sábado, 13 de fevereiro de 2016

07.06.1975 - Nossos Artistas Plásticos e a Pinacoteca Municipal


Nossos Artistas Plásticos e a Pinacoteca Municipal

Na quinta feira que passou foi inaugurada oficialmente a Pinacoteca Municipal, que está instalada numa das salas de exposições do Museu da cidade. A pinacoteca recebeu o nome de Aldo Locatelli, numa justificada homenagem ao artista que por bom tempo viveu aqui, nos deixando uma das mais significativas obras de arte de todo o Rio Grande do Sul: a Via Sacra da Igreja de São Pelegrino e outras pinturas, também na mesma igreja, destacando-se "A Grande Ceia", afora outros trabalhos seus encontrados hoje no Palácio Piratini, na Catedral de Santa Maria, dentre mais.

Para um pequeno conhecimento e informação dos artistas que doaram alguma obra para a Acervo da Pinacoteca e que têm se dedicado às artes na cidade é que se faz necessário apresentá-los. Vinte artistas, até o momento, doaram uma de suas obras para a Pinacoteca Vinte artistas que proporcionaram um momento de reflexão sobre artes plásticas. Um bom momento para vermos o que acontece a respeito de arte na cidade e situá-las no plano cultural da arte contemporânea.

Deparamos hoje, com novos instrumentos para fazer arte e com uma arte nova para estes mesmos instrumentos. Assim sendo, aquele que se propõe a trabalhar uma arte, não pode restringir-se ao plano da técnica e nem pode fazer de uma boa técnica, um significado para arte. Existe agora um mundo de sensações que significam, cada uma de sua maneira, a reação do artista ao social, ao fato ou a uma circunstância qualquer. É da responsabilidade do trabalhador de arte, fazer dela uma sensação, procurar uma noção nas pessoas, mas não uma definição. De que vale pintar uma paisagem da maneira que a vemos somente? De que vale pintar um rosto, simplesmente?

Talvez, o que realmente valha, é poder sentir um rosto para pintar; é poder penetrar a natureza para senti-la.

Dezoito pintores caxienses nos mostram sua arte. Vamos consumi-la, na medida em que ela nos toque.

Textos de Liliana Alberti,
Evaldo Schumacher, Juventino Dal Bó e Valdir dos Santos.           

BRUNO SEGALLA — É natural desta cidade, onde nasceu a 7 de outubro de 1922. Já expôs diversas vezes, sempre com o mesmo sucesso. Ele diz "além de minha especialização como medalhista, há mais de 25 anos dedico-me à escultura em cerâmica e metais. Exprimo em meus trabalhos o social, o humanismo e uma mensagem espiritual de paz e justiça". A obra que doou à Pinacoteca é uma escultura, "O Exilado", a qual ele define desta forma: "é a angústua do homem, longe de sua pátria; expressa uma imagem e gesto de dolorida saudade e inconformismo marcado por profunda solidão". Bruno Segalla projetou e está executando o "Monumento do Centenário".

DIONÉIA DE CARLI — Desde que começou a se dedicar às artes, preferiu a gravura e a xilogravura, tendo feito cursos de técnicas com Danúbio Gonçalves, Armando Almeida, Paulo Meuten, entre outros. É uma das figuras mais constantes em exposições de artistas caxienses pois suas gravuras são bastante significativas. Definindo o que faz, ela explica que em seus trabalhos "as formas exiladas buscam um caminho, para que fique a possibilidade de um novo incêndio purificador". A xilogravura doada é "Recomposição de Formas".

LILIANA ROSSETTI — É natural de Veneza, Itália, mas há muito tempo radicou-se aqui. Além de professora na Universidade de Caxias do Sul, Liliana tornou-se bastante conhecida pelos painéis que elaborou e estão expostos no Rincão da Lealdade. É uma das mais esforçadas artistas caxienses, pois tem procurado descobrir em técnicas e materiais diversos, o que de bom eles podem oferecer para uma composição plástica. Um exemplo disto é o trabalho que doou à Pinacoteca, "Paisagem", estilização gravada em metal, que, segundo ela, é uma "evocação dos primeiros contatos do homem com a paisagem brasileira". 

BEATRIZ BALEN — Natural de Caxias do Sul, sendo formada em Artes Plásticas pela Universidade de Passo Fundo. Dentre outros prêmios, recebeu o "Prêmio Pintura 71-Curso Internacional de Férias, Teresópolis, RJ". Prefere à pintura a óleo, que lhe tem possibilitado um trabalho de constante criação, quer seja de telas com figuras humanas, nas mais variadas expressões do dia-a-dia, ou de retratos, bastante coloridos, onde os rostos como que sobressaem da tela, transfigurados por uma certa nostalgia Obra doada: "O Velho".

MARISA SARETTA — Natural desta cidade, onde formou-se em Belas Artes, tendo mais tarde concluído licenciatura pela PUC-PA. A qualidade de seus trabalhos tem surpreendido, pois, como se sabe, a pintura com aquarela (sua técnica preferida) é das mais difíceis. Tem participado de diversas exposições e um de seus trabalhos mais característicos está exposto na Pinacoteca: "Estudo Roxo nº 2", que é uma estudo de monocromia, procurando exalar atmosfera e perspectiva. Através da delicadez a suavidade das cores e da elegância das linhas, representa, subjetivamente, o âmago de emoções e a essência da beleza do orbe.

ROBINSON SOBRERA — Natural do Uruguai, onde expôs em várias galerias e aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, chegou a esta cidade e conseguiu se impôr com retratista e ótimo pintor. Suas telas são apreciadas e sua técnica é mais sofisticada, o que já lhe marcou bastante e possibilitou, além disto, um reconhecimento e admiração. Doou a obra: "Caxias Antiga".

IRIS ABELLA — Casada com Sobrera, Iris tem procurado transmitir em suas telas, a religiosidade que vive e convive com o homem. Seus quadros são quase sempre procissões, como o que doou à Pinacoteca, "Procissão" — onde vultos curvados sugerem uma meditação profunda e verdadeira, real.

ROSEMARY SPINATO SCOTTI — Licenciada em Desenho pela UCS, Rosemary também participou de outros cursos em São Paulo e em Porto Alegre. Tem exposto poucas vezes, mas conseguiu impor-se dentro de um estilo muito pessoal e criativo. Suas esculturas são frágeis e leves, com pequenos detalhes de grande efeito e beleza, como, por exemplo, dedos de mãos e roupas com dobras e textura delicadíssimos, podendo ser observada na "Madona", que doou à Pinacoteca. Ela explica que "procura alcancar novas formas e sintetizar em suas obras a beleza, o movimento, as cores".

NAYR MENEGOTTO HOFFMANN — Formada pela primeira turma da Escola Municipal de Belas Artes, estudou com Aldo Locatelli, Vasco Prado, Kotz, entre outros. Sua pintura é acadêmica, quase sempre paisagens evocativas ou de significado regional como é o caso do quadro doado à Pinacoteca, "Colônia de São Romédio".

PEDRO SARETTA — Conhecido industrial, Pedro Saretta é autodidata. Personal em seus trabalhos, o mesmo faz com gravuras e esculturas em argila, com a mesma força criativa que aparece em suas telas. Doou para a Pinacoteca Aldo Locatelli, a escultura "O Frade", que para ele "representa a crise atual da religião, a tortura das dúvidas". É natural desta cidade.

ROJANE LOPES — Natural de P. Alegre, mas reside aqui há muito tempo. Desenha especialmente rostos, procurando dar-lhes imagem dos sentimentos que povoam a mente do homem: "nascimento e alegria e tristeza e amor e solidão e tédio e lucidez e angústia e desespero e morte e paz. Procuro abrir a porta dos cárceres cotidianos, sem pretensões de indicar caminhos". Na Pinacoteca poderão ser vistos três de seus desenhos: "Paz", "Decepção" e "Vida". Alguns acreditam que seus desenhos chegam ao surrealismo, pelos efeitos e relações que estabelecem entre imagem e sentido.

MARIA SOLEDAD DAMIANI — Dotada de grande senso crítico e profunda conhecedora de artes em geral, Maria da Soledad diz que "desde cedo manifestou interesse pelo desenho e pintura. Pintava por absoluta necessidade de expressão, sempre que lhe vinham à mente, imagens e figuras difusas". Recentemente, participou de um curso ministrado por Iberê Camargo. Para cada obra, elabora um poema correspondente. Os que mais a conhecem dizem que está sempre criando algo novo e procurando incentivar as pessoas ao gosto artísticos, sugerindo estudos e soluções. Obra doada. "Nascimento".

ALY CHAVES SILVEIRA — Natural de Caçapava do Sul, participou de algumas exposições e realizou cursos de Tapeçaria, a que se dedica. Doou uma tapeçaria — "Boitatá", uma lenda conhecida entre os gaúchos.

SALLY CARDOSO DA LUZ — Natural desta cidade e formada pela Faculdade de Belas Artes local, tem realizado inúmeras exposições e obtido prêmios como a Medalha de Ouro, 1º lugar em Retrato, conferido pelo artista Aldo Locatelli, no 1º Salão Popular de Belas Artes, 1959, em nossa cidade. Desde então, tem sido uma figura conhecida no meio artístico pela sua capacidade de retratar pessoas. "Busco atingir sempre um maior aperfeiçoamento dentro da arte, procurando através dela e com ela, minha realização pessoal". Doou o quadro "La Noneta", um rosto de mulher, que é "a expressão de um povo, pela face encarquilhada de uma imigrante".

VALDIRA DANCKWARDT ─ Uma de nossas grandes personalidades artísticas, tendo participado de grande número de exposições, individuais e coletivas. Dentre outros prêmios, recebeu, em 1967, a medalha oferecida por Dom Sebastião Bággio, Núncio Apostólico do Brasil. Busca sua integração e comunicação humana por intermédio da arte, obedecendo ao apelo que sua sensibilidade natural e circunstancial lhe transmitem. Ótima desenhista, Valdira tem-se destacado por uma grande coerência. A obra que doou é um quadro, "Solidão": "um homem só, no meio do mundo em ruínas e que expressa, através da violência de cores, linhas, a angústia e o medo da solidão".

ICLÉIA CAITANI — Uma das novas artistas gaúchas, que fixa residência em Caxias, para lecionar Desenho no Atelier Livre da UCS. Participou de algumas mostras coletivas e fez cursos com Danúbio Gonçalves, Armando Almeida e no Atelier Livre de Porto Alegre. Ela diz que "há mais ou menos três anos dedico-me à pesquisa de novas formas, com base em figuras humanas e formas vegetais. É o tipo de pintura com a qual mais me identifico e me empenho em desenvolver. A obra doada, "Abstrato", é bem representativa da fase que Icléia vem pesquisando e desenvolvendo — uma simbiose de seres e formas.

ELYR RAMOS RODRIGUES — Pioneira no campo de ensino das Artes em Caxias do Sul, foi, vários anos, diretora da antiga Escola Municipal de Belas Artes, o que lhe trouxe popularidade aqui. Realizou diversas exposições e tem participado de comissões artísticas de alto nível. A preocupação que tem é mostrar, em suas obras, o que de bom a natureza humana possui, pois acredita nas possibilidades inerentes a cada pessoa, dando a seus trabalhos caráter místico e humanitário.

VERA BEATRIZ STÉDILE ZATTERA — Uma das nossas melhores artistas, mercê de seu criativo trabalho e pesquisa de materiais que se adaptem e contribuam para uma melhor exploração da Tapeçaria, sua técnica preferida. Neste sentido, suas tapeçarias quase se transformam em esculturas, como o trabalho que está na Pinacoteca: "Isolamento".

DAVID RATTI — Natural de Itália, estudou com Alfredo Ortelli e Dario Wolf. Hoje radicado em Caxias do Sul, conta com uma produção que prima pelas paisagens detalhadíssimas; raramente expõe, e a obra que doou é: "Os Pioneiros", evocando os imigrantes, que "de uma pequena semente, fizeram surgir uma grande planta; de uma pequena faísca, uma grande chama".

NELLY ZATTI JUCHEN — É natural de Caxias do Sul, mas fomou-se em Artes Plásticas pelo Instituto de Belas Artes de Porto Alegre. Participou de diversas exposições individuais e coletivas. É exatamente a pessoa dotada de agudo senso crítico e que fez da arte e da educação artística, o centro, o objetivo principal de sua vida. E isto ela deixou bem claro quando questionada sobre o objetivo que dava à sua obra, ela respondeu: "que posso dizer? É minha vida!... A obra que doou à Pinacoteca é uma escultura em feno "Asas do Progresso".

Jornal de Caxias, Caxias do Sul, sábado, 7 de junho de 1975.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

11.04.1969 - D. HÉLDER QUER QUE JOVENS SIGAM EXEMPLO DOS BEATLES


D. HELDER QUER QUE JOVENS SIGAM EXEMPLO DOS BEATLES


MANCHESTER (AP ─ O GLOBO) ─ O Arcebispo Dom Hélder Câmara, do Brasil, conclamou hoje aos estudantes do mundo que se unam aos Beatles em denunciar a sociedade.

"Vocês devem completar a mensagem dos Beatles" ─ disse o prelado a 1300 delegados de 32 paises, num congresso de movimento estudantil em Manchester.

D. Helder, que é arcebispo de Olinda e Recife no Brasil, disse que o grupo de músicas britânicos havia dado um exemplo e agora "jovens colegas dos Beatles protestam contra a forma monstruosa em que vivemos hoje, com nossos falsos valôres, contra a ridícula mecanização de tudo, inclusive do dinheiro".

"Podemos por acaso deixar de entender os "hippies", seus lemas e seus excessos psicodélicos e sua terrível amargura?", perguntou.

"Vocês devem mudar fundamentalmente a norma do comércio internacional, eliminar o neocolonialismo e fomentar o desenvolvimento de tôda humanidade", disse D. Hélder aos estudantes.

Afirmou que o racismo não era somente uma questão de brancos contra negros, mas sim que se trata de que "os negros estão separando-se sistematicamente dos brancos."

Encareceu aos delegados para trabalharem por um mundo multirracional.

Espera-se que o Arcebispo pronuncie um discurso ante uma "convenção de pobres", que se realizará domingo pela manhã em Londres, organizada pelo grupo britânico Hazlemere.

"Estou tentando conseguir a liberdade para nosso povo por meio do Movimento de Pressão Libertadora, declarou anteontem em Londres, D. Hélder Câmara, arcebispo do Recife, segundo entrevista publicada pelo "The London Times", que registra a passagem do prelado por aquêle pais.

Em sua entrevista, D. Hélder declarou que se deve ensinar o povo brasileiro a "lutar pela liberdade" e que o atual Govêrno brasileiro "opõe-se a qualquer mudança no Pais, em nome do anticomunismo".

Depois de acentuar que respeita "aquêles que se pronunciam em favor da violência", D. Hélder salientou que "se nossa Pressão Moral não fôr suficiente, o Govêrno será responsável pelas conseqüências". E acrescentou: "As mudanças deverão ser introduzidas rapidamente se se quiser evitar a revolução pela violência, porque o povo é tão infeliz no Brasil que já se tornou fatalista. Aceita a situação e nela vê a vontade de Deus. Devemos ensiná-lo que deve lutar por sua liberdade".

Ao ser interrogado pelos jornalistas sobre o ataque com metralhadora sofrido pelo Palácio Arquiepiscopal do Recife, D. Hélder esforçou-se em minimizar o fato, e afirmou: "Encontrava-me então em minha residência e acredito que ninguém queria prejudicar-me".
"Padre turbulento"
"The Guardian", jornal liberal destaca a presença de D. Hélder na Inglaterra, onde foi pronunciar conferências para os estudantes de Londres e Manchester, com o título: "O mais turbulento dos patres".

O jornal acrescenta que o prelado foi a Manchester "para falar de pobreza a um congresso de estudantes porém sua verdadeira mensagem é a revolução para todo o mundo".

George Harrison e sua espôsa Pattie deixam o tribunal da cidade de Walton, a 31 de março último, após pagarem, cada um, quantia equivalente a 2.400 cruzeiros novos por posse de maconha.

Logo após posarem nus para a capa de um dos discos dos "Beatles", John Lennon e Yoko Ono foram presos, a 18 de outubro de 1968, acusados de fumar maconha e dificultar a ação policial.

O Globo, sexta-feira, 11 de abril de 1969

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

01.05.1890 - A "Giraldinha"


A "Giraldinha"
───○•○───
O artista que aos 23 annos conseguiu ter a sua reputação firmada por obras que merecem a attenção de toda a gente, pode julgar-se possuidor de um talento excepcional; deixa mesmo de ser um talentoso para se elevar á proeminencia de um genio, pode se dizer que tem o fogo sagrado a animal-o no caminho para o Capitolio.

Ser-se celebre aos 23 annos não é por ahi uma brincadeira; é um caso muito sério, e que está mesmo a pedir biographia acompanhada ao som de adjectivos de certo peso... e valor, que são, por assim dizer, os foguetes de lagrimas da celebridade.

Está n'este caso a Giraldinha, que conta apenas 23 primaveras e já tem proezas de tal finura a attestar-lhe o talento, que não temos remedio senão caixa nova de adjectivos para lhe depormos respeitosamente no seu pedestal de celebridade; porque a Giraldinha, meus senhores, não é qualquer vulgarona, é uma gatuna de primeirissima agua, deante da qual fica eclipsada toda a moderna geração de gatunos, que tem de se curvar humildemente a seus pés.

Giraldinha, uma larapia de pulso e... sobretudo de muito olho, é o terror das algibeiras de cada um; a policia não consegue deitar-lhe os tentaculos antes de queimar o ultimo cartucho; e por vezes a mesma policia, com toda a argucia propria do seu mister deixa de voar, sem saber como, da gaiola que suppõe sufficiente-te segura, aquela ave, que mette n'um chinello a Cêpa, gatuna também de bons creditos, e todos os collegas de calças.

Em Portugal, pode dizer-se, a gatunice não se amolda lá muito bem ao sexo fragil, o que não quer dizer que não esperemos com bem fundadas razões que essa arte venha a ser um dia cultivada pela mulher; pois do progresso tudo ha a esperar e nada nos deve surprehender.

Lá fora, na França, na Inglaterra, na Italia, nos Estados-Unidos, na Hespanha e no Brazil, mesmo, a mulher cultiva a arte de roubar com uma distincção pasmosa, com um entrain que nos deixa embasbacados; ─até dá gosto ficar sem a bolsa ou sem o relogio quando a empalmação nos é feita tão gentil e galantemente como ellas sabem.

Portugal, como tem um poucochinho de tudo ─ e bom, ─ não podia de modo algum ficar em casa no artigo gatuna; ahi está a Giraldinha que não nos deixa ficar mal ao lado das outras nações.

Ora como esta senhora se tornou tão celebre como gatuna, que caminha a passos de gigante para a posteridade, não nos pareceu mau dar o seu retrato aos leitores da Tarde; e cremos que assim lhes prestaremos, modestia á parte, um relevante serviço sob todos os pontos de vista.

Conhecer o retrato d'esta verdadeira heroina, tem, quanto a nós, a dupla vantagem de satisfazermos uma curiosidade, aliás muito justificavel, ─ visto que todos desejam conhecer as celebridades, principalmente o seu paiz, ─ e de nos pôr de alcateia e de pedra no sapato, quando porventura nos toque a vez de sermos os escolhidos por Giraldinha, para o seu campo de manobras.

A fim de colhermos todos os dados que por alguma fórma podessem interessar, acerca da vida da Giraldinha, fomos pessoalmente visital a ao Aljube, onde ella, d'esta vez, está... cremos que bem segura, para responder em face da justiça pelas suas ultimas proezas.

Para conseguirmos esta interessantissima entrevista dirigimo nos ao illustre director da cadeia, sr. general Almeida, que nos recebeu com aquella amabilidade que o distingue como cavalheiro primoroso que é.

S. ex.ª, quando lhe expuzemos o fim de nossa visita, concedeu-nos immediatamente a entrevista pedida, mas... desde logo nos deu as mais desanimadoras esperanças ácerca do exito que iamos colher.

Não desanimámos, confiados em que a nossa loquella poderia demover a Giraldinha a contar-nos todos os pormenores da sua vida alegra.

Chegados ao Aljube, pudémos conseguir, ─ graças ainda ao caracter extremamente amavel e obsequioso do porteiro e do secretario, sr. Oliveira, ─ que a Giraldinha viesse á secretaria; isto depois de lhe havermos exposto, a uma especie de locutorio que ali ha, qual o motivo que lá nos levava; e d'ella nos ter declarado nos termos mais laconicos que... tinhamos perdido o nosso precioso tempo.

Giraldinha veiu á secretaria e começou logo por dizer, mesmo em presença do sr. Oliveira, que assistiu a toda a entrevista:

─ Eu é que não estou para fazer mais partidas! porque se estivesse não me apanhavam cá!

Em vista da attitude da Giraldonha, começámos a empregar os nossos recursos, acalmando a com algumas palavras lisongeiras; demonstramos lhe que não iamos arrancar-lhe confissões para lhe formularmos um libello, mas simplesmente, pedir-lhe que nos contasse alguns episodios da sua vida para lhe acompanharmos o retrato, etc.

Quando a Giraldinha soube que iamos publicar lhe o retrato sorriu, como que lisongeada, e tomou uma atitude mais condescendente, mas sempre retrahindo se a fornecer-nos quaesquer notas que nos pudessem servir.

Ponderámos-lhe que se ella nos recusasse esses apontamentos, não nos seria difficil obtel-os, pelas declarações que se acham nos registros de policia.

A Giraldinha então riu-se maliciosamente e disse que todas as declaralções prestadas por ella na policia, eram meramente da sua invenção.

─ Então não se chama Maria Rosa? perguntámos. Não é filha de José Telles Vicente Novellas e de Maria dos Ramos, não é natural de Faia, concelho da Guarda?

─ Isso foi o que eu declarei á policia, mas não digo a verdade a ninguem.

─ E só agora é que mudou o nome?

─ Mudei-o quando vim da minha terra, ha proximadamente 6 annos.

─ Quando veiu para Lisboa foi para servir em alguma casa?

─ Não, senhor; fugi para a companhia d'um rapaz de quem gostava e por causa de quem meu pae me dava maus tratos. Quando cheguei prenderam me e estive no Aljube 8 dias, ao fim dos quaes me mandaram embora.

─ E quantas vezes tem estado presa?

─ Só d'essa vez e agora, por causa d'aquella velhaca da Francisca; mas ella, quando eu responder, ha-de regalar-se tambem, de sentar se no banquinho dos réus!

─ E quem é essa Francisca?

─ E' uma bagateira que mora em Belem; por causa d'umas bebidas que ella deu a um fragateiro, lá está o pobre homem doido!

─ Mas, o que mais nos interessa é a historia do tal rapaz que a desenquietou; como se chama elle?

─ Isso é que eu não digo por caso nenhum.

─ Basta! ... então a primeira lettra do seu nome.

─ Ponha lá um D...

─ Está dito; e em que se emprega elle?

─ E' padeiro, estabelecido.

─ E quando foi presa ainda estava com esse rapaz?

─ Não, senhor; ha trez annos que nos separámos, porque elle estava para casar com outra.

─ E durante o tempo que esteve na companhia d'elle, em que se empregava?

No serviço de casa; eu não precisava de trabalhar fora.

─ E onde morou durante esse tempo?

─ A's Portas de Santo Antão, por cima da casa onde morava a mãe do chefe Ferreira.

Mais tarde estivemos uma temporada da terra d ella, que é Alcorovim, proximo de Aveiro.

─ E depois que se desligou d'ella o que fez?

─ Depois fui morar sosinha para a Casa Branca, onde me empregava a lavar roupa.

A Giraldinha contou mais que a tal Francisca lhe apanhara muito dinheiro por varias vezes, a fim de fazer com que o D... voltasse para a sua companhia; que da ultima vez lhe exigira 7 libras, e que o roubo da pulseira havia sido combinado entre ambas.

Diz mais que são inexactas as noticias que os jornaes deram a seu respeito e queixa-se principalmente do Seculo.

Giraldinha é como se sabe a ultima palavra da velhacaria, o que nos faz supor que toda, ou grande parte d'esta historia seja falsa; mesmo porque ella cahiu em contradicções flagrantes; diz e desdiz com a mesma semcerimonia com que nos pode metter a mão no bolso e empalmar-nos o lenço.

Declarou ella que se dá muito bem com as demais reclusas; e que quando sahir d'ali tenciona ir para a sua terra natal.

A Giraldinha é de estatura mediana; tez um pouco afogueada, olhos e cabellos castanhos escuros.

A sua physionomia não é antipathica; ha mesmo no seu olhar uma certa vivacidade que denota um espirito vulgar.

Falla accentuadamente ao uso das provincias do norte, mas com certo desembaraço.

Traja uma saia de chita côr de grão com uns ramos mais escuros, chale côr de rato e um lenço amarello na cabeça.
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A Giraldinha tem na sua vida de gatuna uma nota extremamente comica e que define bem o seu instincto ardiloso.

Quando na travessa dos Romulares foi assassinado o Custodio e a policia andava preocupada para saber o paradeiro do assassino, que como se sabe, se evadira, a Giraldinha tinha cahido nas armas da policia e estava detida n'uma das esquadras.

A Giraldinha disse então a um policia que sabia onde parava o assassino e que se quizessem acompanhal-a a certo sitio, ella indicaria o fugitivo.

Como o crime d'este era de summa importancia, o policia viu na Giraldinha um verdadeiro achado e não hesitou em acompanhal-a.

Chegados ao sitio designado, a Giraldinha mandou esperar o policia dizendo-lhe que era para não fazer desconfiar o fugitivo.

O policia cahiu em esperar e a Giraldinha sahiu por outra porta, que era a d'uma taberna onde ella até bebeu, segundo declarou depois, dois decilitros!

E a policia ficou a chuchar no dedo.
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A Giraldinha já figurou na revista do sr. Sousa Bastos, no celebre Tim Tim, antes das ultimas remodelações.

Era até, se bem nos lembra, a actriz Encarnação que fazia esse papel.

Perguntamos-lhe d'onde lhe provinha o apodo de Giraldinha; ella respondeu-nos que quando alguem lhe perguntava d'onde vinha, respondia invariavelmente:

─ Da giraldinha.

Leitores: ─ cuidado com ella! Ahi fica o retrato e os signaes caracteristicos.

Agora deixem-se roubar...
Santonillo.
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Foi revogado o decreto de 8 de agosto de 1889, que mandava entregar provisoriamente ao ministerio do reino e edificio e cerca do convento de Santo Alberto, de Lisboa, para estabelecimento de dependencias do museu nacional de bellas artes e archeologia.
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Recordamos á elite
Das senhoras elegantes
(Recordar nunca mal fez)
Que ha sempre bijous galantes
Baratinhos, d'apetite,
Na rua Aurea 103
──────────○•○──────────
CAFÉ PORTUGUEZ
43 ─ RUA IVENS ─ 43
─────
Lisboa, 1 de maio de 1890
─────
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Coquilhas de camarão au soufflé
PEIXE
Pargo assado á portuguesa
ENTRADAS
Escalopes de vitella á italiana
ASSADO
Borracho au natural
LEGUMES
Favas á hespanhola
─────
Doce─Queijo─Fructas─Café
Meia garrafa de Collares ou Termo--Uma
taça de Champagne.
Das 5 ás 8 da tarde──Preço 800 réis
──────────────────────○•○───────────────────────
D. E. Gouveia e Silva
MAIS UMA SORTE GRANDE
Vendidos n'esta casa, abertos em cautelas na loteria de 29 de abril ultimo:
N.º 2630 . . . . . . . . . . . 14:400$000
Proxima portugueza a 8 de maio
9:000$000
Bilhetes a 5$300, meios a 2$650, quartos a 1$320, quintos a 1$060, oitavos a 660, e cautelas de todos os preços.
Proxima de Hespanha a 10.
1.º premio 45:000$000
Segundo 22:500$000 ─ Terceiro 10:800$000
─Quarto 4:500$000
Bilhetes 22$000, meios 11$000, quintos 4$400, decimos 2$200, e fracções de todos os preços. Dezenas de 600 e 1$200 réis.
84 ─ Travessa da Assumpção ─ 86

A Tarde, Lisboa, quinta-feira, 1 de maio de 1890

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

04.01.1970 - Vida e alegria de um dono de bairro



Vida e alegria de um dono de bairro
CAMPINA GRANDE (De Raimundo Carrero) — Para o senhor José Pinheiro, fundador do bairro campinense que leva o seu nome, todo homem para ser completo deve pelo menos ser dono de quatro coisas: inteligência, visão, presença de espirito e vidência.

Tôda sua conversa corre em têrmo de filosofia, sempre procurando máximas para tratar problemas de vida. No bairro José Pinheiro, já foi tudo: de médico a professor.
INICIO
— Môço — José Pinheiro fala entre sorridente e sério, procurando gozar os homens e dar novas saídas. Quando cheguei neste bairro não havia nada, nenhuma casa. Era um descampado que metia medo na gente. Escuridão e mato eram seus donos.

No comêço armei minha barraquinha a beira da estrada que era única por estas terras, depois transformei-a em bodega para a venda de cachaça aos almocreves. Lá embaixo — aponta para o centro de Campina Grande — o movimento já era grande, falava-se muito em progresso.
PROFESSOR
Muito depois — adiantou —embora o progresso comercial de Campina fosse muito grande, não havia escolas nem professôres. Foi quando na iniciei nessa nova profissão. Todos os meninos eram ávidos de estudos.

Como professor fui severo e exigente, como todos em minha época. Agora não, agora é tudo moleza: menino só estuda na hora que quer e onde quer. Menino, neste tempo, manda mais que gente grande.
POR QUE MANDA?
Nesse instante fêz uma pausa para perguntar porque menino agora manda mais que gente grande. Não entende essa folga: aqui em casa, — disse — não há essa moleza. Ensino aos meus garotos com palmatória e castigo em quarto escuro.

Ainda falando nos quatro sentidos que todos os homens devem ter, explicou que embora tristemente tem observado que o que esta faltando a humanidade é justamente isso. Homem não tem mais visão porque permite que um menino mande nêle. Não tem mais inteligência porque usa-a contra êle próprio.
MÉDICO
Depois de professor, José Pinheiro teve que ser médico em algumas ocasiões. Campina Grande crescia, no centro, como se fôsse uma cidade isolada e seu bairro sofria com a falta de assistêncla.

No entanto, como já havia sido enfermeiro em João Pessoa num Hospital Militar e posteriormente no Recife, com farmácia localizada na Rua São Miguel, em Afogados, não foi difícil, fazer-se de médico.
NOME DE BAIRRO
Por que então, bairro José Pinheiro? Ora, meu filho, mesmo sendo professor e médico, ainda tinha tempo de ser criador. Passei a criar galos de raças. cachorros de raça, porcos de raça, e daí prá frente. Pois bem: qualquer pessoa lá do centro da cidade que queria melhorar também suas criações tinha que me procurar
— Para onde vai com êsse cachorro? 
— Vou para José Pinheiro... 
— Para onde vai com êsse porco? 
— Vou para José Pinheiro..
Para completar, aos domingos, comecei a providenciar brigas de galo aqui no meu "bairro". Aí foi que pegou a tal história. Quem queria assistir a uma briguinha de galo tinha que vir para José Pinheiro.
MAIOR POPULAÇÃO
Atualmente o bairro José Pinheiro é o de maior população nesta cidade. Cêrca de 21 mil habitantes moram lá. E embora tenham surgido algumas brigas para a modificação do nome, até hoje êle não foi mudado, acreditando-se que nunca o será.

Diário de Pernambuco, domingo, 4 de janeiro de 1970

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

26.09.1982 - Editores julgados amanhã na 5ª CJM


Editores julgados amanhã na 5ª CJM
Na auditoria da 5ª Circunscrição Judiciária Militar de Curitiba, amanhã, às 14 horas, começa o julgamento dos editores Aluizio Palmar, Adelino de Souza e Juvêncio Mazarollo, do semanário "Nosso Tempo", de Foz do Iguaçu, incursos no artigo 14 da Lei de Segurança Nacional. Os editores são acusados de divulgar "notícia falsa ou tendenciosa, ou fato verdadeiro truncado" e processo 10/81 está baseado em matérias publicadas no período de janeiro a abril de 81, naquele semanário, denunciando torturas nas prisões de Foz do Iguaçu e descuidos na administração pública, além de reportagens sobre movimentos populares.

Os acusados estão sendo defendidos pelos advogados Técio Lins de Lima, do Rio de Janeiro, José Carlos Dias, de São Paulo e pelo Paraná, Wagner D'Angelis e René Dotti, além de Antonio Moreira, de Foz do Iguaçu. O juiz auditor será Darcy Ricetti e o promotor, o procurador militar Péricles Aurélio Lima de Queiroz. Serão testemunhas de acusação: coronel João Guilherme Labre, comandante do 34º Batalhão de Infantaria de Foz do Iguaçu, o prefeito de Foz, Coronel Clóvis Vianna e o juiz criminal João Kopytowski. Testemunham a favor, entre outros: o deputado Nelton Friedrich, o pastor Werner Fuchs e o advogado Adolpho da Costa, de Medianeira. Os editores poderão ser condenados de seis meses a cinco anos de prisão.
QUESTÕES LOCAIS
Segundo Wagner D'Angelis, os advogados de defesa pretendem comprovar, durante o julgamento, que as matérias são de opinião e não falsas ou tendenciosas. "Vamos alegar que, se houve exageros nas publicações citadas, eles deveriam ser julgados pela legislação ordinária, que é a Lei de Imprensa e jamais pela LSN", diz advogado. D'Angelis espera que o "bom senso da auditoria militar absolva os editores" já que as denúncias têm aspectos basicamente locais, "em nada afetando a segurança nacional".

O Estado do Paraná, domingo, 26 de setembro de 1982.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

07.01.1945 - Descobertos numa casa grande do Recife, os ultimos remanescentes da organização do "Torre Sport Club"


Descobertos numa casa grande do Recife, os ultimos remanescentes da organização do "Torre Sport Club"

Revivendo naquele arquivo de trofeus a existencia gloriosa de um clube que marcou epoca no esporte de Pernambuco

VENCIDO PELO PROFISSIONALISMO O TORRE DESAPARECEU EM 1940 - AGREGOU AS FIGURAS MAIS DESTACADAS DA POLITICA DE SEU TEMPO - VESTIGIOS DE UM CLUBE QUE GOZOU INVEJAVEL PRESTIGIO - OFICIOS CHOROSOS E BALANCETES LEGAIS - A NOTICIA DO REAPARECIMENTO DO GREMIO DA "MADEIRA RUBRA" - REVOLVENDO UM PASSADO DE GLORIAS
Reportagem de Helio PINTO
(Para o "D. P.")

Quem quer que tenha lido algum jornal pernambucano lá para o ano de 1930, ou pelo menos, sentido a influencia do nosso meio, naquela epoca, que já se vão 15 longos anos, certamente que teria ouvido falar numa associação desportiva e social que foi orgulho para Pernambuco, durante toda a sua existencia. Não cheguei a conhecer este clube. No tempo de seu esplendor, ainda garoto, eu perambulava pelas ruas de minha Fortaleza. Mas, desde que aqui cheguei, ha quatro anos, senti intimamente o prestigio do gremio que marcou uma epoca em sua terra: o TORRE SPORT CLUB.

Quisera conhecer mais de perto a vida do clube da "madeira rubra" como o chamavam com orgulho os seus adeptos; quisera ter companhado uma pequena fase do seu esplendor, pelo menos os seus ultimos dias de atividades; quisera ter maiores detalhes sobre o Torre glorioso, o Torre decadente e o Torre desaparecido. Sim, falar sobre o desaparecimento do Torre é justamente o que pretendo fazer. Falar sobre a sua brusca debacle, quando os seus alicerces davam a impressão de uma segurança invencivel. Falar sobre o Torre desmoronado, vencido pelo profissionalismo implacavel que veio trazer uma vida diferente para os esportes, fazendo desaparecer as escolas de amadorismo, desvirtuando os esportes e quase que afetando a propria sociedade.

Foi o Torre uma vitima do profissionalismo. Caiu porque não aderiu ao esporte remunerado. Caiu tambem porque foi um clube excessivamente politico. Os homens que o dirigiam, ou o seu quadro social, ou ainda seus "fans" era figuras proeminentes na administração do Estado, ocupando cargos que pouco depois cairam. E quando estes homens desapareceram do cenario politico o Torre sentiu-se enfraquecido. Viu o seu grande prestigio abalado. Cambaleou durante algum tempo e naufragou.
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O TORRE SPORT CLUB era uma especio de idolo, congregando as figuras mais destacadas da sociedade e da politica pernambucana. Nasceu numa epoca muito distante, lá para o ano de 1909. A principio, como todos os grandes clubes, engatinhou desequilibrado, para mais tarde sustentar-se na rotina da vida. Rememorar as suas atividades, contar os seus feitos, acompanhar a sua vida nas fases de ascenção, esplendor e decadencia, numa longa caminhada de cerca de 30 anos, seria recapitular uma pagina de glorias dos desportos pernambucanos. Este, porem, não seria nosso interesse. A vida do Torre não é desconhecida. O Torre não foi um clube modesto que viveu anonimo como muitos gremios suburbanos. Pelo contrario. Em sua marcha destacava-se acima de tudo o prestigio absoluto. Nada mais é preciso dizer.

Entretanto, voltamos ao assunto, ou melhor, ao fio da meada. Temos em mira, falar sobre o projetado reaparecimento do Torre. O mesmo Torre que Constantino Caldas, de Manoel Teixeira Basto, de Alfredo Vieira Ramos, de Fernando Mendonça, de Antonio Almeida e muitos outros. Aquele notavel clube que prematuramente desaparecera. Desaparecera não é bem o termo, pois o gremio da "madeira bubra" não desapareceu ainda. O seu nome ainda existe, legalizado, assim como as suas cores. Embora quase abandonados, estragados e desfalcados, ainda existem os seus troféos, os seus livros de atas, o seu arquivo deteriorado, enfim, parte de sua organização. E', por assim dizer, uma triste sombra do Torre de 1926 e de 1930.

Ultimamente, falou-se muito no reaparecimento do Torre. O assunto esteve tomando vulto. Ganhou força entre os antigos baluartes do clube. Chegou mesmo ao conhecimento de um colega de imprensa que parece não ter gostado do assunto. Porem, somos favoraveis ao reaparecimento do Torre Não um Torre para viver cambaleando como certos clubes que guardam apenas a tradição; não um Torre para viver de subscrições apressadas ou dos creditos do governo; não um Torre para envergonhar o seu passado, mas um Torre que venha a ser o que já foi  e que volte a ocupar o lugar que realmente merece, no cenario esportivo de Pernambuco. Um Torre com prestigio e força e com elementos decididos no seu leme. Isto é que todos desejam. Então, teremos mais uma força nos nossos esportes, formando ao lado do Esporte, Nautico, Santa Cruz e America.
VESTIGIOS DE UMA ORGANIZAÇÃO PASSADA
Soubemos que o dr. Brito Bastos, presidente do Conselho Regional de Desportos, estava disposto a levar para a sede do Conselho, todos os bens do antigo Torre. Entretanto, onde estariam os bens do Torre? Restaria ainda alguma coisa de aproveitavel? Procuramos o dr. Brito Bastos para conhecer o seu pensamento sobre o assunto:

─ "Tomei a deliberação de trazer para os meus cuidados os bens do Torre, disse o presidente do C. R. D.  Agi de comum acordo com os antigos dirigentes do clube. Caso haja o falado ressurgimento, tudo será devolvido e o Conselho não terá nenhuma intervenção. Agora mesmo, pretendo visitar os restos da organização do Torre".

Em companhia do dr. Brito Bastos e do fotografo, seguimos na direção do Clube Internacional. O carro parou num largo portão e nos dirigimos para uma velha casa, bastante recuada do passeio, Ali, num pequeno departamento da "casa grande", encontramos um armario antigo cheio de taças e papeis. Eram os vestigios de uma organização passada. Ali jazia tudo quanto ainda resta do TORRE SPORT CLUB. Quase nada: pouco mais de 20 taças, algumas de maior valor, arquivo de documentos, pacotes de recebidos, carteiras de jogadores, fotografias de socios, etc.

Observamos atentamente tudo o que resta do clube de Constantino Caldas. Nas velhas carteiras da F. P. D. vimos os nomes de Corbi, Chiquinho, Vivi, Deda, Amaro Pinho, Valfrido, Guimarães, Jasson, Miro, Rato, Toinho, Djalma, Alfredo, Vasco, Petu', Vanderlei, Bada, Dantas e muitos outros. Foram elementos que atuaram já nos últimos anos do Torre.

Lá estavam algumas taças com inscrições que relembram lutas memoraveis, vencidas pelo Torre. E lemos algumas delas: ─ "Taça Maviael do Prado. Ao vencedor da melhor de tres. Nautico x Torre ─ 1930" ─ "Ao Torre Sport Club o Clube Regatas Brasil ─ Maceió, 7-9-23". ─ "Match de luta romana ─ Floriano x Goldstein ─ Ao vencedor da preliminar ─ Torre x Sport ─ 18-12-27". ─ "O Centro Sportivo Alagoano ao Torre Sport Club ─ Maceió, 7-9-28". ─ Torneio Inicio de 1922 ─ 1.º lugar". ─ "Taça A Provincia ─ Temporada Bahiana ─ Associação x Torre ─ 1922". ─ "Taça Maternidade ─ Oferecida pela Liga Pro-Mater ─ 1919"
PROVAS DE BOAS RELAÇÕES
Folheamos os velhos livros de oficios expedidos e recebidos De momento a momento uma gorda traça atravessa o papel como a protestar aquela "profanação". Mais adiante, um oficio do Esporte Clube do Recife, agradecendo um gesto nobre do Torre. O documento diz o seguinte:

"Tenho a satisfação de transmitir a esse valoroso e digno congenere os agradecimentos do clube rubro-negro pelas expressões gentis ao vosso oficio de 12 do corrente, motivadas pelo acolhimento que bem merece o Torre Sport Club, todas ás vezes que as suas representações esportivas visitarem o nosso estadio. Aproveitando esta feliz oportunidade, levo ao vosso conhecimento que a diretoria deste club sente-se satisfeita em pôr á vossa inteira disposição a nossa praça de sports da ilha do Retiro, para os treinos de arregimentação das vossas diversas equipes. Atenciosamente (as) Gilberto Correia Lima ─ Secretario Geral". O oficio tem a data de 21 de setembro de 1938.

Em seguida, a titulo de curiosidade, transcrevemos outro oficio dirigido pelo presidente do Esporte ao presidente do Torre, por ter o gremio campeão de 1930 colaborado na Campanha do Cimento, iniciada pelo gremio rubro-negro. O texto é o seguinte:

"Illmo. Snr. Presidente do Torre Sport Club ─ Presente. Sinto-me altamente honrado em traduzir, pelo presente, o sentimento de gratidão do club rubro-negro ante o gesto de nobreza e fraternal amizade que vem de reafirmar a vossa valorosa e distinta associação, como o primeiro contribuinte á nossa "Campanha do Cimento", promovida com o fim de iniciar as obras de construção das arquibancadas do estadio da ilha do Retiro. A atitude do Torre Sport Club, com esta demonstração de tão elevada compreensão esportiva, vem consolidar ainda mais a estima tradicional que mantem, orgulhosamente, Torre e Sport, nesta imensa jornada que realizam em prol da vitoria integral dos sports nordestinos. Atenciosamente, Gilberto Correis Lima ─ Secretario Geral".
EM BUSCA DE OUTRAS PRECIOSIDADES
Continuamos a percorrer o pequeno arquivo do Torre. Parece ter sido um clube mais ou menos organizado. Pelo menos, nota-se nos ultimos remanescentes de sua existencia muita ordem e perfeição nos trabalhos. Pode-se mesmo concluir que o Torre teve ordem, disciplina e organização. Suas despesas, sempre resumidas, jamais foram alem da receita. Desta forma o clube não contraiu dividas. O saldo que lhe restava nos cofres serviu para os anos agonizantes de 1939 e 1940. Então, foi-se o ultimo cruzeiro...

O Torre, apesar de ser um clube de primeira categoria, tinha poucas despesas. Mesmo a sua arrecadação era pequena, diante do seu nome. Não queremos comentar o assunto. Entretanto, publicamos o balancete do clube feito pelo seu tesoureiro sr. Constantino Caldas, no ano de 1934. O documento está escrito da seguinte maneira:

TORRE SPORT CLUB

Balancete da Thesouraria durante o anno 1934

1934                                                 Debito     Credito
Saldo credor do anno 1933 conforme balancete anterior .. ..     101$300
Mensalidades recebidas durante o anno .. .. .. .. 2:370$000
Rendas de jogos amistosos e officiaes na F.P.D. .   707$900
Idem de eventuaes na sede .. .. .. .. .. .. .. ..   290$200
Venda de 1 bilhar pertencente ao club .. .. .. .. 1:150#000
Donativos recebidos de diversos socios . .. .. ..   450#000
Pago de alugueres da séde .... .... .... .... .... .... ...     705$000
Idem de commissão sobre a venda do bilhar .. .. .. .. .. ..     150$000
Idem de caução de luz na Rua Nova  .... .... .... .... ....      26$100
Idem de energia electrica ... .... .... .... .... .... ....      45$300
Idem por um recurso na F.P.D. (caso America) .. .. .. .. ..      50$300
Idem de commissao sobre a cobrança  .. .. .. .. .. .. .. ..     474$000
Idem de mensalidades na F.P.D. .... .... .... .... .... ...     455$000
Idem pela compra e concerto de materiaes esportivos .. .. .   1:179$100
Idem pela lavagem de roupa .... .... .... .... .... .... ..     178$000
Idem de auxilios de subvenções .... .... .... .... .... ...   1:217$500
Idem por massagens e remedios para amadores  .. .. .. .. ..      66$000
Idem pela compra de materiaes e lampadas electricas .. .. .      22$400
Idem por duas viagens de automovel e por uma certidão .. ..      61$500
Idem pelo concerto do bilhar  .... .... .... .... .... ....       5$000
Idem por photographias de jogadores .... .... .... .... ...      72$500
Idem pela compra de inscripções e renovações .. .. .. .. ..       8$000
Idem pela compra de estampilhas para recibos .. .. .. .. ..       7$400
Idem pela compra de sellos de expediente F.P.D  .. .. .. ..     210$000
Idem pela compra de livros e cartões mensalidades  .. .. ..      43$500
Idem pelo transporte de moveis .... .... .... .... .... ...      35$000
Idem pelo concerto de moveis  .... .... .... .... .... ....      48$000
Idem pela assignatura da "A Gazeta" .... .... .... .... ...      14$000
Idem por um camarote festival do Israelita .... .... .... .      30$000
Idem por pequenas despesas  ...... .... .... .... .... ....      32$500
Saldo credor para o anno de 1935 .. .. .. .. .. ..  270$000
                                                  ---------------------
                                                  5:238$100   5:238$100
                                                  ---------------------
                                                  ---------------------

                                       (ass.)  Constantino Caldas
                                               Thesoureiro

ULTIMOS ADEPTOS DO CLUBE
Durante quase duas horas, estivemos mexendo nos arquivos do Torre. Muitos oficios interessantes que prendiam a atenção de qualquer desportista. Seria impossivel publica-los a todos. Numa velha taça, nas prateleiras do armario, descobrimos uma porção de fotografias e cartões que seriam enviadas aos ultimos associados aceitos pela diretoria. Lá estavam os nomes do ten. Agenor Cavalcanti, tecnico do selecionado pernambucano de 1942 srs. Estenio Revoredo, Pedro Bezerra Cavalcanti, Clelio Correia, Djalma Torres, Haroldo Veloso, Severino Rangel, dr. José Bandeira de Oliveira e muitos outros.

Eram documentos da organização que possui o Torre. Tudo ainda apresentava um ligeiro vestigio de ordem. Notava-se o trabalho dedicado de seus dirigentes. Era, positivamente, aquele Torre um orgulho para os seus dirigentes e para os seus "fans". Esta gente que trabalhou e que admirou o gremio da "madeira rubra" ainda existe. Estão todos aí, afastados das lides esportivas. E todos eles afirmam categoricamente: "Se não existe o Torre não interessa outro clube". Porque não aproveitar este interesse de tantos? Reunam-se os antigos baluartes do clube e estudem a situação com carinho. E' apenas uma questão de perseverança.

Diário de Pernambuco, domingo, 7 de janeiro de 1945