quarta-feira, 16 de março de 2016

03.07.1977 - JORGE AMADO EM MANAUS




JORGE AMADO EM MANAUS

Padre Nonato Pinheiro

Manaus teve a honra e o júbilo de receber, pela segunda vez, a visita ou a presença do consagrado autor de "Gabriela, Cravo e Canela", o celso, o excelso, o preexcelso Jorge Amado, cansado de glórias, como sua Teresa Batista, cansada de guerra. Seu grande amigo, e meu também, para honra minha, dr. Emídio Vaz de Oliveira, promenorizou-me sua permanência nesta minha cidade natal, que recebeu de Deus o sortilégio de abraçar em seu regaço os grandes espíritos do meu país, como Jorge Amado, o heleno Coelho Neto, o magnifico Euclides da Cunha e o sonoroso Gonçalves Dias, imortal aedo das tribos guerreiras e das hieráticas e pulquérrimas palmeiras de nossa idolatrada Pátria! 

Tomei conhecimento de sua segunda estada na terra, pela leitura das nossas folhas, distinguindo-se A NOTÍCIA, galardoada com uma entrevista exuberante da qual me ocupei neste entretenimento dominical com os meus leitores. Não o vi pessoalmente, muito de indústria. Muito fácil me seria um encontro com o egrégio romancista. Teria bastado um simples telefonema ao príncipe das elegâncias ─ "arbiter elegantiarum", que é o amigo Emídio Vaz de Oliveira, e em quinze minutos tê-lo-ia comigo. Diria o mesmo do meu dileto Paulo Jacob, romancista de truz, que também possui a chave de sua intimidade. Prefiro ter esses grandes a distância (não se requer a crase), invisíveis, como Jesus na hóstia consagrada, mas sentindo em suas páginas imortais sua presença real e substancial, como os teólogos falam da presença do Mestre Divino na Eucaristia!

Na entrevista que o guapo escritor concedeu a este brilhante órgão da imprensa amazonense, despertou-me a tenção a parte concernente à língua portuguesa que falamos no Brasil. Rebateu logo a exprssão "língua brasileira", que lhe sugeriu a pergunta do noticiarista. Jorge Amado preferiu chamá-la "língua portuguesa do Brasil". Homero Senna, entrevistando o doutíssimo filólogo brasileiro Souza da Silveira, perguntou-lhe: "Existe uma língua brasileira?" O excelso mestre logo obtemperou: "Não: o que existe é a modalidade brasileira da língua portuguesa". João Ribeiro também disso se ocupou com o peso de sua autoridade de mestre de mestres, que conservava entre seus troféus uma estupenda vitória filológica sobre o grande Leite de Vasconcelos, um dos cimos da Filologia em Portugal, provando que, além de macacos e papagaios, o Brasil também podia exportar para Lisboa excelentes lições de português. Para João Ribeiro, a língua portuguesa, transplantada para cá, enriqueceu-se de novo viço e beleza. Opulentou-se de tupinismos, muitos dos quais lá circulam em Portugal, e aqui se ornou de novas galas e louçanias.

A ciência já se pronunciou a esse respeito. Falar em língua brasileira é cometer um deslavado e desmarcado desatino. É dar atestado de incompetência e apedeutismo. O que temos, e é incontestável, é a modalidade brasileira da língua portuguesa, como pontificou Sousa da Silveira.

A própria expressão "língua brasileira " constituiria uma burrice de borla e capelo. Haverá brasileiros tão ingênuos, que suponham que falamos todos do mesmo modo, do Amazonas ao Rio Grande do Sul? Que me perdoem meus patrícios da Paraíba. Mas, quando converso com um paraibano, fico pensando intimamente: "Meu Deus! É essa língua que eu falo no Amazonas?!" E note-se que não se trata, apenas, de modismos, vocabulário e gíria, mas ponho a questão em base fonética. A pronúncia do paraibano é algo de profundamente diferente da nossa, no Extremo Norte. E diria o mesmo, ou quase o mesmo, do resto do nordeste, mas a do paraibano distancia-se muito mais. Se nos deslocarmos lá para as bandas do sul, onde sopra o minuano, novas e surpreendentes distinções. O gaúcho fala diferente. Então? Então, teríamos várias línguas brasileiras.

Esse problema de diversificação linguística pertence a qualquer língua que se transfere para outras plagas. Terei algum leitor tão infantil que pense ou admita que os argentinos, colombianos, venezuelanos, peruanos, bolivianos, equatorianos, chilenos, uruguaios, paraguaios, cubanos, mexicanos e todos os demais povos que falam o espanhol, falam do mesmo modo? E haverá algum asno neste planeta que fale em língua argentina, língua peruana, língua boliviana, língua colombiana, etc? Não creio. O que nos é lícito falar é em linguagem peruana, colombiana, etc., como o douto José Rufino Cuervo falou em "linguage bogotano", o espanhol falado em Bogotá, do qual se ocupou num de seus livros mais reputados. Nesse sentido, é que poderíamos falar em "linguagem brasileira", mas não em "língua brasileira".

Voltando à entrevista de Jorge Amado. Para mim, o que deveria ter sido apreciado, não era a questão da língua portuguesa e língua brasileira, mas o problema da língua falada e língua escrita, que reputo de maior importância. 

Deve o escritor escrever como se fala? O assunto é polêmico, mas eu acompanho os que não aceitam esse ponto de vista. A língua falada é a fonte e nutriz da língua escrita, mas esta é que aperfeiçoa e escoima a primeira. A língua falada é descuidade; a língua escrita é polida. A língua falada é a ganga impura; a língua escrita é o oiro faiscante que reluz nos anéis e nos diademas. Sousa da Silveira bem se expressou: "A língua escrita, saindo da língua falada, vem a tornar-se um modelo desta; e, nesse papel, fica sendo uma força de unificação, que os escritores e os mestres de todos os graus do ensino devem prestigiar no interesse geral da comunidade, que se enfraquecerá, se, desprezada a língua escrita comum, ficar aberto livre caminho à dialetação poderoso agente de desagregação". E o mestre insigne insinua que é papel dos bons escritores aproximar com habilidade a língua escrita da língua falada, que será sempre a fonte de sua vitalidade. E isso faz em toda sua opulenta bibliografia, assim me parece, que o nosso grande Jorge Amado. Servir-se da língua do povo, mas derramando sobre ela o polvilho de ouro, o polimento, as galas e os brincos da língua escrita, o que revela, inclusivamente, talento, arte, aprimoramento e bom gosto!

2-AGRADECENDO BRINDES LITERÁRIOS. 


Tenho sobre a mesa livros que me foram recentemente oferecidos por amigos e intelectuais. Do professor Manoel Bastos Lira, meu antigo mestre no Colégio Dom Bosco (que aulas! que aulas!), recebi o precioso livro "Outline of Linguistic Analysis", obra notabilíssima, da autoria de Bernard Bloch, da Universidade de Brown, e George L. Trager, da Universidade de Yale. Meu confrade dr. Newton Sabbá Guimarães ofereceu-se seu nupérrimo livro "Park Chung Hee O REFORMADOR DA CORÉIA - um perfil de coragem". A poetisa Iris de Sales brindou-me com seu livro de poesias "Arco-Iris de Rimas", trazendo na capa o heptacromo fascinante. Um calendário fortemente carregado não me permitiu ainda tempo para uma leitura remansada, o que farei oportunamente, para uma recensão, posterior. Assinalo, todavia, o meu agradecimento por essas dádivas litarárias, que muito prezo. O livro é sempre o melhor presente!

3- I ENCONTRO PAN-AMAZÔNICO DE PASTORAL INDIGENISTA.

Realizou-se nesta capital o I Encontro Pan-amazônico de Pastoral Indigenista, cujas assembléia se efetuaram no Centro de Formação de Lideres MAROMBA, desta Arquidiocese. Participaram do encontro bispos, missionários e leigos que atuam em áreas indígenas da Amazônia brasileira, boliviana, colombiana, peruana, venezuelana e equatoriana. Um encontro muito proveitoso, com troca de ricas e vivas experiências, em que os participantes estudaram à luz da fé, da ciência, do patriotismo e dos sentimentos humanos, o problema, ou melhor, os problemas do índio em todas essas áreas nacionais e estrangeiras. Foi publicado um Documento Final, cuja cópia Dom João Sousa Lima, nosso Arcebispo Metropolitano, me ofereceu. É um documento corajoso em defesa do indio, dentro da linha encarnacionista-libertadora, que honra os partipantes do Encontro.

Jornal A Notícia, domingo, de 03 de julho de 1977

terça-feira, 15 de março de 2016

05.03.1996 - Guarulhos enterra seus cinco meninos

Terça-feira, 5 de março de 1996                               CIDADES                                O ESTADO DE SÃO PAULO - C3
TRAGÉDIA
Itamar Miranda/AE
Fãs passam perto dos caixões, do outro lado do cordão de isolamento: velavam ao mesmo tempo celebridades e garotos de sua turma; gente de suas lembranças nas ruas numeradas de Guarulhos


Guarulhos enterra seus cinco meninos


Proximidade entre jovens e periferia e misto de celebridades e amigos de turma marcou o velório


ELIO GASPARI

Os amigos de Guarulhos e desta vida despediram-se dos Mamonas Assassinas numa noite de lua nova, deixando-lhes mensagens escritas no pano das camisetas da banda que ficaram estendidas sobre os caixões cobertos com as bandeiras do Brasil e da cidade.

Desirée para Sérgio:

"Você é 10. Que todos vocês estejam em bons lugares. Te adoro, cara. Você é animal".

Isis para Samuel:

"Me disseram que o céu estava triste, precisando de alegria, Chamou vocês. Acho que é verdade."

Bia para Dinho:

"Como Deus quiseis assim. Te adoro. Ainda te vejo".

Lole: "Valeu, cara. O que você fez por todos nós foi D+. Xô pequetinha. Não dá para esquecer."

Dea para Julio:

"Os roqueiros de Guarulhos lhes manda um abração e tá todo mundo querendo ir com vocês!!!! Espera a gente, tá."

Desirée, Isis, Bia, Lole e Dea são jovens da periferia de São Paulo, que cresceram em conjuntos habitacionais projetados para viver sem alma. Alguns se chamam Jardim, descampados onde há capim, mas não há gramado. Outros se chamam Parque, mas nada há neles que pressuponha divertimento. É uma garotada que vive em ruas numeradas (a de Dinho era a 19, mas hoje se chama Aparecida Goiana, a de Samuel e Sérgio, a 29, mandou uma coroa de flores).

Sempre em casa ─ Para eles, como para milhares de pessoas que passaram pelo velório dos Mamonas, aqueles meninos nunca saíram de Guarulhos. Velavam ao mesmo tempo celebridades e garotos de sua turma, gente de suas lembranças. Estavam do outro lado do cordão de isolamento, tocando os caixões, mas isso não fazia diferença.

"O Dinho era uma alegria só. Como eu o conheci? Na danceteria Cali, na Serra da Cantareira. Eu era garçonete." Katia Regina Lippi tem 23 anos, hoje é cabeleireira em Guarulhos. Ela e sua amiga Cristina Araújo, 17 anos, estudante, passaram a madrugada na quadra de esportes onde se velavam os garotos. Cristina mantinha longos períodos de silêncio, em lágrimas, tocando os caixões de Sérgio, Samuca e Júlio. Ela conheceu Júlio no Recreativo, uma casa dançante de samba. Faz séculos. Os Mamonas ainda não existiam. Chamavam-se Utopia, não tinham gravado e animavam festas em colégios ou no conjunto Parque Cecap, com seus edifícios de três andares. Isso foi há pouco mais de um ano.

Carros do Corpo de Bombeiros, PMs fantasiados de soldadinhos de chumbo, prefeito de jaquetão, primeira-dama de longo azul, pulseira, brincos, colar e cabelos dourados são personagens de um mundo distante. Havia no velório dos Mamonas uma proximidade estranha. Eram o maior fenômeno musical do Brasil, mas viviam em Guarulhos, como se ainda não tivessem desligado da turma da infância. A fila de despedida não parou um só minuto. Mesmo às cinco da manhã, hora do lobo de qualquer velório, caminhava lentamente diante dos caixões. Pelas ruas do fim de noite de domingo, jovens calados deitavam-se nas calçadas de alguns pontos de ônibus da Avenida Tiradentes, misturando-se aos primeiros operários da jornada de segunda-feira. (A essa hora no velório de Juscelino Kubitschek e de seu motorista contavam-se menos de 30 pessoas. No do no marechal Costa e Silva, quatro, com um senador dormindo.)

Ninguém cantou ─ Algumas rádios noticiavam que a multidão em frente ao ginásio onde estavam os Mamonas cantava seus sucessos. Falso. Ninguém cantou coisa alguma, em Vila Flórida naquela noite. "Questão de respeito", informava Elias Souza Silva, 19 anos, vendedor de frutas na barraca do Magu, na feira. A única música cantada naquela quadra foi Tantos como Areia, do hinário da Assembléia de Deus. Com uma folha de mamona na cabeça e uma lata de cerveja na mão, Elisa ficou do lado de fora: "Nunca mais sarei, nem vou sarar." Era amigo de Samuel e de Alberto Hinoto, o japonês.

Pessoas saídas dos mais diferentes lugares tinham algum vínculo com aqueles garotos. Antônio dos Santos, 54 anos, correu a rua com quatro colegas de trabalho carregando maços de folhas de mamona. Quanto é? Nada. Pode levar. Enchera um carro com três mil folhas e em pouco mais de meia hora já distribuíra duas mil. Tem 20 anos de jardinagem e uma lembrança: "O Fusquinha que eu tenho comprei da namorada do Japonês. Nunca mais vendo. Virou relíquia".

Por perto do percurso do jardineiro, horas antes, Walter Teles, um mecânico de 48 anos, enrolador de transformadores da AABB, passou um bom tempo sentado na calçada, ao lado da mulher. Foi se despedir de Dinho, a quem nunca ouviu cantar, mas cujo pai, Hildebrando, conhece há 15 anos. O fato de ter uma Brasília amarela não tem a menor importância para Walter Teles. Comprou a sua há séculos, quando os Mamonas nem Utopia eram, há mais de dois anos.

O sonho do carro ─ As Brasílias de Guarulhos são causa e não lembrança da irreverência dos Mamonas. Eles viveram num lugar onde de fato se sonha com um carro, e uma Brasília (amarela, BFL-4467) está mais do que bom para o pedreiro Enoch Ferreira Souto, 48 anos, que subiu a ladeira para o velório com duas preocupações: acompanhar o neto Michael, de 3 anos, e avisar um colega que estava numa obra próxima de que o dia era feriado.

A de Waldery Negrão (BGL-1227) é cor de icterícia e os papéis dizem que é verde. Borracheiro, estacionou pouco antes das sete da manhã. Com um boné de feltro verde e uma camisa estampada, entrou na fila, percorreu os 30 segundos de companhia com os Mamonas a que tinha direito, desceu a rua, entrou no carro e foi-se embora trabalhar. Não fez social algum. Conhecia os garotos? "Direito, só o japonês. Os outros, de vista." Há poucos meses, quando eles cantaram naquele mesmo ginásio, não conseguiu entrar. Alexandre Sérgio Firmino, um negro imenso, todo vestido de preto, fez o mesmo percurso antes de abrir sua charutaria, onde vende um cachimbo inglês por semana, a "80 dólares". Alexandre morou perto de Dinho. Tem dele a mesma lembrança que o Brasil. "Era muito engraçado, fazia piada de tudo, mas não derrubava ninguém, ao contrário, se tinha alguém caído, podia contar que ele estendia a mão." É das poucas pessoas que se lembra que o baixista do Utopia era o Marcão, que não sabe por onde anda.

Esse ar de familiaridade do velório preencheu, com sobra, as ausências espetaculares. A qualquer hora da noite havia alguém capaz de assegurar que Xuxa tinha chegado ou estava chegando. Quando os caixões estavam no alto dos carros do Corpo de Bombeiros várias louras foram saudadas pela multidão, mas Xuxa não veio. Veio Maguila, de Mercedes. Faltou também a carpa oficial que o ano eleitoral de 1994 atraiu para o velório de Ayrton Senna. O de Guarulhos não ganhou sequer ministro da Cultura (Francisco Weffort, quando candidato a deputado, foi caçar votos em Guarulhos, mas isso é passado, PT).

Os Mamonas eram inconvenientes? E daí? Durante seu breve reinado em Petrópolis, o presidente Fernando Henrique Cardoso convidou dois bispos para assistir a uma encenação de Carmina Burana, composição orgiástica alemã que, na montagem serrana, teve direito a mulher pelada. Bacanal clássica, tudo bem. "Suruba" em letras de música de garotos Guarulhos, inaceitável.

62 coroas ─ Guarulhos se bastou chorando a morte dos artistas do lugar. Havia 62 coroas. Numa espécie de lugar de honra, a de Gugu Liberato. Depois, o retrato do pedaço: "Amigos do Reggae Night", "Mecânica Panda", "Empresa Meteoro" e as "Saudades do Lua Nua Bar", onde eles cantavam antes a Utopia. Os caixões eram sete, mas a funerária não teve crucifixos. Vieram só cinco.

Foram 14 horas de fila. Uma fila de Jeans, agasalhos e tênis, jeans agasalhos e tênis. Uns poucos meninos jogaram flores e folhas de mamonas em direção aos caixões. Eram seis famílias (cinco Mamonas, dois deles irmãos, um técnico de palco e um agente de segurança). Nenhum terno, nenhuma solenidade. Francisco José de Oliveira, um operário aposentado depois de 35 anos de serviço numa malharia, foi enterrar dois filhos de jeans. Os caixões de Sérgio e Samuel estavam lado a lado. Ele passou quase toda a noite com uma máscara impassível. Não falava e não chorava, até que se abraçou num dos amigos dos filhos e descansou a cabeça no seu ombro por alguns minutos.

Mãos no bolso ─ O pai de Júlio, Juliano Sales Barbosa, 56 anos, aposentado depois de 20 anos de serviço como eletricista de manutenção da Cummins, mantinha uma altiva serenidade na voz, mesmo quando contava que ainda tivera alguma esperança na noite de sábado, quando lhe disseram que o avião caíra. Só os olhos injetados mostravam o que lhe acontecera. Às 5h30, quando foi para casa descansar, caminhou pela quadra com as mãos no bolso, parou por um instante em frente ao caixão e seguiu seu caminho.

Ontem, o gigantesco bloco de alumínio e concreto do Ginásio Poliesportivo Paschoal Thomeo (ex-prefeito, deputado estadual, paletó cinza imenso) teve o seu dia de fama. É uma construção azul e amarela, talvez barata no custo, certamente faraônica da concepção. Nele o nome do político benemerente foi escrito com letras maiores que um automóvel. Na vizinhança, contudo, está o verdadeiro mundo dos Mamonas, aquele que os conduziu à irreverência que lhes deu o sucesso e alguma má-vontade.

Logo abaixo do estádio, perto da esquina das Ruas Juquitiba e Jequitinhonha, a Escola de Cabelereiros Shirley anuncia que atende de graça aos menores de 21 anos e cobra 3 reais para mulheres, dois para homens (em Brasília, barbeiro de ministro atende em casa e pede 10). Cinco passos adiante o grande muro de blocos cinzentos de concreto que protege o terreno do ginásio está esburacado, semi-destruído. Lembra outro muro antes que o derrubassem completamente. Atacaram-no há poucos meses, quando uma chuva encheu o córrego-esgoto que desce pela pequena favela próxima. Os moradores acharam que o muro era o culpado pelo represamento da água.

"Aqui é diferente" ─ Para quem vive de grandes funerais, os Mamonas fizeram sucesso até o fim. Valdir Pinheiro mora em Osasco, tem uma Kombi na qual carrega sua carrocinha de cachorros-quentes. Esteve em funerais memoráveis. Tancredo Neves ("o maior de todos, nunca vendi tanto, mas também foram vários dias"), Elis Regina e Ayrton Senna ("havia muita solidariedade, vendi 250, mas lá eu servia também calabresa"). Esperava vender 150 e gostava dos Mamonas.

Como de hábito, acompanhava o espetáculo pela televisão, uma CCE portátil. Discutia com os apresentadores e aborreceu-se quando ouviu que estava chovendo. Por que o senhor não vai lá dentro? "Porque eu não gosto dessas coisas." E por que o senhor está vendo pela televisão? "Porque aqui é diferente, é muito clima." Lá dentro, velavam-se os cinco rapazes do Mamonas Assassinas, que morreram quando eram amados nos dois climas do mundo de tantos Valdir.

O Estado de São Paulo, terça-feira, 5 de março de 1996

segunda-feira, 14 de março de 2016

24.08.1982 - Presos marginais que assaltaram Unibanco


PRESOS MARGINAIS QUE ASSALTARAM UNIBANCO


Dois dos marginais que assaltaram a agência bancária do Unibanco da praça Iguatemy Martins, no Mercado, em abril último, já estão presos. São eles: Almir de Lima, o "Cabeleira" e Josuel Gonçalves, o "Fubá" (26 anos). Eles foram presos em São Paulo, por agentes do 20.º DP (Tucuruvi) e além de confessarem o assalto em Santos, apontaram o nome do comparsa, Cláudio Bambolim, o "Pardal", que está baleado e se encontra internado em estado grave, num hospital de Recife em Pernambuco, após uma fracassada tentativa de assalto a um banco, quando eles foram rechaçados a bala.

A confissão dos assaltantes foi participada ao delegado José Naldo, do setor de vigilância bancária, do DOPS de Santos, o que ensejou a ida do encarregado do setor, investigador Augusto Araújo, ao 20.º DP de São Paulo, com funcionários e clientes do Unibanco no Mercado, para o reconhecimento dos bandidos.

Ao todo, três funcionários do banco: Leocádia da Silva Nunes (sub gerente), Onézio de Lara Júnior (auxiliar de escritório) e Tereza Chaskos Ribeiro (caixa) e dois clientes: John William Henneassey e Arthur Rodrigues. Reconheceram categoricamente os assaltantes Almir de Lima e Josuel Gonçalves. Os assaltantes foram colocados entre outros elementos, mas as testemunhas foram unânimes em apontá-los como participantes do roubo.

O Unibanco do Mercado foi assaltado no dia 13 de abril último, por volta das 15h30, oportunidade em que na agência estavam entre 8 a 10 pessoas além dos funcionários. Logo de imediato, os marginais dominaram o vigilante Antônio Aliomar Soares Moraes e tomaram seu revólver, um "Taurus" de calibre 38. Em seguida, obrigaram o gerente Alfredo Ventura Filho a abrir o cofre, de onde roubaram Cr$6.400.000,00.

Quando os bandidos saíam do banco, um deles, Cláudio Bambolim, o "Pardal", numa atitude gratuita e de extrema violência, baleou o funcionário da agência, Rogério de Farias (20 anos) e o jovem hoje encontra-se cego das duas vistas. A bem da verdade, ao ser atingido pelo tiro na fronte, uma das vistas de Rogério saltou para fora e outra foi destruída pelo projétil. Sabe-se que os familiares de Rogério já fizeram de tudo para que ele voltasse a enxergar, mas os esforços foram em vão.

Antes de praticarem o roubo, os bandidos tomaram a Brasília placa WE-6117, que estava na rua Ricardo Pinto, próximo ao n.°31, no bairro da Aparecida, e só então seguiram para o banco. Num bar próximo ao banco, eles tomaram conhaque, sendo que antes já haviam fumado maconha.

Jornal Cidade de Santos, terça-feira, 24 de agosto de 1982

domingo, 13 de março de 2016

24.01.1930 - Está fundado o São Paulo F.C., com elementos do Palmeiras, S. Bento e Paulistano

DIARIO NACIONAL ─ SEXTA-FEIRA, 24 DE JANEIRO DE 1930


Está fundado o São Paulo F.C., com elementos do Palmeiras, S. Bento e Paulistano

O novo club vae ser mais um titan para a divisão principal da Apea

Ha dias o DIARIO NACIONAL noticiou o andamento das negociações tendentes a fundar os ex-gremios lafeanos, Palmeiras, São Bento e Paulistano, este com os remanescentes da sua extinta secção de futebol.

Agora, podemos confirmar, em suas linhas geraes, a nossa notícia.

Está fundado o novo clube: o S. Paulo F.C. e destinado a tornar-se uma força considerável no mundo futebolístico.

Acham-se ligados a elle pessoas de destaque nos meios sociaes e esportivos, que promettem transformarl-o numa verdadeira potencia, a fazer sombra aos grandes clubes paulistas.

Esperemos que assim seja!

A FUNDAÇÃO DO NOVO CLUBE

Hontem, no escriptorio do sr. Tobias de Barros, á praça da República, realizou-se uma reunião de representantes daquelles clubes. Segundo conseguimos apurar, estiveram presentes os srs. João Cunha Bueno, Luiz de Barros, Caio Luiz Pereira de Souza, Clodoaldo Caldeira, Firmiano Pinto Filho e outros do Paulistano; Odilon Ferreira, Aristides Macedo Filho, Lauro Gomes e outros, do São Bento, e Nevio Barbosa, dr. Martins Costa, dr. Caldas e outros, do Palmeiras.

Foi uma reunião amistosa, que se prolongou até perto das 24 horas. Foram abordadas varias questões. Dentre o resolvido, elegeram a primeira directoria, da qual fazem parte o dr. Edgard de Souza, superintendente da "Light", como presidente, e Zuzu da Cunha Bueno, como thesoureiro. O sr. Fritz de Souza Queiroz, tambem occupa um cargo bem como outros esportistas. Essa directoria depende do "referendum" da assembléa que se realizará no próximo sábado. Foi ainda nomeada uma commissão para elaborar as bases dos estatutos. Dessa commissão fazem parte seis esportistas, sendo dois representantes de cada clube. Quando ao desenho do uniforme do gremio a surgir com a fusão em estudo, deverá ser escolhido em concurso entre nossos mais notaveis artistas. Como principio, serão adoptadas as côres do São Bento, Palmeiras e Paulistano, isto é, azul, branco, preto e vermelha.

A respeito dos jogadores, já ha compromisso formal da maioria dos actuaes elementos dos gremios em apreço, notadamente de todos do Paulistano, para defenderem o pavilhão do grêmio a surgir.

Sobre o campo, serão reunidas as actuaes praças de esportes do S. Bento e Palmeiras, de modo a haver terreno para a construcção de um verdadeiro estádio. E, segundo o pensar dos esportistas á frente do presente commettimento, o estádio em questão ficará prompto dentro em breve tempo, de modo que ainda servirá para o campeonato do corrente anno.

Sabado, 25, haverá a assembléa que tratará, em definitivo, da organização do novo gremio.

Essa data é a commemorativa da fundação da cidade, como se sabe. Dahi, a razão da escolha desse nome, S. Paulo F.C..

DIÁRIO NACIONAL, sexta-feira, 24 de janeiro de 1930

sábado, 12 de março de 2016

10.12.1960 - Biquini é a moda na praia

Diário da Noite
 UM JORNAL DE HOJE 
sábado 10 de dezembro de 1960
SUPLEMENTO ESPECIAL DE SÁBADOS

Biquini é a moda na praia

Com sol esquentando a areia, êste será o fim de semana do biquini. Irma Alvarez (foto), aliás, que decidiu abandonar o biquini no palco (ela quer fazer teatro sério) diz que, na praia, continuará a usá-lo, pois é o traje mais cômodo, mais saudável, mais elegante e, sobretudo, mais revelador, para o verão carioca. Irma acha que mulher bonita não deve esconder beleza: biquini foi inventado para mulher bonita. Por isso, êle será a sensação das praias cariocas, onde mulher bonita nunca falta.

Diário da Noite, sábado, 10 de dezembro de 1960

sexta-feira, 11 de março de 2016

05.08.1989 - Escalada dos preços assusta Maílson

A GAZETA
FUNDADA EM
11 DE SETEMBRO DE 1928
POR THIERS VELLOZO
VITÓRIA (ES), SÁBADO, 5 DE AGOSTO DE 1989 ─ ANO LXII ─ Nº 20623 ─ EDIÇÃO DE 44 PÁGINAS ─ PREÇO DO EXEMPLAR: NCz$ 0,80


Escalada dos preços assusta Maílson

O ministro Maílson da Nóbrega considera um "escândalo" a desenfreada remarcação nos preços dos produtos alimentícios, nos últimos dias, desde quando houve liberação. O ministro ficou particularmente alarmado com os números de um grupo de economistas da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe), segundo os quais produtos como o sal e o pão de fôrma aumentaram 280% e 180% respectivamente, em menos de uma semana. Maílson confirma que o "Governo não hesitará" em retomar o controle rígido através do CIP ou tabelamento da Sunab, para os produtos que estejam com reajustes abusivos. E vai cobrar dos empresários explicações para os excessos.
(Página 8)


Sarney descarta
saída de ministro

As quedas dos ministros Maílson da Nóbrega, da Fazenda, e João Batista cie Abreu, do Planejamento, dadas como certas ontem pelo jornal O Globo, foram desmentidas pelo presidente José Sarney. Para o ministro Ivan de Souza Mendes, do Serviço Nacional de Informações (SNI), a notícia não passa de "um absurdo", embora tenha gerado as mais diversas reações em Brasília. Depois do almoço com empresários, ontem, no Rio de Janeiro, Maílson da Nóbrega, bem-humorado, manifestou completa segurança ao abordar assuntos relacionados à sua pasta. (Página 8)

Empresário é
seqüestrado
em São Paulo 

Foi seqüestrado na segunda-feira, em São Paulo, o publicitário Luiz Marcelo Dias Salles, 57 anos, diretor-presidente da Salles Interamericana de Propaganda S.A. O seqüestro ocorreu pela manhã, nas proximidades da residência de Salles, quando um Fiai Fiorino, ocupado por quatro homens, interceptou o Escort que era dirigido pelo publicitário, que foi arrastado para o Fiat. Até ontem a Polícia não tinha pistas sobre o paradeiro de Salles. Uma mulher telefonou duas vezes para uma vizinha do publicitário, mas apenas anunciou o seqüestro. (P. 12)

Transporte fica
mais 10 dias
sob intervenção 

O Governo do Estado prorrogou, ontem, por mais 10 dias, a intervenção nas empresas de ônibus Planeta, Praia Sol e Sanremo, através de decreto assinado pelo próprio governador Max Mauro. A causa é a não-existência de acordo entre o Governo e os empresários Floriano Mendonça e Claudionor Lorenzutti, proprietários das empresas. Na próxima segunda-feira haverá uma nova reunião entre os empresários e os secretários de Planejamento, Albuíno Azeredo, e Casa Civil, Sérgio Ceotto, para discutirem a reivindicação das empresas em relação à Câmara de Compensação. (P. 3)

Luis Aurich: estilo cauteloso
Bragança: frustrando a imprensa

Loucademia de Polícia

Cena I: O delegado convoca a imprensa para revelar os nomes das pessoas da "alta sociedade" que mandaram matar a colunista social Maria Nilce Magalhães, no último dia 5 de julho, em frente a uma academia de ginástica.

Cena II: Nas esquinas e becos da cidade, não se fala em outro assunto. Enquanto cresce o clima de expectativa, emissoras de rádio divulgam todo tipo de especulação.

Cena III: O secretário de Segurança, pouco antes da hora marcada para a entrevista coletiva, "recomenda" que os nomes só sejam divulgados depois do envio do inquérito à Justiça e após a denúncia do promotor. Personagens: delegado Josino Bragança, presidente do inquérito que apura o assassinato, e Luís Aurich, secretário de Segurança.

O desfecho da história ainda é imprevisível, já que as principais personagens policiais não conseguem se entender. Mas, a julgar pelo episódio de ontem, qualquer semelhança com as trabalhadas da série cinematográfica Loucademia de Polícia não é mera coincidência. (Notícia da pág. 3)

A Gazeta, Vitória, sábado, 5 de agosto de 1989

quinta-feira, 10 de março de 2016

17.02.1989 - Festa em Nova York comemora os 60 anos de Popeye

E - 10 ─ Sexta-feira, 17 de fevereiro de 1989              Ilustrada                       edicaoespecialdeluxo.wordpewss.com


Festa em Nova York comemora os 60 anos de Popeye

JOSE CARLOS CAMARGO
De Nova York

Amanhã, a maior loja de brinquedos de Nova York, a Fao Schawrz — que há dez dias recebeu a visita da princesa Diana —, terá todas as horas de seu funcionamento dedicadas ao sexagenário Popeye. Das 10h às 18h, o velho marinheiro estará por toda a loja, que ocupa quase um quarteirão inteiro entre as avenidas quinta e sexta ao longo da rua 58 em Manhattan. Na programação especial, feita para comemorar o aniversário de Popeye, as crianças que visitarem a loja receberão brindes relacionados ao personagem e ainda conhecerão a nova linha de produtos que está sendo lançada para marcar a data.

Os "amigos" de Popeye e o próprio marinheiro deverão estar presentes circulando pelos quatro andares da loja e distribuindo autógrafos. A programação do evento pretende ser pacífica e não prevê nenhuma discussão entre Popeye e seu rival Brutus, que estará também na Fao Schwarz. Olívia estará impecável no seu vestido rosa e vermelho e até o bebê Gugu, em tamanho um pouco maior do que o natural, vai estar engatinhando pelos corredores. Vai haver um grande cartão de aniversário que a loja simbolicamente vai oferecer a Popeye e todas as crianças presentes estarão convidadas a assiná-lo, desejando parabéns ao personagem. A expectativa da Fao Schawrz é de que o movimento seja mais intensa do que é normalmente nos sábados — dia geralmente mais concorrido. Entre as atrações que serão oferecidas às crianças, a loja inclui um concurso de desenho — com o tema relacionado às aventuras de Popeye — que distribuirá prêmios, em brinquedos, é claro, para os vendedores.
Novo lançamento
Um novo boneco está sendo lançado com uma silhueta "atualizada" de Popeye. A roupa, o bone e o cachimbo continuam o mesmo, mas a nova versão de Popeye parece que passou por um Spa. Ele está mais magro, com as pernas menos tortas e o tradicional braço musculoso dá a impresão de estar ainda mais forte. O preço deste novo boneco ainda será definido no sábado. Parte do que for arrecadado no sábado será utilizado na construção de uma nova ala na Schawrz, o Comic Room, especialmente dedicado aos personagens tradicionais de histórias em quadrinhos como Betty Boop, Pimentinha e o próprio Popeye. 

Esta é a segunda festa em homenagem a um personagem infantil que a Scahwz faz esta semana. Na quarta-feira, a loja, que pode ser vista no Brasil em cenas do filme "Quero Ser Grande", com Tom Hanks, dirigiu sua atenções para o elefante Babar — que em alguns países, como em Portugal, é conhecido pelo nome de Tatá.

Bonecos e uma coleção de produtos com o elefantinho estampado estarão sendo lançados a partir desse ano na loja. Babar, mesmo não comemorando nenhum aniversário oficial, deve ficar mais preocupado em não tirar o brilho de Popeye no sábado. Se o marinheiro resolver comer um pouco de espinafre, não vai sobrar nem o marfim de Babar depois da briga.

Cidade ganha uma estátua
De Nova York

Popeye é patrono da cidade de Crystal City (Texas, região centro-sul dos Estados Unidos). Auto-entitulada como a "capital mundial do espinafre", Crystal City tem há 52 anos — em 1987 houve uma grande comemoração do cinquentenário do monumento — uma estátua em tamanho natural do marinheiro, em frente a prefeitura, bem no meio da cidade.

Na estátua, Popeye foi retratado em uma de suas poses clássicas, com uma mão segurando o cachimbo e outra na cintura, e com seus musculos especialmente realçados para "reforçar" a competência do espinafre local. Crystal City é famosa, além disso, por seus campos de espinafre e pela feira anual do produto que a cidade comemora por uma semana. (JCC)

O marinheiro Popeye, cercado pela amada Olívia Palito, Brutus, Dudu, Gugu, além das tradicionais latas de espinafre

A primeira aparição do marinheiro Popeye no jornal "New York Evening Standard", em 19 de fevereiro de 1929

O marinheiro também é astro da propaganda
Da Reportagem Local

Popeye já foi uma das mais rendosas propriedades do King Features Syndicate, divisão da corporação Hearst dedicada à distribuição e "licensing" de quadrinhos. Nos últimos anos, apesar da enorme popularidade, o marinheiro estava um pouco apagado. Mas os tempos de glória podem voltar, como indica a festa de seus 60 anos em Nova York.

A King Features é dona de contratos de publicação dos mais famosos personagens da "idade de ouro" dos quadrinhos, as décadas de 30 e 40, como Flash Gordon, Mandrake, Fantasma e o próprio Popeye. Embora famosos, esses heróis clássicos estavam ficando ultrapassados pela avalanche de novidades em quadrinhos e desenhos animados que começou nos anos 60. Para reverter esse processo, a King Features está revitalizando seus heróis, contratando artistas jovens para dar um tom mais moderno aos velhos clássicos. Um exemplo é a minissérie do Fantasma que a editora Globo está publicando.

O Popeye também está incluído. Sua revista mensal, relançada no ano passado, está no número 10. Ela ainda está vendendo pouco, mas a Globo planeja uma campanha publicitária para reposicionar o personagem. Além de continuar a revista, que sairá com o selo "60 anos" na capa, a Globo colocará posters nos pontos de venda, fará chamadas comerciais na TV e lançará edições especiais, no decorrer do ano.

Esse relançamento de Popeye obedece necessidades empresariais. Só no Brasil, a cara do marinheiro está em mais de 500 produtos licenciados, indo de camisetas e calçados a jogos, balas e guarda-chuvas, além de ter participado de campanhas publicitárias do Lloyd Brasileiro, da Filler e da Santista. Popeye é garoto-propaganda de algumas das maiores empresas do planeta, como a Hitachi, a Johnson & Johnson e a Renault. (AFt)

Robin Williams interpreta o personagem em cena do filme "Popeye", dirigido pelo cineasta Robert Altman

Herói era coadjuvante de Olívia
Palito quando estreou em 1929

ANDRÉ FORASTIERI
Da Reportagem local

Popeye fez sua primeira aparição como coadjuvante, na tira "Thimble Teathre", publicada no "New York Evening Standard" do magnata William Randolph Hearst. Rapidamente o marinheiro se tornou o astro da série — inclusive roubando a namorada de Ham, um dos heróis de "Thimble Theatre". Exatamente: Olívia Palito, além de ser feia, magricela e ter a voz esganiçada, é mais velha que Popeye.

Todo a família Popeye — Gugu, Dudu, os pais de Popeye, o professor Caracol, Brutus e a Bruxa do Mar — foram criadas por Segar, durante os dez anos em que escreveu e desenhou a série, antes de morrer de leucemia, em 1938. Popeye passou então para as mãos da dupla Tom Sims (roteiro) e Bela Zaboly (arte), depois para Ralph Stein e finalmente para Bud Sagendorf, genro de Segar e segundo mais popular criador do marinheiro. São de sua autoria a maioria das histórias publicadas no Brasil.

Como sempre, ninguém se igualou ao original. Segar fez de Popeye um dos personagens mais famosos do século. Entre outras honras, ele foi o primeiro herói dos gibis a ser incluído no Webster's Collegiate, o mais popular dicionário americano. Sua quinta edição, de 1941, credita a Elzie Segar a criação de duas palavras novas, que acabaram entrando para o vocabulário inglês: "goon" (vilão, capanga) e "jeep", nome dado por Segar a um personagem seu, uma estranhíssima criatura da 4ª Dimensão. Os soldados americanos da Segunda Guerra Mundial se apropriaram do termo para chamar um também estranhíssimo (para os padrões da época) veículo militar que servia para todo tipo de serviço, e tinha "general purpose" — abreviando, "g.p", (que se pronuncia "djip", ou seja, jipe). Outro nome imortalizado foi o do baixinho Dudu, apaixonado por Olívia e fanático por hambúrguers, que acabou batizando uma das maiores cadeias de "fast-food" do mundo, a Wimpy (seu nome em inglês).

A maior façanha de Popeye é também a mais famosa. Nos anos 30, quando a depressão grassava nos EUA, a fama de Popeye fez a venda de espinafre disparar. O mais curioso, nesses tempos de merchandising absoluto, é que Elzie Segar fez isso sem segundas intenções comerciais. Ele simplesmente gostava de espinafre.

Sucesso do personagem aumentou
consumo de espinafre nos EUA

JOSIMAR MELO
Da Redação

O sucesso de Popeye a partir dos anos 30 teve como subproduto um gigantesco aumento no consumo de espinafre, irresistível como a ascenção do marinheiro. Naquela década, a área cultivada desta verdura nos Estados Unidos saltou de 5 mil para 100 mil acres.

Originário da Pérsia, popular na Europa da Idade Média, o espinafre é rico em minerais, especialmente o ferro, e vitaminas. Tem também muita água, e pouca caloria. A explosão de seu consumo as crianças significou a introdução de um ingrediente bastante nutritivo na dieta de toda uma geração.

No Brasil ocorreu o mesmo fenômeno que em outros países, embora aqui a planta não se abra à mais simples das suas possibilidades culinárias. É que uma das melhores formas de comê-lo é simplesmente cru, em salada, o que fica muito melhor com as folhas jovens e tenras que são mais comuns nos países frios.

De toda forma, o espinafre ligeiramente cozido no vapor — mesmo no vapor de sua própria água, que ele solta quando colocado na panela quente — é uma excelente iguaria, de sabor marcante e consistência especial. Também é bom acompanhante de carnes leves, aves e ovos. E bom componente de recheiros e suflês. Mas todo ingrediente de sabor forte tem tanto entusiastas quanto inimigos — no caso do espinafre estes últimos incluem desde personagens literários de Flaubert até Guy de Maupassant. Além de Brutus, é claro.

Popeye consumindo seu fortificante

Filme de Altman satiriza clichês
do corpo no cinema norte-americano

Da Redação

Quadrinhos e cinema já têm uma longa história. E um de seus capítulos mais interessantes é o filme "Popeye", um musical realizado em 1980 pelo americano Robert Altman. Vinte milhões de dólares foi o que custou este fracasso de bilheteria do mesmo diretor do cínico "Nashville". Não há dinheiro no mundo que pague a contribuição que o filme presta a uma representação "biomecânica" e paródica do corpo no cinema americano contemporâneo.

No "Popeye" de Altman, atores (extraordinários) interpretam os personagens dos quadrinhos. O mimetismo dos atores, no entanto, pressupõe um jogo muito mais perverso do que a pura imitação. Entre brigas colossais e extravagantes cenas de amor, é toda uma série de destroçamentos e reconstituições da forma física e do movimento natural que o filme opera. Será que um corpo pode ser completamente desnaturalizado e transformado num circuito alucinado de clichês? É este o desafio de Altman.

Sweethaven, a cidade de Popeye, foi concebida por Altman e o roteirista Jules Feiffer em ambiente natural, numa encosta da ilha de Malta. O ambiente natural enriquece o artificialismo da representação. Um dia, o marinheiro Popeye (Robin Williams) aporta no vilarejo, onde detestam estrangeiros. Aluga um quarto na casa da família Oyl, onde conhece Olívia (Shelley Duvall), noiva de Brutus, o brutamontes através do qual o poderoso e misterioso Comodoro domina Sweetheaven. A história termina com a disputa ensandecida de Brutus e Popeye pela posse do tesouro do Comodoro, que não passa de um par de botinhas de seu filho desaparecido, o próprio Popeye. Pai e filho se reencontram e se confraternizam num sarcástico "happy end".

O cinema de Altman se pretende político, de "M.A.S.H." (1970) a "O Exército Inútil" (1983). É muito mais uma crítica de costumes desencantada com os mitos americanos. Ao filmar "Popeye", Altman viu no personagem um mito do heroísmo e da força que seria necessário desmontar com um pouco de ironia e outro de psicanálise. O melhor do filme, no entanto, está nos riscos que Altman correu na mise-en-scène, nesta que é uma das melhores transposições da estética dos quadrinhos para o cinema desde "Made in USA" (1967), de Jean-Luc Godard. (Alcino Leite Neto)

Melhor versão em desenho animado
foi realizada durante os anos 30 

MARCOS SMIRKOFF
Editor-assistente do Ilustrada

O espinafre de Popeye deu a força que o veterano Max Fleischer precisava para manter elevada a concorrência com os estúdios Disney durante a década de 40. Era um desenho de acabamento sofisticado. Os episódios coloridos experimentavam recursos como a sobreposição dos personagens a cenários tridimensionais filmados separadamente. A DIV lançou uma fita de vídeo no ano passado que compila três ótimos exemplos do marinheiro sob a direção do animador de Betty Boop e do Super-Homem. Quem quiser assistir a fita, não se assuste com a capa horrível que cobre a embalagem.

Depois de Fleischer, o desenho foi mudando de donos e perdendo essas sutilezas. Na Metro — o estúdio de Tom & Jerry — Popeye, Olívia e Brutus foram ainda um pouco respeitados; pelo menos, foi mantida a fluência dos movimentos e criados roteiros divertidos.

O desastre mesmo veio com a última encarnação, pela Hanna-Barbera (exibido atualmente na TVS). O único mérito dessa versão é a tentativa de recuperação do traço original que caracterizava os personagens, com os antigos olhos "só pupilas". Como se tornou regra nos desenhos norte-americanos dos anos 70, o falatório se tornou mais importante que a ação. No caso de Popeye, isso é uma falha grave — quem aguenta a gritaria desafinada de Olívia Palito durante um desenho inteiro? Ou Brutus matando qualquer suspense com seus chavões de homem mau?

Olívia e Popeye na capa do vídeo

Folha de São Paulo, sexta-feira, 17 de fevereiro de 1989