE
Vendidos n'esta casa, abertos em cautelas na loteria de 29 de abril ultimo:
N.º 2630 . . . . . . . . . . . 14:400$000
Proxima portugueza a 8 de maio
9:000$000
Bilhetes a 5$300, meios a 2$650, quartos a 1$320, quintos a 1$060, oitavos a 660, e cautelas de todos os preços.
Proxima de Hespanha a 10.
1.º premio 45:000$000
Segundo 22:500$000 ─ Terceiro 10:800$000
─Quarto 4:500$000
Bilhetes 22$000, meios 11$000, quintos 4$400, decimos 2$200, e fracções de todos os preços. Dezenas de 600 e 1$200 réis.
84 ─ Travessa da Assumpção ─ 86

A Tarde, Lisboa, quinta-feira, 1 de maio de 1890

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

04.01.1970 - Vida e alegria de um dono de bairro



Vida e alegria de um dono de bairro
CAMPINA GRANDE (De Raimundo Carrero) — Para o senhor José Pinheiro, fundador do bairro campinense que leva o seu nome, todo homem para ser completo deve pelo menos ser dono de quatro coisas: inteligência, visão, presença de espirito e vidência.

Tôda sua conversa corre em têrmo de filosofia, sempre procurando máximas para tratar problemas de vida. No bairro José Pinheiro, já foi tudo: de médico a professor.
INICIO
— Môço — José Pinheiro fala entre sorridente e sério, procurando gozar os homens e dar novas saídas. Quando cheguei neste bairro não havia nada, nenhuma casa. Era um descampado que metia medo na gente. Escuridão e mato eram seus donos.

No comêço armei minha barraquinha a beira da estrada que era única por estas terras, depois transformei-a em bodega para a venda de cachaça aos almocreves. Lá embaixo — aponta para o centro de Campina Grande — o movimento já era grande, falava-se muito em progresso.
PROFESSOR
Muito depois — adiantou —embora o progresso comercial de Campina fosse muito grande, não havia escolas nem professôres. Foi quando na iniciei nessa nova profissão. Todos os meninos eram ávidos de estudos.

Como professor fui severo e exigente, como todos em minha época. Agora não, agora é tudo moleza: menino só estuda na hora que quer e onde quer. Menino, neste tempo, manda mais que gente grande.
POR QUE MANDA?
Nesse instante fêz uma pausa para perguntar porque menino agora manda mais que gente grande. Não entende essa folga: aqui em casa, — disse — não há essa moleza. Ensino aos meus garotos com palmatória e castigo em quarto escuro.

Ainda falando nos quatro sentidos que todos os homens devem ter, explicou que embora tristemente tem observado que o que esta faltando a humanidade é justamente isso. Homem não tem mais visão porque permite que um menino mande nêle. Não tem mais inteligência porque usa-a contra êle próprio.
MÉDICO
Depois de professor, José Pinheiro teve que ser médico em algumas ocasiões. Campina Grande crescia, no centro, como se fôsse uma cidade isolada e seu bairro sofria com a falta de assistêncla.

No entanto, como já havia sido enfermeiro em João Pessoa num Hospital Militar e posteriormente no Recife, com farmácia localizada na Rua São Miguel, em Afogados, não foi difícil, fazer-se de médico.
NOME DE BAIRRO
Por que então, bairro José Pinheiro? Ora, meu filho, mesmo sendo professor e médico, ainda tinha tempo de ser criador. Passei a criar galos de raças. cachorros de raça, porcos de raça, e daí prá frente. Pois bem: qualquer pessoa lá do centro da cidade que queria melhorar também suas criações tinha que me procurar
— Para onde vai com êsse cachorro? 
— Vou para José Pinheiro... 
— Para onde vai com êsse porco? 
— Vou para José Pinheiro..
Para completar, aos domingos, comecei a providenciar brigas de galo aqui no meu "bairro". Aí foi que pegou a tal história. Quem queria assistir a uma briguinha de galo tinha que vir para José Pinheiro.
MAIOR POPULAÇÃO
Atualmente o bairro José Pinheiro é o de maior população nesta cidade. Cêrca de 21 mil habitantes moram lá. E embora tenham surgido algumas brigas para a modificação do nome, até hoje êle não foi mudado, acreditando-se que nunca o será.

Diário de Pernambuco, domingo, 4 de janeiro de 1970

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

26.09.1982 - Editores julgados amanhã na 5ª CJM


Editores julgados amanhã na 5ª CJM
Na auditoria da 5ª Circunscrição Judiciária Militar de Curitiba, amanhã, às 14 horas, começa o julgamento dos editores Aluizio Palmar, Adelino de Souza e Juvêncio Mazarollo, do semanário "Nosso Tempo", de Foz do Iguaçu, incursos no artigo 14 da Lei de Segurança Nacional. Os editores são acusados de divulgar "notícia falsa ou tendenciosa, ou fato verdadeiro truncado" e processo 10/81 está baseado em matérias publicadas no período de janeiro a abril de 81, naquele semanário, denunciando torturas nas prisões de Foz do Iguaçu e descuidos na administração pública, além de reportagens sobre movimentos populares.

Os acusados estão sendo defendidos pelos advogados Técio Lins de Lima, do Rio de Janeiro, José Carlos Dias, de São Paulo e pelo Paraná, Wagner D'Angelis e René Dotti, além de Antonio Moreira, de Foz do Iguaçu. O juiz auditor será Darcy Ricetti e o promotor, o procurador militar Péricles Aurélio Lima de Queiroz. Serão testemunhas de acusação: coronel João Guilherme Labre, comandante do 34º Batalhão de Infantaria de Foz do Iguaçu, o prefeito de Foz, Coronel Clóvis Vianna e o juiz criminal João Kopytowski. Testemunham a favor, entre outros: o deputado Nelton Friedrich, o pastor Werner Fuchs e o advogado Adolpho da Costa, de Medianeira. Os editores poderão ser condenados de seis meses a cinco anos de prisão.
QUESTÕES LOCAIS
Segundo Wagner D'Angelis, os advogados de defesa pretendem comprovar, durante o julgamento, que as matérias são de opinião e não falsas ou tendenciosas. "Vamos alegar que, se houve exageros nas publicações citadas, eles deveriam ser julgados pela legislação ordinária, que é a Lei de Imprensa e jamais pela LSN", diz advogado. D'Angelis espera que o "bom senso da auditoria militar absolva os editores" já que as denúncias têm aspectos basicamente locais, "em nada afetando a segurança nacional".

O Estado do Paraná, domingo, 26 de setembro de 1982.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

07.01.1945 - Descobertos numa casa grande do Recife, os ultimos remanescentes da organização do "Torre Sport Club"


Descobertos numa casa grande do Recife, os ultimos remanescentes da organização do "Torre Sport Club"

Revivendo naquele arquivo de trofeus a existencia gloriosa de um clube que marcou epoca no esporte de Pernambuco

VENCIDO PELO PROFISSIONALISMO O TORRE DESAPARECEU EM 1940 - AGREGOU AS FIGURAS MAIS DESTACADAS DA POLITICA DE SEU TEMPO - VESTIGIOS DE UM CLUBE QUE GOZOU INVEJAVEL PRESTIGIO - OFICIOS CHOROSOS E BALANCETES LEGAIS - A NOTICIA DO REAPARECIMENTO DO GREMIO DA "MADEIRA RUBRA" - REVOLVENDO UM PASSADO DE GLORIAS
Reportagem de Helio PINTO
(Para o "D. P.")

Quem quer que tenha lido algum jornal pernambucano lá para o ano de 1930, ou pelo menos, sentido a influencia do nosso meio, naquela epoca, que já se vão 15 longos anos, certamente que teria ouvido falar numa associação desportiva e social que foi orgulho para Pernambuco, durante toda a sua existencia. Não cheguei a conhecer este clube. No tempo de seu esplendor, ainda garoto, eu perambulava pelas ruas de minha Fortaleza. Mas, desde que aqui cheguei, ha quatro anos, senti intimamente o prestigio do gremio que marcou uma epoca em sua terra: o TORRE SPORT CLUB.

Quisera conhecer mais de perto a vida do clube da "madeira rubra" como o chamavam com orgulho os seus adeptos; quisera ter companhado uma pequena fase do seu esplendor, pelo menos os seus ultimos dias de atividades; quisera ter maiores detalhes sobre o Torre glorioso, o Torre decadente e o Torre desaparecido. Sim, falar sobre o desaparecimento do Torre é justamente o que pretendo fazer. Falar sobre a sua brusca debacle, quando os seus alicerces davam a impressão de uma segurança invencivel. Falar sobre o Torre desmoronado, vencido pelo profissionalismo implacavel que veio trazer uma vida diferente para os esportes, fazendo desaparecer as escolas de amadorismo, desvirtuando os esportes e quase que afetando a propria sociedade.

Foi o Torre uma vitima do profissionalismo. Caiu porque não aderiu ao esporte remunerado. Caiu tambem porque foi um clube excessivamente politico. Os homens que o dirigiam, ou o seu quadro social, ou ainda seus "fans" era figuras proeminentes na administração do Estado, ocupando cargos que pouco depois cairam. E quando estes homens desapareceram do cenario politico o Torre sentiu-se enfraquecido. Viu o seu grande prestigio abalado. Cambaleou durante algum tempo e naufragou.
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O TORRE SPORT CLUB era uma especio de idolo, congregando as figuras mais destacadas da sociedade e da politica pernambucana. Nasceu numa epoca muito distante, lá para o ano de 1909. A principio, como todos os grandes clubes, engatinhou desequilibrado, para mais tarde sustentar-se na rotina da vida. Rememorar as suas atividades, contar os seus feitos, acompanhar a sua vida nas fases de ascenção, esplendor e decadencia, numa longa caminhada de cerca de 30 anos, seria recapitular uma pagina de glorias dos desportos pernambucanos. Este, porem, não seria nosso interesse. A vida do Torre não é desconhecida. O Torre não foi um clube modesto que viveu anonimo como muitos gremios suburbanos. Pelo contrario. Em sua marcha destacava-se acima de tudo o prestigio absoluto. Nada mais é preciso dizer.

Entretanto, voltamos ao assunto, ou melhor, ao fio da meada. Temos em mira, falar sobre o projetado reaparecimento do Torre. O mesmo Torre que Constantino Caldas, de Manoel Teixeira Basto, de Alfredo Vieira Ramos, de Fernando Mendonça, de Antonio Almeida e muitos outros. Aquele notavel clube que prematuramente desaparecera. Desaparecera não é bem o termo, pois o gremio da "madeira bubra" não desapareceu ainda. O seu nome ainda existe, legalizado, assim como as suas cores. Embora quase abandonados, estragados e desfalcados, ainda existem os seus troféos, os seus livros de atas, o seu arquivo deteriorado, enfim, parte de sua organização. E', por assim dizer, uma triste sombra do Torre de 1926 e de 1930.

Ultimamente, falou-se muito no reaparecimento do Torre. O assunto esteve tomando vulto. Ganhou força entre os antigos baluartes do clube. Chegou mesmo ao conhecimento de um colega de imprensa que parece não ter gostado do assunto. Porem, somos favoraveis ao reaparecimento do Torre Não um Torre para viver cambaleando como certos clubes que guardam apenas a tradição; não um Torre para viver de subscrições apressadas ou dos creditos do governo; não um Torre para envergonhar o seu passado, mas um Torre que venha a ser o que já foi  e que volte a ocupar o lugar que realmente merece, no cenario esportivo de Pernambuco. Um Torre com prestigio e força e com elementos decididos no seu leme. Isto é que todos desejam. Então, teremos mais uma força nos nossos esportes, formando ao lado do Esporte, Nautico, Santa Cruz e America.
VESTIGIOS DE UMA ORGANIZAÇÃO PASSADA
Soubemos que o dr. Brito Bastos, presidente do Conselho Regional de Desportos, estava disposto a levar para a sede do Conselho, todos os bens do antigo Torre. Entretanto, onde estariam os bens do Torre? Restaria ainda alguma coisa de aproveitavel? Procuramos o dr. Brito Bastos para conhecer o seu pensamento sobre o assunto:

─ "Tomei a deliberação de trazer para os meus cuidados os bens do Torre, disse o presidente do C. R. D.  Agi de comum acordo com os antigos dirigentes do clube. Caso haja o falado ressurgimento, tudo será devolvido e o Conselho não terá nenhuma intervenção. Agora mesmo, pretendo visitar os restos da organização do Torre".

Em companhia do dr. Brito Bastos e do fotografo, seguimos na direção do Clube Internacional. O carro parou num largo portão e nos dirigimos para uma velha casa, bastante recuada do passeio, Ali, num pequeno departamento da "casa grande", encontramos um armario antigo cheio de taças e papeis. Eram os vestigios de uma organização passada. Ali jazia tudo quanto ainda resta do TORRE SPORT CLUB. Quase nada: pouco mais de 20 taças, algumas de maior valor, arquivo de documentos, pacotes de recebidos, carteiras de jogadores, fotografias de socios, etc.

Observamos atentamente tudo o que resta do clube de Constantino Caldas. Nas velhas carteiras da F. P. D. vimos os nomes de Corbi, Chiquinho, Vivi, Deda, Amaro Pinho, Valfrido, Guimarães, Jasson, Miro, Rato, Toinho, Djalma, Alfredo, Vasco, Petu', Vanderlei, Bada, Dantas e muitos outros. Foram elementos que atuaram já nos últimos anos do Torre.

Lá estavam algumas taças com inscrições que relembram lutas memoraveis, vencidas pelo Torre. E lemos algumas delas: ─ "Taça Maviael do Prado. Ao vencedor da melhor de tres. Nautico x Torre ─ 1930" ─ "Ao Torre Sport Club o Clube Regatas Brasil ─ Maceió, 7-9-23". ─ "Match de luta romana ─ Floriano x Goldstein ─ Ao vencedor da preliminar ─ Torre x Sport ─ 18-12-27". ─ "O Centro Sportivo Alagoano ao Torre Sport Club ─ Maceió, 7-9-28". ─ Torneio Inicio de 1922 ─ 1.º lugar". ─ "Taça A Provincia ─ Temporada Bahiana ─ Associação x Torre ─ 1922". ─ "Taça Maternidade ─ Oferecida pela Liga Pro-Mater ─ 1919"
PROVAS DE BOAS RELAÇÕES
Folheamos os velhos livros de oficios expedidos e recebidos De momento a momento uma gorda traça atravessa o papel como a protestar aquela "profanação". Mais adiante, um oficio do Esporte Clube do Recife, agradecendo um gesto nobre do Torre. O documento diz o seguinte:

"Tenho a satisfação de transmitir a esse valoroso e digno congenere os agradecimentos do clube rubro-negro pelas expressões gentis ao vosso oficio de 12 do corrente, motivadas pelo acolhimento que bem merece o Torre Sport Club, todas ás vezes que as suas representações esportivas visitarem o nosso estadio. Aproveitando esta feliz oportunidade, levo ao vosso conhecimento que a diretoria deste club sente-se satisfeita em pôr á vossa inteira disposição a nossa praça de sports da ilha do Retiro, para os treinos de arregimentação das vossas diversas equipes. Atenciosamente (as) Gilberto Correia Lima ─ Secretario Geral". O oficio tem a data de 21 de setembro de 1938.

Em seguida, a titulo de curiosidade, transcrevemos outro oficio dirigido pelo presidente do Esporte ao presidente do Torre, por ter o gremio campeão de 1930 colaborado na Campanha do Cimento, iniciada pelo gremio rubro-negro. O texto é o seguinte:

"Illmo. Snr. Presidente do Torre Sport Club ─ Presente. Sinto-me altamente honrado em traduzir, pelo presente, o sentimento de gratidão do club rubro-negro ante o gesto de nobreza e fraternal amizade que vem de reafirmar a vossa valorosa e distinta associação, como o primeiro contribuinte á nossa "Campanha do Cimento", promovida com o fim de iniciar as obras de construção das arquibancadas do estadio da ilha do Retiro. A atitude do Torre Sport Club, com esta demonstração de tão elevada compreensão esportiva, vem consolidar ainda mais a estima tradicional que mantem, orgulhosamente, Torre e Sport, nesta imensa jornada que realizam em prol da vitoria integral dos sports nordestinos. Atenciosamente, Gilberto Correis Lima ─ Secretario Geral".
EM BUSCA DE OUTRAS PRECIOSIDADES
Continuamos a percorrer o pequeno arquivo do Torre. Parece ter sido um clube mais ou menos organizado. Pelo menos, nota-se nos ultimos remanescentes de sua existencia muita ordem e perfeição nos trabalhos. Pode-se mesmo concluir que o Torre teve ordem, disciplina e organização. Suas despesas, sempre resumidas, jamais foram alem da receita. Desta forma o clube não contraiu dividas. O saldo que lhe restava nos cofres serviu para os anos agonizantes de 1939 e 1940. Então, foi-se o ultimo cruzeiro...

O Torre, apesar de ser um clube de primeira categoria, tinha poucas despesas. Mesmo a sua arrecadação era pequena, diante do seu nome. Não queremos comentar o assunto. Entretanto, publicamos o balancete do clube feito pelo seu tesoureiro sr. Constantino Caldas, no ano de 1934. O documento está escrito da seguinte maneira:

TORRE SPORT CLUB

Balancete da Thesouraria durante o anno 1934

1934                                                 Debito     Credito
Saldo credor do anno 1933 conforme balancete anterior .. ..     101$300
Mensalidades recebidas durante o anno .. .. .. .. 2:370$000
Rendas de jogos amistosos e officiaes na F.P.D. .   707$900
Idem de eventuaes na sede .. .. .. .. .. .. .. ..   290$200
Venda de 1 bilhar pertencente ao club .. .. .. .. 1:150#000
Donativos recebidos de diversos socios . .. .. ..   450#000
Pago de alugueres da séde .... .... .... .... .... .... ...     705$000
Idem de commissão sobre a venda do bilhar .. .. .. .. .. ..     150$000
Idem de caução de luz na Rua Nova  .... .... .... .... ....      26$100
Idem de energia electrica ... .... .... .... .... .... ....      45$300
Idem por um recurso na F.P.D. (caso America) .. .. .. .. ..      50$300
Idem de commissao sobre a cobrança  .. .. .. .. .. .. .. ..     474$000
Idem de mensalidades na F.P.D. .... .... .... .... .... ...     455$000
Idem pela compra e concerto de materiaes esportivos .. .. .   1:179$100
Idem pela lavagem de roupa .... .... .... .... .... .... ..     178$000
Idem de auxilios de subvenções .... .... .... .... .... ...   1:217$500
Idem por massagens e remedios para amadores  .. .. .. .. ..      66$000
Idem pela compra de materiaes e lampadas electricas .. .. .      22$400
Idem por duas viagens de automovel e por uma certidão .. ..      61$500
Idem pelo concerto do bilhar  .... .... .... .... .... ....       5$000
Idem por photographias de jogadores .... .... .... .... ...      72$500
Idem pela compra de inscripções e renovações .. .. .. .. ..       8$000
Idem pela compra de estampilhas para recibos .. .. .. .. ..       7$400
Idem pela compra de sellos de expediente F.P.D  .. .. .. ..     210$000
Idem pela compra de livros e cartões mensalidades  .. .. ..      43$500
Idem pelo transporte de moveis .... .... .... .... .... ...      35$000
Idem pelo concerto de moveis  .... .... .... .... .... ....      48$000
Idem pela assignatura da "A Gazeta" .... .... .... .... ...      14$000
Idem por um camarote festival do Israelita .... .... .... .      30$000
Idem por pequenas despesas  ...... .... .... .... .... ....      32$500
Saldo credor para o anno de 1935 .. .. .. .. .. ..  270$000
                                                  ---------------------
                                                  5:238$100   5:238$100
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                                       (ass.)  Constantino Caldas
                                               Thesoureiro

ULTIMOS ADEPTOS DO CLUBE
Durante quase duas horas, estivemos mexendo nos arquivos do Torre. Muitos oficios interessantes que prendiam a atenção de qualquer desportista. Seria impossivel publica-los a todos. Numa velha taça, nas prateleiras do armario, descobrimos uma porção de fotografias e cartões que seriam enviadas aos ultimos associados aceitos pela diretoria. Lá estavam os nomes do ten. Agenor Cavalcanti, tecnico do selecionado pernambucano de 1942 srs. Estenio Revoredo, Pedro Bezerra Cavalcanti, Clelio Correia, Djalma Torres, Haroldo Veloso, Severino Rangel, dr. José Bandeira de Oliveira e muitos outros.

Eram documentos da organização que possui o Torre. Tudo ainda apresentava um ligeiro vestigio de ordem. Notava-se o trabalho dedicado de seus dirigentes. Era, positivamente, aquele Torre um orgulho para os seus dirigentes e para os seus "fans". Esta gente que trabalhou e que admirou o gremio da "madeira rubra" ainda existe. Estão todos aí, afastados das lides esportivas. E todos eles afirmam categoricamente: "Se não existe o Torre não interessa outro clube". Porque não aproveitar este interesse de tantos? Reunam-se os antigos baluartes do clube e estudem a situação com carinho. E' apenas uma questão de perseverança.

Diário de Pernambuco, domingo, 7 de janeiro de 1945

domingo, 7 de fevereiro de 2016

24.04.1982 - TV GLOBO MOSTRA AMANHÃ O "COSMOS" DE CARL SAGAN

JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro - Sábado, 24 de abril de 1982

TV GLOBO MOSTRA AMANHÃ O "COSMOS" DE CARL SAGAN

Os mistérios do espaço estarão a partir de amanhã nas telas de TV

A TV Globo começa a transmitir amanhã, às 23h15min, o primeiro episódio da série cientifica Cosmos, animada pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan. A série completa tem 13 capítulos e será mostrada a cada último domingo do mês. Sagan, a bordo da "nave espacial da imaginação", discutirá a criação do universo, o aparecimento e a evolução do homem, a astronomia, a exploração do espaço e o provável aparecimento de vida em outros planetas.

Produzida durante quase três anos, filmada em um ano em 100 locações e 12 países diferentes, a série conta com efeitos especiais resultantes de técnicas cinematográficas revolucionárias, entre elas o Zoom Cósmico, criado por Jamie Shourt e Robert Blalack, da equipe que ganhou um Oscar pelos efeitos em Guerra nas Estrelas. Graças ao Zoom Cósmico, o espectador tem um senso gráfico de como a Terra é pequena em relação ao resto do Universo, e recebe o impacto da "compressão de milhões de anos de viagem à velocidade da luz em cerca de quatro minutos", diz Shourt.
Questão de tom
"A minha experiência mostra que as pessoas são mais inteligentes do que se pensa e, portanto, é só encontrar o tom certo para passar uma série de informações e fatos que podem parecer complicados, mas, na realidade, estão ao alcance de qualquer um que tenha o mínimo de interesse em compreender", diz Carl Sagan, apresentando o programa, escrito por ele, Ann Druyan e Steven Soter. A trilha sonora terá canções folclóricas, Rolling Stones, Beatles, música concreta e eletrônica e diversas obras de compositores clássicos. A produção é da KCET e Car Sagan Produções, associados à BBC e Plytel Intemational.

No primeiro episódio, A Costa do Oceano Pacífico, uma viagem ao Universo conhecido: a constelação Andrômeda, a Via Láctea, estrelas azuis, pulsars, os planetas Urano, Saturno e seus anéis, Júpiter e o vermelho Marte, os menores Mercúrio e Vênus, o Sol, e a Terra; uma descida no Egito, o farol e a biblioteca de Alexandria, a cidade onde Eratóstenes descobriu por observação que a Terra é finita e redonda. No segundo, Uma Voz na Fuga Cósmica, mostra-se a origem da vida. Sagan especula sobre a possibilidade de vida em outros mundos. Uma animação espetacular revela o processo evolutivo do organismo unicelular até o homo sapiens.

A Harmonia dos Mundos, o terceiro episódio, indaga como seria um mundo sem causa e efeito, recupera a importância da astrologia na agricultura dos povos antigos, e ensina as lições de Kepler, Tycho Brahe, Copérnico, Galileu e Newton, pais da nossa concepção atual do Universo. Céu e Inferno, quarto, mostra os processos vitais do Universo, gradualismo e catastrofismo, responsáveis pela evolução. Discutem-se a hipótese de colisão de Vénus e Terra, a origem das crateras da Lua, as falhas geológicas da Terra, entre elas a de San Andreas. Sagan pede mais carinho com o planeta.

O quinto episódio, Blues para um Planeta Vermelho, abre com a dramatização de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, discorre sobre a lenda dos "marcianos", as idéias sobre o nosso mais próximo vizinho, e a mudança provocada pelas sondas Mariner e Viking. Contos de um Viajante, sexto, leva o espectador, em estilo cinema verité, a visitar Júpiter e seus satélites sob exploração da nave Voyager II, e a conhecer o Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia. A Espinha Dorsal da Noite, sétimo episódio, para conhecer o mistério das estrelas, vai a antiga Grécia, onde sábios como Anaximandro deram respostas cientificas que assombraram o mundo. Demócrito propõe o conceito de átomo. O mundo é acessível à razão.

Viagens no Espaço e Tempo, oitavo, começa com Sagan numa praia refletindo sobre o número de grãos de areia nela contidos. O número de estrelas é maior. Define-se ano-luz. Introduz-se a revolução no espaço-tempo feita por Einstein. As Vidas das Estrelas, nono episódio, esclarece o mundo subatômico, as supernovas, buracos negros. Sagan usa Alice no Pais das Maravilhas para mostrar os efeitos gravitacionais.
Ciência e religião convergem
O décimo episódio, A Margem do Para Sempre, serve para Sagan levantar a questão cosmológica: de onde viemos? Aparecem os mitos, as hipóteses científicas, a tese da Grande Explosão, a religião hinduísta com escalas de tempo correspondentes à moderna cosmologia cientifica. Na Índia, Sagan discute a convergência entre ciência e pelo menos uma religião.

A Persistência da Memória, décimo primeiro, sugere que as baleias podem ser uma espécie inteligente. São analisadas as canções das baleias, talvez um código. Sagan leva-nos a uma viagem pelo cérebro humano, ao código genético, à invenção das bibliotecas, extensões do homem. No décimo segundo, Enciclopédia Galática, Sagan busca os sinais de vida extraterrestre, discute as idéias de Erich Von Daniken, recria a decifração dos códigos desde Champollion até a comunicação interestelar. E finalmente, no décimo terceiro episódio, Quem Fala pela Terra?, Sagan resume tudo, o conhecimento do passado e as perspectivas futura. Chega-se a uma "estranha" civilização, o planeta Marduk, tecnologicamente avançado, mas que não resolveu uma questão crucial: a tecnologia rompe todos os limites morais de seus criadores e ameaça a própria sobrevivência da sociedade. É preciso vigilância, aconselha Carl Sagan, pois o conhecimento é algo frágil, ante o lado escuro do homem.
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CARL Sagan escolheu a sua profissão, astrônomo, quando tinha apenas 12 anos. Graduou-se pela Universidade de Chicago e depois estudou genética com o Prêmio Nobel Hermann Müller. Ensinou em várias escolas superiores e chegou a chefe do Departamento de Astronomia e Vida Extraterrestre da Universidade de Cornell. Como exobiologista (estudioso de vida fora da Terra), trabalhou para a NASA, principalmente em dois projetos. Foi sua a idéia de colocar na nave Pioneer 10 uma placa com informações gráficas sobre a posição da Terra no sistema solar e as características dos seus habitantes, para o possível conhecimento de outra civilização. Foi um dos analistas dos dados e fotografias enviados de Marte pela Viking. Sagan, 47 anos, é autor de 14 livros, alguns dos quais já traduzidos no Brasil, entre eles Os dragões do Éden e Cosmos.
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A TERRA É A CASA DO HOMEM;
O UNIVERSO É O SEU PAÍS

Mario Pontes

QUANDO desligar o seu aparelho, após a emissão do último dos 13 capítulos da série Cosmos, o telespectador que houver acompanhado atentamente o programa estará concluindo algo como um curso de nível universitário. Mas um curso que universidade nenhuma tem para oferecer. Pois nesta época de compartimentação da ciência, Cari Sagan, com a ambição de um sábio renascentista, tenta abarcar as diversas áreas essenciais do conhecimento e transmitir um saber quanto possível totalizante.

Sob esse aspecto, Cosmos vai muito além de outras séries culturais de televisão realizadas nos últimos anos, das quais apenas uma foi exibida no Brasil, A Era da Incerteza, de John K. Galbraith. Os objetivos de Galbraith, como se viu, eram limitados. Ele quis apenas mostrar como se instalou o capitalismo, de que maneira cresceu, a quem beneficiou, a quem prejudicou, e finalmente como a sua contestação pôs o nosso mundo no fio de uma navalha. 

Cosmos vai além, igualmente, de outra brilhante série criada para a televisão inglesa e por enquanto conhecida entre nós apenas através do livro que dela resultou: A escalada do homem (Editora da Universidade de Brasília), do recém-falecido Jacob Bronowski, filósofo polonês que passou boa parte da vida na Inglaterra. Bronowski, um dos autores que melhor souberam falar de filosofia e ciência para o grande público, cingiu-se a acompanhar a evolução cultural do homem, da pré-história aos dias atuais.
Divulgar é preciso
Na comunidade científica, não falta quem torça o nariz ao ouvir o nome de Carl Sagan. Embora reconheçam nele um cientista de valor, não aprovam a sua transformação em um showman da ciência, como ele mesmo gosta de definir-se. Acham que ele é narcisista, demasiado estrela, demasiado teatral. Que vulgariza em excesso e que, muitas vezes, ultrapassa as fronteiras da objetividade, aventurando-se no perigoso terreno da especulação. Sagan, porém, já declarou que corre seus riscos conscientemente. Pior do que a possibilidade de cometer erros tentando acertar, parece-lhe o fato de que o conhecimento científico, essencial à sobrevivência da humanidade, permaneça confinado nos laboratórios, nas salas onde os cientistas discutem entre si e nas páginas de livros compreensíveis unicamente aos altamente especializados.

É um absurdo, diz Sagan, que praticamente todos os jornais tenham uma coluna diária de astrologia e contem-se nos dedos os que tenham uma de astronomia. Ou seja, que às vésperas do ano 2000 ainda se de mais espaço à superstição do que à ciência. As naves até agora enviadas ao espaço extraterrestre — acrescenta ele — devolveram aos cientistas uma formidável massa de dados novos sobre o comportamento do Sol, a constituição dos planetas, a evolução das estrelas e outros corpos celestes. Mas, até agora, só uma pequenina fração dessas novidades chegou ao homem comum através dos meios de comunicação.

Impressionado com o que considera um fosso entre o interesse popular pela astronomia (e as ciências associadas, como a exobiologia) e a exigüidade das iniciativas destinadas a satisfazer essa curiosidade, Sagan resolveu que ele próprio tinha de fazer algo. Foi então que deixou de ser um cientista de gabinete e resolveu tornar-se também um divulgador. Sua primeira idéia foi fundar uma empresa para produzir filmes científicos destinados á televisão, idéia acolhida pela Public Boadcasting Service, de Los Angeles. Foi assim que Cosmos teve origem.

A série e o livro nasceram juntos. E Sagan, mais feliz do que tantos outros autores, pôde realizá-los exatamente na medida das suas intenções. Cosmos, a série para a televisão. foi concebida antes de mais nada como um produto de impacto visual, tão atraente quanto um filme de ficção científica do tipo Guerra nas Estrelas, capaz — disse o autor — de "tocar o coração e as mentes" de uma grande audiência popular. A resposta foi compensadora. Cerca de 140 milhões de pessoas — 3% da população humana — viram o programa e, a exceção de alguns cientistas ciosos do seu saber, declararam-se encantadas. O livro, publicado em várias línguas (no Brasil foi editado pela Francisco Alves), já alcançou a casa dos milhões de leitores.
Viagem às galáxias
Ao contrário de Galbraith e Bronowski. que desenvolvem suas explanações de maneira cronológica, Sagan não segue uma trajetória linear: a grande explosão na qual teria tido origem o universo, a condensação das galáxias e, finalmente, o aparecimento da vida em pelo menos um deles, este grãozinho de poeira em que vivemos. Sagan prefere um caminho em ziguezague. O mais comum, em seu método, é partir do geral para chegar ao particular. E, como um músico, freqüentemente repete o seu tema, expondo-o primeiro de maneira breve, depois estendendo-o e aprofundando-o.

A condição do leitor ou do espectador de Cosmos, no inicio do primeiro capítulo, é a de quem olha o céu numa noite escura, pontilhada de milhares de astros. De repente, algo o arrebata do seu ponto de observação, levando-o a viajar pelos abismos de milhões de anos-luz que separam estrelas e galáxias. Terminada a viagem, ei-lo de volta à Terra, onde o espera o comunicativo Sagan para uma digressão histórica sobre como, ao longo de milhares de anos, o conhecimento do universo evoluiu até chegar ao nível em que hoje se encontra.

Várias vezes, na sucessão dos capítulos, Sagan voltará a relembrar a trajetória dos homens de ciência, mostrando como através da observação paciente, da imaginação e ás vezes da intuição foram formando uma imagem cada vez mais verdadeira, nítida e coerente do universo. Como, partindo da percepção de fatos que hoje nos parecem tão óbvios — a esfericidade da Terra, por exemplo —aprenderam a distinguir estrelas de planetas, a notar movimentos no que parecia estático, a medir distâncias, a construir a própria história dessa infinidade de mundos que nos cercam.

Contudo, sugere Sagan, a maior de todas as descobertas da ciência é também a aparentemente mais simples: a noção de que não somos estranhos, e sim de que fazemos parte do universo. Nem sempre foi assim. No começo da história da civilização, o universo era algo estranho para os homens que o observavam. Era algo misterioso, dotado de forças capazes de decidir sobre os nossos destinos. Na medida em que fomos compreendendo os fenômenos do cosmos, fomos também nos libertando do mistério, do terror. Há muito ainda por compreender, há coisas que, decerto, jamais compreenderemos. Mas jamais voltaremos a imaginar nosso destino regido por forças misteriosas.

Quem entender isso, terá entendido Cosmos e estará em condições de aproveitar plenamente a essência do que Sagan quis transmitir. Somos parte do universo porque nascemos do mesmo bang inicial, somos formados da mesma matéria de que são feitas as estrelas e a poeira existente, as galaxias. Portanto, tudo o que acontece no resto do universo é do nosso interesse. Inclusive pela razão prática de que um dia talvez tenhamos de abandonar a Terra em busca de outro lar, quando este aqui se tomar inabitável.

Será isso possível? A resposta depende da solução de um sem-número de enigmas que ainda não fomos capazes de resolver, mas que um dia resolveremos. Ainda não sabemos, por exemplo, se em algum lugar do universo existem planetas de características semelhantes às da Terra, em condições, portanto, de abrigar os futuros imigrantes do espaço. Não sabemos, ainda, se e quando poderemos desenvolver a nossa tecnologia ao ponto de tomar possíveis as viagens à velocidade da luz, único meio de chegar a outros mundos. Não sabemos ainda se existem civilizações estelares e se elas estariam dispostas a nos acolher.
O lar e a pátria
Sagan não tem dúvida de que um dia encontraremos respostas para as nossas grandes e fundamentais interrogações acerca do universo. Mas antes que isso ocorra, milhares de anos se passarão. Até lá — é preciso não esquecer — nossa morada será esta casquinha de noz, que viaja pelo espaço protegida por um fina película de ar e ameaçada por energias que mal começamos a conhecer e sobre as quais talvez nunca possamos exercer um verdadeiro controle.

Contudo, observa o autor, a maior ameaça ao nosso futuro parte de nós mesmos. Do mau uso que vimos fazendo da tecnologia, do descuido com que tratamos o solo, a água, o ar. Somos uma civilização emergente e já à beira da catástrofe? Como evitá-la? A resposta de Sagan é que o melhor ponto de partida para não cometermos suicídio é adquirirmos a compreensão de que se a Terra é a nossa casa, o universo é o nosso país. Sobreviver, portanto, não é um problema exclusivamente nosso. Se somos parte do universo, continuarmos vivos e desenvolver a nossa civilização é uma responsabilidade para com o nosso país, este cosmos que não cumprirá inteiramente o seu destino se a humanidade não cumprir o seu.

Esta a lição essencial do irrequieto exobiólogo americano, que depois de ter conquistado os mais altos postos na vida cientifica e universitária, não hesitou em descer do seu pedestal para falar ao público com a simplicidade de um mestre-escola e o entusiasmo de um pregador que lança uma mensagem carregada de advertência, mas apesar de tudo otimista.

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Sábado, 24 de abril de 1982

sábado, 6 de fevereiro de 2016

10.08.1934 - O «Brazilian Clipper» a caminho do Rio



O «Brazilian Clipper» a caminho do Rio
Será baptizada pela Sra. Getulio Vargas a gigantesca aeronave

O "Brazilian Clipper", que trará ao Brasil, na sua viagem inaugural, figuras eminentes da sociedade americana

Vae ser inaugurado, nas linhas aereas do Brasil, um dos mais gigantescos aviões até hoje fabricado para o transporte de passageiros e cargas. Essa nova unidade, que virá dar maior impulso á aeronautica commercial no nosso paiz, pertence á frota da Panair. E' o formidavel hydro-avião Sikorsky S-42, que está em Miami, na base da empresa, prompto para levantar vôo com destino ao Rio de Janeiro, onde terá logar o seu baptismo official. A madrinha da nova aeronave, que receberá o nome de "Brazilian Clipper", será a Sra. Darcy Vargas, esposa do presidente da Republica.

De accordo com as ultimas informações, recebidas, o possante quadrimotor deixará Miami com declino ao Rio de Janeiro e Buenos Aires, em 16 de agosto, em viagem especial. Somente mais tarde será estabelecido o seu itinerário e horarios normaes, na linha rapida de passageiros Estados Unidos-Brasil-Uruguay-Argentlna.

Nessa viagem especial, anterior no seu baptismo, o "Brazilian Clipper" conduzirá apenas 24 passageiros, to-
(CONTINÚA NOUTRO LOCAL)

O "Brazilian Clipper" a caminho do Rio
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(CONTINUAÇÃO DA 1ª PAG.)
dos elles personalidades de destaque nos circulos sociaes, politicos e commerciaes dos Estados Unidos.

O itinerario organisado para essa viagem será o seguinte:

Agosto 18 — Chegada o Belém do Pará; dia 19 — Belém do Pará-S. Luiz do Maranhão-Natal-Cabedello (João Pessôa); dia 20 — Cabedello-Bahia-Rio de Janeiro; dias 21 e 22 — Rio de Janeiro (baptismo official); dia 23 — Rio de Janeiro-Porto Alegre-Montevidéo-Buenos Aires; dias 24 e 25 — Buenos Aires; dia 26 —Buenos Aires-Montevidéo-Porto Alegre-Rio de Janeiro; dia 27 — Rio de Janeiro-Bahia-Cabedello; dia 28 — Cabedello-Natal-S. Luiz do Maranhão; dia 29 — Partida de Belém para Miami.

Tratando-se de uma viagem feita exclusivamente para cerimonia do seu baptismo, o grande apparelho de 19 toneladas, o maior até hoje construido nos Estados Unidos, não transportará encommendas e malas postaes, e somente escalará nos portos acima referidos para fins de abastecimento e pernoite.

Com a entrada em serviço regular desse gigante dos ares e de mais dois apparelhoos gemeos cuja construcção está sendo apressada nos estaleiros de Bridgeport, nos Estados Unidos, o tempo das viagens entre as cidades servidas pela Panair será enormemente encurtado, o que representa uma grande vantagem para o progresso material e intellectual do paiz.

Jornal A Noite, Rio de Janeiro, sexta-feira, 10 de agosto de 1934