quinta-feira, 24 de março de 2016

30.08.1996 - Petrobrás comprará tubos do gasoduto Brasil-Bolívia



Petrobrás comprará tubos do gasoduto Brasil-Bolívia

◙ Concorrência para maquinário e obras será em dezembro
Antônio Lacerda ─ 21/05/1996
SÃO PAULO ─ A Petrobrás vai publicar na próxima semana um edital de concorrência para fornecimento de três mil quilômetros em tubos para o gasoduto Brasil-Bolívia. O contrato será no valor de R$ 400 milhões. O presidente da estatal, Joel Mendes Rennó, disse que as demais concorrências, para aquisição de maquinário e realização de obras civis, serão abertas em dezembro. A Brastubos, que teve seu credenciamento suspenso, deve participar da tomada de preços.

A empresa ficou impedida de participar de novas concorrências para fornecimento de componentes para a Petrobrás depois que foi detectada uma falha estrutural em 12 dos 17 mil tubos do poliduto entre as cidades de Paulínea e Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Os tubos apresentaram falhas nos testes de pressão e tiveram que ser substituídos. Isso levou à suspensão da Brastubos de concorrências na estatal. Rennó disse que tecnicamente a empresa pode se inscrever na nova concorrência. No entanto, a Cetesb solicitou à Petrobrás um laudo técnico de uma consultoria para atestar as perfeitas condições do sistema. O laudo deve ser concluído em três semanas.

Joel Rennó: Petrobrás abre concorrência para os tubos do gasoduto

◙ A Agência Nacional do Petróleo, órgão que irá normatizar a política nacional de petróleo após o fim do monopólio do petróleo da União, deve ser independente, integrado por membros de notório saber e ficar sediado no Rio, onde estão a Petrobrás, as distribuidoras e os maiores centros de pesquisa de petróleo do país. Estas foram as principais sugestões surgidas no almoço realizado ontem na sede da Firjan pelo Instituto Brasileiro do Petróleo.

Jornal do Brasil, sexta-feira, 30 de agosto de 1996

terça-feira, 22 de março de 2016

02.10.1987 - Radiação: só Chernobil supera Goiânia

10 ─ O ESTADO DE S. PAULO                                                          Saúde                                         SEXTA-FEIRA ─ 2 DE OUTUBRO DE 1987

Radiação: só Chernobil supera Goiânia

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RIO
AGÊNCIA ESTADO

O diretor de Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Luiz Arrieta, considerou ontem o acidente ocorrido em Goiânia como o pior da história nuclear, depois de Chernobyl. Das pessoas atingidas com altas doses de radioatividade, seis (cinco adultas e uma criança) foram transferidas para o Hospital Marcílio Dias no Rio de Janeiro, em estado grave, apresentando sintomas de diarréia, náuseas, vômitos, perda de cabelo e anemia profunda. Para esse quadro ser irreversível resta apenas o último estágio que é o colapso do sistema nervoso central. A situação desses pacientes é preocupante e, nas próximas horas, deverão ser removidas outras cinco pessoas.

Segundo Fernando Bianchini, o acidente foi causado pela ruptura de uma cápsula selada de irradiação à base de Césio-137, usado pelo Instituto Goiano de Combate ao Câncer. Esse serviço estava desativado e o Instituto tinha por obrigação avisar a CNEN para a retirada do equipamento.

O Césio-137, que é um pó, contaminou o pessoal de dois ferros-velhos em Goiânia, as casas onde moram essas pessoas e adjacências. Dois quarteirões dessa zona, considerada nobre de Goiânia e que fica perto do aeroporto foram esvaziados. Todos os moradores estão sendo submetidos a testes de avaliação radiológica no estádio de futebol.

A CNEN, Furnas e Nuclebrás já deslocaram para Goiás 23 pessoas, ambulâncias, roupas e equipamentos especiais. A Aeronáutica entrou no esquema de emergência colocando aviões para o transporte do pessoal e a Marinha colocando seu Hospital Marcílio Dias, especializado em Medicina Nuclear, para receber os pacientes.

Segundo Fernando Bianchini, caso as instalações do hospital não sejam suficientes para tratar de todos os pacientes, uma vez que sua capacidade para pacientes radiológicos éde 12 leitos apenas, o hospital de Mambucaba, próximo à usina nuclear de Angra dos Reis, já está de sobreaviso, com capacidade para mais oito pacientes.

Estão trabalhando em Goiás e no Rio de Janeiro os seguintes médicos especializados em Medicina Nuclear e atendimento de pacientes contaminados por radiações: José Nélson de Lima Valverde e Cleber Márcio de Resende (Furnas), Alexandre de Oliveira (Nuclebrás), Carlos Eduardo Brandão (CNEN) e Sandra Aparecida Belintani (Ipen).

Fernando Bianchini disse que a equipe de técnicos da CNEN, Furnas e Nuclebrás que se deslocou para Goiás esta reconstituindo toda a história para mapear as áreas contaminadas e avaliar o número de pessoas atingidas. O Hospital do Inamps de Goiás está atendendo os casos graves à espera de remoção para o Rio e os pacientes que estão no estádio em Goiás passam por lavagens epidérmicas e internas especiais e são medicados, conforme o caso, com radiogardase, um remédio conhecido também como "Azul da Prússia", usado para descontaminar internamente indivíduos irradiados.

A polícia já isolou o local e o presidente da CNEN avisa a população de Goiânia que não precisa temer maiores problemas, porque o Césio-137 é um pó que adere a qualquer superfície e não pode ser levado facilmente por nuvens de poeiras ou vendavais. Por essa característica de adesão, esse pó também é difícil de ser retirado da epiderme.

No que foi rompida a capsúla, o Césio-137 (que é pó, ao contrário de outro radioisótopo usado no combate ao câncer, o Cobalto (que é metal) se espalhou pela periferia e muitas pessoas passaram a esfregá-lo no corpo por ser fluorescente, como se fosse purpurina. Outras pessoas se contaminaram indiretamente, havendo indicações de pacientes com altas doses, outros com média e baixa dose.

Para o diretor de Segurança Nuclear da CNEM, Luiz Arrieta, as altas doses de irradiação geralmente causam a morte, e o desenrolar desse evento para muitos atingidos dependerá agora da resistência individual e do tratamento médico que, além dos medicamentos apropriados, consiste ainda em transfusões de sangue e a identificação das alterações dos cromossomos dos pacientes.

Luiz Arrieta explicou que o Hospital Marcílio Dias, no Rio, especializado em Medicina Nuclear, possui 12 leitos separados por paredes de concreto e chumbo e detetores de contaminação interna de corpo inteiro, equipe médica e de enfermagem com cursos sobre acidentes nucleares, além de monitores de radiação, equipamentos de descontaminação e roupas especiais. Outro hospital nessas condições é o de Mambucaba, ambos aparelhados para um acidente radiológico.

Segundo Arrieta, os demais 30 pacientes não apresentam até o momento sintomas de altas doses, mas todos deverão vir ao Rio de Janeiro para medição interna de corpo inteiro, para avaliação da radiação que receberam. Na opinião do diretor da CNEN, somente no México, em 1985, ocorreu um acidente parecido com este, com uma cápsula de Cobalto, mas sem a gravidade do verificado em Goiás. Arrieta, explicou que o Césio-137 apresenta uma meia-vida de 30 anos, ou seja, o tempo que dura para perder sua atividade ou decair. Entretanto, na forma de pó ou de cloreto como se apresenta em Goiás, sua meia-vida biológica, ou dentro do organismo humano, é de aproximadamente cem dias, tempo de demora para ser expelido pelas fezes e urina. Esse radiosótopo era usado também em gamagrafia (raio X de metais) e por seus inconvenientes foi substituído pelo Cobalto tanto no uso medicinal quanto no industrial.

Preocupação e medo na cidade
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GOIÂNIA
AGÊNCIA ESTADO
Nas ruas de Goiânia o assunto não é outro: os perigos de uma contaminação generalizada. Antonio Faleiros esclarece que somente quem teve contato direto ou prolongado com a peça radioativa necessita de cuidados médicos especiais, passando primeiramente por um aparelho medidor de radioatividade. "As regiões circunvizinhas por onde a partícula atômica de Césio-137 passou no trajeto até chegar à Coordenadoria de Vigilância Sanitária da Organização de Saúde do Estado já foram liberadas, porque o nível de radiação detectado pelo REM estava abaixo da metade do mínimo suportável ao ser humano." Ontem, a equipe agora composta por 20 técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear, liderada pelo físico Julio Rosenthal, continuou seu trabalho de detectar possíveis partículas ou de fragmentos de césio porventura ainda existentes nos locais por onde a peça radioativa transitou.

Até ontem, a peça encontrada, pesando cerca de 40 quilos, não havia sido enviada a São Paulo, como anteriormente anunciado, mas, isolada agora por concreto, barita e chumbo, deverá ser enviada para a sede da CNEN para estudos, sendo posteriormente encaminhada como lixo atômico. Dois inquéritos já foram abertos para apurar responsabilidade (um pela Secretaria de Segurança e outro, pela CNEN). O professor Rosenthal esclareceu que o Instituto Goiano de Radioterapia ─ que funcionava ao lado do antigo prédio da Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, onde a peça radioativa foi encontrada casualmente por dois catadores de papel há 15 dias ─, não deu baixa da desativação do aparelho de raios X, e que o fato constitui falta grave, por si só, além de que poderão haver vítimas fatais da exposição à radioatividade.

Após encontrar a peça, Wagner Mota e Roberto Alves venderam-na para um ferro-velho. O proprietário levou o fragmento para casa e a marretadas o abriu, espalhando o material radioativo por toda a casa e contaminando os familiares. Apavorados e com queimaduras por todo o corpo, o grupo levou a peça até a Coordenadoria de Vigilância da Organização de Saúde do Estado de Goiás, quando as primeiras providências foram tomadas. Dentre as pessoas provavelmente contaminadas e em estado de observação estão também mulheres e crianças. Os mais atingidos já começam a perder os cabelos e até os dentes. A exposição ao Césio-137, segundo Rosenthal, pode provocar até a mutação das células e uma série de efeitos somáticos danosos e irreversíveis como o câncer (leucemia).

No Estádio Olímpico, mais de 40 pessoas continuam em observação, enquanto recebem cuidados médicos e aguardam a liberação de suas casa, localizadas nas áreas interditadas sob suspeita de contaminação. Um esquema emergencial foi montado ali, providenciando-se alojamento em barracas de lona, e a descontaminação, que começa por vários banhos com sabão neutro.

O físico Carlos Eduardo de Almeida, da equipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que se encontra em Goiânia examinando a contaminação, reconheceu ontem à tarde a gravidade do estado de saúde de dois dos pacientes levados durante a madrugada para o Hospital da Marinha, no Rio de Janeiro. Almeida preferiu classificar de "delicadas" as condições de saúde dessas pessoas, evitando dizer que elas correm realmente perigo de vida.

Entre as seis pessoas que tiveram contato direto e prolongado com a radiação, encontra-se a menina Leidi Alves Ferreira, de seis anos, Wagner Mota Pereira, de 19, e Roberto Santos Alves, de 24 (esses foram os que encontraram o fragmento nuclear), além de Evair Alves Ferreira (36 anos), Ernesto Fabiano (46) e Ivo Alves Ferreira (de 40). O físico esclareceu, ainda, que o material radioativo não se espalhará pelo ar, incorporando-se, sim, aos materiais sólidos com os quais a peça entrou em contato. Outros fragmentos estão sendo procurados em áreas mapeadas na zona central de Goiânia.
O Popular
Casa interditada
Luiz Bola ─ O Popular
No Estádio Olímpico, exames médicos e isolamento

Mortes do coração, por falta de ação preventiva
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BRASÍLIA
AGÊNCIA ESTADO
Os especialistas que participaram do 43º Congresso Nacional de Cardiologia, realizado em Brasília, chegaram a uma conclusão: apesar de o Brasil ter tecnologia avançada na área, a mortalidade por doenças cardiovasculares continua progressiva devido à falta de ações preventivas t anto do profissional de saúde como da população.

Para alterar essa situação, a exemplo de países desenvolvidos, a Sociedade Brasileira de Cardiologia promoverá programas específicos para cardiologia preventiva, informando todo o País por intermédio de campanhas de esclarecimento. Segundo pesquisas, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, exceto na Região Norte.

De acordo com especialistas, muitos fatores contribuem para o índice elevado, assim como a vida agitada das grandes cidades, o stress, a dieta rica em sal e gorduras e, principalmente, a falta de controle da pressão arterial. Até mesmo os médicos não têm o hábito de medir a pressão dos pacientes em qualquer oportunidade, medida considerada eficaz para prevenir doenças vasculares.

Junto a órgãos do governo, como os ministérios da Saúde, da Previdência e Assistência Social e da Educação, a Sociedade Brasileira de Cardiologia pretende desenvolver ações e programas que atinjam diretamente os profissionais da área de saúde, os estudantes universitários do setor e a população em geral. Ontem mesmo, após o encerramento do congresso, ocorreu a primeira reunião que tratou do assunto.

Os participantes do encontro não deixaram de analisar as recentes novidades no campo da cardiologia curativa. Nesse aspecto, um dos principais avanços é a utilização, ainda este ano, em 26 centros de atendimento da Sociedade de Cardiologia da droga PPA, que aplicada nas primeiras seis horas do surgimento de esquemias causadoras do infarto é capaz de desobstruir a artéria e permitir o fluxo normal de sangue, salvando o paciente.

Soro caseiro, arma contra desidratação

Evitar a morte de 60 mil crianças por desidratação no próximo ano é a meta da campanha do soro caseiro que será iniciada este mês pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Anualmente, morrem no Brasil aproximadamente 400 mil crianças, informa o presidente da Sociedade, Navantino Alves Filho. Na faixa etária de zero a quatro anos a principal causa de morte é diarréia, enquanto que dos cinco aos 18 anos o principal motivo da mortalidade são os acidentes e intoxicações.

Essas são conclusões do 25º Congresso Brasileiro de Pediatria, que terminou ontem no Palácio de Convenções do Anhembi e que contou com a participação de seis mil pediatras do Brasil e vários do Exterior. O encontro reuniu os maiores especialistas da área, esclarece Navantino, e foram realizados cursos de atualização e reciclagem. A campanha do soro caseiro (um punhado de açúcar e um pouco de sal em um como de água limpa dado à criança com diarréia em colheradas de dez em dez minutos, sem suspender a alimentação) será patrocinada pela Unicef e contará com a participação da 155 dioceses da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O Congresso decidiu também lutar pela criação do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente, com a função de julgar as ações de saúde voltadas à criança brasileira. Navantino informa que já existe projeto nesse sentido no Congresso Nacional. As principais conclusões do encontro incluem ainda a necessidade da manutenção da campanha de aleitamento materno de forma constante e progressiva. "Principalmente nos grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, onde apenas 10% das mulheres amamentem até os seis meses", esclarece o pediatra.

OS RISCOS

"Vamos informar corretamente acerca dos riscos de contaminação da Aids através de transfusão de sangue não testado para a doença e do baixo risco de transmissão quando da ingestão de leite materno", diz Navantino. O Congresso decidiu exigir maior eficiência das autoridades sanitárias nas campanhas nacionais de imunização, especialmente contra poliomielite e sarampo e a notificação obrigatória de acidentes infantis e intoxicações.

Navantino informa que os especialistas querem cobrar do governo uma "aplicação correta da pouca verba existente nos ministérios da Saúde, da Educação e da Previdência Social e exigindo a implantação da reforma sanitária e dos convênios interministeriais e estaduais para programas de saúde".

O Estado de São Paulo, sexta-feira, 2 de outubro de 1987

segunda-feira, 21 de março de 2016

28.08.2004 - Área de mil campos de futebol é desmatada no Pará

A22 - O ESTADO DE S. PAULO                                     GERAL                                           SÁBADO, 28 DE AGOSTO
AMBIENTE

Área de mil campos de futebol é desmatada no Pará

Ibama apreendeu 34 motosserras e prendeu 54 trabalhadores, mas busca responsáveis pelos cortes


CARLOS MENDES
Especial para o Estado

BELÉM ─ Uma área de floresta de mil hectares, do tamanho de mil campos de futebol, foi devastada por madeireiros de Anapu, no sudoeste do Pará. Os fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), durante operação que contou com o apoio do Grupo Tático da Polícia Militar de Altamira, apreendeu 34 motosserras, encontrando no local 54 trabalhadores, entre eles duas mulheres.

Além do crime ambiental, a polícia poderá indiciar o responsável pelo desmatamento pela prática de trabalho escravo. Os policiais constataram que os trabalhadores estavam em condições precárias de sobrevivência, dormiam em barracos de lona, bebiam água de um igarapé e, para se alimentar, precisavam caçar animais silvestres.

O chefe do escritório do Ibama em Altamira, Elielson Soares, disse que a derrubada ilegal da mata ocorreu a 70 km de Anapu, dentro de um projeto de desenvolvimento sustentável ainda em fase de implantação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e que vai beneficiar cerca de 600 famílias de agricultores.

Mas a área foi invadida e ocupada por madeireiros que hoje brigam na Justiça Federal para continuar explorando espécies nobres, como ipê, jatobá, acapu e mogno. Enquanto a questão não for resolvida, o projeto está suspenso por determinação do juiz da Vara Federal de Marabá, Francisco de Assis Garcêz Júnior.

Demora ─ Aos policiais e agentes do governo, os trabalhadores encontrados no local do desmatamento disseram terem sido contratados por um homem de prenome Bira, residente em Altamira, para derrubar a floresta e transformar a área em pasto para o gado. Para dificulta o acesso da fiscalização, troncos de madeira foram atravessados numa estrada vicinal.

A missionária Dorothy Stang, líder do projeto de desenvolvimento sustentável de Anapu, criticou a demora do Incra e da Justiça em resolver o problema dos agricultores da região. "O povo quer trabalhar, mas os madeireiros não deixam e vivem fazendo ameaças, inclusive com pistoleiros. Eles querem a terra somente para derrubar a floresta e ganhar muito dinheiro.

Miguel Oliveira/O Estado do Tapajós
Responsável também pode ser indiciado por trabalho escravo

O Estado de São Paulo, sábado, 28 de agosto de 2004

domingo, 20 de março de 2016

07.11.1996 - Confederação de Triatlo sob suspeita

Quinta-feira, 7 de novembro de 1996                         O GLOBO                                                                      41

 ESPORTES 


Confederação de Triatlo sob suspeita

Indesp recebe hoje resultado de sindicância sobre desvio ou não de verbas para competições

Jorge Luiz Rodrigues

A Procuradoria-Geral da República entrega hoje ao Instituto Nacional do Desenvolvimento do Desporto (Indesp) o resultado de uma sindicância nas prestações de contas da Confederação Brasileira de Triatlo (CBTri). Em agosto, o Indesp recebeu denúncia de que verbas do antigo Fundesp (Fundo de Desenvolvimento do Desporto) para a participação em competições, como Triatlo de Nice, na França, em 1994, teriam sido desviadas por dirigentes da CBTri.

Segundo o deputado federal Augusto Carvalho (PPS-DF), a entidade máxima do triatlo no Brasil teria fraudado as prestações de contas relativas aos recursos solicitados. Para comprovar as despesas, a CBTri enviou ao Indesp cópias de passagens aéreas emitidas em nome de triatletas que jamais foram convocados ou sequer viajaram. Entre eles, estão os niteroienses Armando Barcellos, Fernanda Keller e Marcus Ornellas; os cariocas Alexandre Ribeiro e Suzana Charnandorf; e os paulistas Michel Bogli e Antônio Mansur.

A Procuradoria da República investiga, entre outras denúncias, se algum diretor da CBTri seria dono da agência de viagens que emite os bilhetes para a entidade.

Somente este ano a CBTri recebeu R$ 242.352 do Indesp para a participação do Campeonato Mundial e em quatro etapas da Copa do Mundo de Triatlo. Nesse total, está incluído o repasse de R$ 56.550, feito por intermédio de ordem bancária, em 15 de outubro passado, quando a Confederação já estava sob investigação.

Asfilófio de Oliveira Filho, presidente do Indesp, explicou ontem que o órgão não tem poder para intervir na CBTri caso a denúncia seja considerada procedente. O teor do relatório da Procuradoria da República determinará se o caso será encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU), que poderia determinar uma varredura nas contas da Confederação.

─ Em caso de alguma irregularidade, o TCU pode determinar que o Indesp não repasse mais verbas para a entidade, como já acontece com a Confederação Brasileira de Judô ─ acrescentou Asfilólio de Oliveira Filho, de 46 anos.

Os atletas envolvidos também estão preocupados. A maioria, como Fernanda Keller, Armando Barcellos e Marcus Ornellas, sequer conversa com João Calazans, o presidente da CBTri.

─ Eu não viajei para a França, em 1994. E desde 1991 não viajo para qualquer competição por conta da CBTri. Tenho muito medo de que o envolvimento do meu nome nessa história venha a me prejudicar com o meu patrocinador ─ disse Armando Barcellos, um dos melhores triatletas do país.

O deputado Augusto Carvalho protocolou ontem à tarde no TCU dois ofícios ao ministro Marcos Villaça, presidente do Tribunal de Contas, antecipando as denúncias. O parlamentar solicita uma investigação abrangente e uma posição breve sobre a denúncia.

─ Tenho informações de que a sindicância foi concluída em 30 de agosto, mas que o resultado está sendo atrasado ─ disse o deputado.

Procurado pelo GLOBO, por telefone, na sede da Confederação Brasileira, em Ilhéus (BA), o presidente João Calazans não foi encontrado, tampouco respondeu aos pedidos de entrevista. Segundo sua secretária, ele não poderia ser encontrado até o fim da noite. ◙

Fórmula-1

Balestre confessa que prejudicou Senna em 1989

Ex-presidente admite ter ajudado Prost no acidente em Suzuka

○ PARIS. O francês Jean-Marie Balestre, ex-presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), admitiu ontem, em entrevista ao jornal francês "L'Équipe", ter prejudicado intencionalmente Ayrton Senna no polêmico acidente entre ele e Alain Prost, no GP do Japão de 1989. Senna venceu a corrida, mas foi desclassificado pela FIA sob a alegação de que teria cortado o caminho para voltar à pista depois que os dois carros se tocaram. Prost, com a eliminação, garantiu seu terceiro título mundial.

O francês liderava o GP e o campeonato e Senna precisava da vitória para adiar a decisão do Mundial para a Austrália. Na freada de uma chicane em Suzuka, Senna arriscou tudo e Prost jogou deliberadamente seu McLaren contra o de seu companheiro de equipe e ambos saíram da pista.

Brasileiro foi desclassificado após vitória espetacular

Com a ajuda dos fiscais, o brasileiro voltou à pista, ultrapassou o italiano Alessandro Nannini no mesmo ponto onde tentara superar Prost e venceu a prova. Mas acabou desclassificado por decisão de Balestre. Ontem, o dirigente assumiu que não foi a honestidade que o levou à decisão:

─ Confesso que deu uma mãozinha a Alain naquele dia em Suzuka. Mas Senna tinha cometido um erro ─ diz o dirigente. ◙

Boxe

Holyfield dispara na frente fora do ringue

Desafiante ao título dos pesados provoca Mike Tyson: 'Quero vencer o melhor'

• LAS VEGAS, EUA. Na briga das palavras ─ tão tradicional quanto as lutas de boxe e que, pelo menos quando Mike Tyson é um dos competidores, costuma durar bem mais ─ Evander Holyfield saiu na frente. Ontem, o desafiante deu entrevista no MGM Hotel, em Las Vegas, que será o palco da decisão do título mundial dos pesos pesados, na madrugada de sábado para domingo. E mostrou autoconfiança, como manda o figurino nesses eventos.

─ Quero vencer o melhor ─ disse Holyfield, com ar sereno. ─ Quantas vezes Mike Tyson já disse que queria machucar um adversário? Disse, machucou e depois deu a volta para abraçar o derrotado. Pois quero que ele diga que vai me machucar. Assim, quando eu vencer, terei certeza de que ele estava confiante e no melhor de sua forma.

Os dois já disputaram a mesma seletiva para as Olimpíadas

Depois, o pugilista referiu-se mais diretamente ao campeão:

─ Apesar de tudo, tenho muita pena de Tyson. Sinto que ele teve seus altos e baixos. Só espero que encontre a paz verdadeira, que quando termine sua carreira não precise sofrer.

Holyfield e Tyson participaram juntos das seletivas americanas para as Olimpíadas de 1984. Tyson tinha apenas 17 anos.

─ Ele era um desses rapazes amáveis, e buscava carinho... O sucesso veio tão depressa que ele não soube em quem confiar ─ recordou Holyfield. ◙

HOLYFIELD FAZ alongamento antes de um treino num ginástico de Las Vegas, onde concorrerá ao título dos pesados

NBA

Shaq justifica os milhões e conduz o LA Lakers à vitória

Pivô marca 26 pontos e time derrota Knicks no Madison Sauqre Garden

• NOVA YORK. No confronto dos times que mais gastaram na liga profissional americana de basquete (NBA), os US$ 120 milhões que o Los Angeles Lakers investiu em Shaquille O'Neal falaram mais alto. Shaq foi o cestinha (26 pontos) e garantiu a vitória do time na rodada de anteontem: 98 a 92 sobre o New York Knicks.

Para os torcedores que lotaram o Madison Square Garden ─ entre eles os cineastas Woody Allen e Spike Lee ─ a maior frustração foi a atuação de Larry Johnson, o reforço mais caro do Knicks. Ele errou cinco de oito lances livres, dois deles nos momentos decisivos. Os dois times estavam invictos na temporada, e o Lakers não vencia o Knicks desde 1992.

Chicago, Detroit e Houston se mantêm invictos na rodada

Mais três times se mantiveram invictos: o Chicago Bulls, que venceu o Vancouver Grizzlies (96 a 73); o Detroit Pistons, que superou o Philadelphia 76ers (83 a 81); e o Houston Rockets, que bateu o Sacramento Kings (102 a 80).

Outros resultados: Toronto Raptors 100 x 96 Dallas Mavericks; Cleveland Cavallers 68 x 74 San Antonio Spurs; Denver Nuggets 78 x 82 Los Angeles Clippers; Phoenix Suns 95 x 98 Minnesota Timberwolves; Golden State Warriors 93 x 111 Portland Trail Blazers; e Seattle Supersonics 95 x 117 Atlanta Hawks.◙

O GLOBO, quinta-feira, 7 de novembro de 1996

sábado, 19 de março de 2016

02.12.1983 - MISS FUTEBOL 1983 ─ Vaskilha elege sua candidata


MISS FUTEBOL 1983
Vaskilha elege sua candidata

A universitária Ana Glitz, 18 anos, 1,74 metro, morena de olhos verdes, estudante de Comunicação e representante da torcida Vaskilhas, é a Miss Futebol 1983. Ela foi eleita por unanimidade, sexta-feira, no ginásio do Fluminense, entre 25 representantes das principais torcidas e clubes de futebol do Estado do Rio de Janeiro. Em segundo lugar ficou a candidata do Fluminense, Ana Beatriz Drapier, seguindo-se Márcia Gabrielle, da TOV; Maria Aparecida Coelho, do América; e Norma Cavalcanti, da Pequenos Vascaínos. A Miss Simpatia foi a americana Renata Martins Prazeres, eleita pelas próprias concorrentes.

As demais finalistas foram Ana Paula, da Charanga do Flamengo; Janaína Corrêa, do América; Kátia Moraes do Fluminense; Mary Anne, do Bangu; Núccia Scheko, do Botafogo; Rosana Silva Pinto, do Bonsucesso; Rose Mary Sacco e Sandra Regina, ambas do Campo Grande.

A comissão julgadora, presidida pelo ator Paulo Figueiredo, reuniu gente famosa como Bia Seidl, Marcos Mello, Dayse Pétrola, Fábio Mássimo, Denise Tavares, Roger Renan, Lizabeth, Marquinhos Moura, Otávio César, Hikmet Calil, Leila Ventura, Édson Bras Lopes, Antônio Velasques, Eric Johnson e Pedro Bragança. O concurso Miss Futebol, criado pelo jornalista Arnaldo Parpinelli, que durante longos anos coordenou os certames Miss Rio de Janeiro e Miss Brasil, tem o objetivo de promover a gigante festa de integração do maior futebol do mundo através da beleza de suas torcedoras.

Em sua primeira versão, alcançou plenamente o propósito reunindo, no ginásio do Fluminense, as mais importantes facções de torcida do Bangu, Bonsucesso, Campo Grande, Flamengo, Fluminense, São Cristóvão e Vasco. O espetáculo de eleição de Miss Futebol 1983 contou com a apresentação de Alice Seidl e Sérgio Cinelli, coreografia de Edith Cremona, música da orquestra de Agostinho Silva, direção geral de Arnaldo Parpinelli e José Henrique Pinto.

Ana Glitz, Miss Futebol 83, recebeu com prêmios Cr$ 300 mil cruzeiros em dinheiro, oferta da San Gabrielle, uma viagem à Bahia, oferta do presidente do Vasco, Antônio Soares Calçada, e um violão da Guitarra de Prata, além de produtos de beleza da Coty e Niasi. A torcida Vaskilha recebeu como prêmio uma bateria de instrumentos musicais da Guitarra de Prata, e um conjunto de camisas de futebol, da Bedran-Rio. A segunda colocada, Ana Beatriz Drapier, ganhou uma viagem a Foz do Iguaçu, ofertada por Manoel Schwartz, e uma viagem à Bahia, com  estadia no Mediterranée, oferta da Fenix Engenharia.

O alto nível das 25 candidatas, a categoria do espetáculo de eleição e a participação vibrante das torcidas e dos clubes, mostraram que o Concurso Miss Futebol veio pra ficar.

Ana Glitz, representante
da torcida Vaskilha é
a Miss Futebol de 1983

Última Hora, sexta-feira, 02 de Dezembro de 1983

sexta-feira, 18 de março de 2016

03.04.1973 - 19 pessoas perderam a vida no mais grave acidente rodoviário da região

Correio Serrano
Fundador: Roberto Löw                                                                                                                     PUBLICA-SE
terças-feiras,
quintas-feiras,
e aos sábados.
Número avulso:
Cr$ 0.54
Ano LVII                                     98700 ─ IJUÍ-RS ─ Terça-feira, 3 de abril de 1973                                     Número 39


19 pessoas perderam a vida no mais
grave acidente rodoviário da região

A nossa região, especialmente as cidades de Ijuí e Ajuricaba, foi abalada às últimas horas da tarde de sábado com a infausta notícia de um grave acidente rodoviário, o maior que se tem notícia na região, ocorrido aproximadamente às 17h15min, na rodovia que liga os dois municípios, e no qual vieram a perder a vida de 19 pessoas. Um ônibus da Empresa Stadler, placas FD-8507, dirigido pelo motorista Sílvio Antônio Moresco, se chocou com um caminhão Chevrolet, placas FD-5014, que concluía a ultrapassagem da ponte sobre o rio Faxinal. Em conseqüência do violento choque, o coletivo, depois de arrancar parte da carroçaria do lado esquerdo do cargueiro, desgovernou, indo contra a murada da ponte e se precipitando nas águas, de uma altura de mais ou menos 5 metros. O ônibus capotou e caiu no leito do rio de rodas para cima.

Viajavam no coletivo 27 passageiros, mais o motorista e o cobrador. Destes, 19 vieram a perecer no local, alguns em conseqüência da violência da queda e outros por afogamento. A capota do ônibus ficou quase totalmente amassada, provocando o esmagamento de algumas vítimas. O rio, no local da queda, apresenta uma profundidade de mais ou menos um metro e meio. Alguns passageiros conseguiram escapar ou ser retirados pelas janelas ou vidros quebrados.

Pouco depois do acidente, chegaram ao local autoridades policiais e militares de Ajuricaba e de Ijuí, bem como os bombeiros locais, chefiados pelo ten. La-Hire Esteves Machado. As vítimas e feridos receberam os primeiros atendimentos e logo depois foram conduzidos no carro dos bombeiros e ambulâncias do DMBES e da Clínica do dr. Pydd para os hospitais das duas cidades, onde foram prestados socorros médicos aos feridos e feita a identificação dos mortos.

AS VÍTIMAS

No Hospital de Caridade de Ijuí, foram identificadas as vítimas: sra. Emília Sampaio e sua filhinha Marli Terezinha Sampaio; sra. Iracema Chagas e suas três filhinhas Tânia, Rosane e Beatriz, sendo uma delas de tenra idade; Luís Palha e sua esposa Orlanda Oliveira Palha, casados há menos de um mês; Itamar Pedro Azambuja Machado, José Barbosa Prates, Milton Lima, Avelino Schüssler, Wilson Rigoli, Darci Tomé e Terezinha Pereira. No Hospital de Ajuricaba, foram identificados: Maria Kinalski e Jovelina Pereira.

Duas vítimas não foram achadas na hora. Maria da Graça dos Santos teve seu corpo encontrado somente às 15h30min de domingo, a mais de 500 metros do local. O corpo da menina Lúcia Beatriz Sampaio, outra filha da inditosa Emília Sampaio, ainda não havia sido localizado até o dia de ontem, quando encerrávamos os trabalhos nessa redação. As buscas, a cargo dos bombeiros, prosseguem.

Encontram-se hospitalizados em Ajuricaba, Leonísio Ataídes e Vanderlei Pasqualini e em Ijuí, Honorina Pithan Silveira e sua filha menor Cleusa Silveira, Olga Fürsel, Fátima Weber e Sílvio Antônio Moresco (motorista do ônibus).

Foram medicados e logo depois se recolheram às suas residências, Orlando Teodoro, Rodney Simões Vargas e Irani Krampe (cobrador do ônibus), além de Aribildes Toso, motorista do caminhão, e seus acompanhantes Alfredo Darci Lauer e Alfredo Steurer.

Os pertences dos passageiros do coletivo foram recolhidos pelos bombeiros e entregues na Delegacia de Polícia de Ajuricaba, onde estão à disposição das famílias das vítimas.

O ônibus foi desvirado pouco depois do acidente e somente foi retirado das águas na tarde de domingo, com o auxílio de um trator carregador e patrolas da Prefeitura de Ijuí e do DAER. Os dois veículos acidentados foram recolhidos à DP de Ajuricaba, onde foi aberto o competente inquérito pelo delegado Osvaldo Morais Jacob.

Correio Serrano, Ijuí, terça-feira, 3 de abril de 1973

quinta-feira, 17 de março de 2016

19.09.1996 - Tragédia sobre trilhos em Japeri

12                                                                        O GLOBO                           Quinta-feira, 19 de setembro de 1996
 RIO 
DESASTRE: Cargueiro que transportava bobinas de cabos de aço perde freio e bate a 100 km/h em trem de passageiros


Tragédia sobre trilhos em Japeri


Quinze pessoas morreram e 60 ficaram feridas no acidente que fez a cidade parar


Sem freio, o trem cargueiro vinha a aproximadamente cem quilômetros por hora. Logo à frente, na mesma linha um trem de passageiros estava parado num sinal da passagem de nível. Os dois maquinistas do cargueiro. desesperados, apitavam sem parar, tentando chamar a atenção dos passageiros do outro trem para que eles pulassem. O som ensurdecedor do apito se juntava aos gritos de alerta dos moradores, enquanto a distancia entre os trens ficava cada vez mais Curta. Cinqüenta metros antes da batida os dois maquinistas do cargueiro se abraçaram para esperar o que parecia inevitável: a morte.

Essa é parte da tragédia que parou ontem de manhã a pequena cidade de Japeri, onde um acidente ferroviário matou 15 pessoas e feriu cerca de 60. O cargueiro de prefixo 5032, procedente de Juiz de Fora (Minas Gerais), colidiu na traseira do trem de passageiros de prefixo 3160, conhecido como "Barrinha", que saía de Barra do Piraí com destino à estação de Japeri. Pessoas ensangüentadas corriam pelas ruas, corpos mutilados ficaram atirados no leito da ferrovia e moradores entraram num vaivém alucinante tentando socorrer as vitimas. Entre os que se feriram gravemente estavam os dois maquinistas do cargueiro.

O desastre com os dois trens da Rede Ferroviária Federal ocorreu às 8h16m. O cargueiro de 18 vagões saiu da estação de Dias Tavares, em Juiz de Fora, com um carregamento de bobinas de cabos de aço da Siderúrgica Belgo-Mineira com destino ao Rio de Janeiro. O "Barrinha" levava para Japeri cerca de 90 moradores de Barra do Piraí e cidades próximas, que fariam baldeação para o Rio naquele município. Como havia uma composição da Flumitrens parada em Japeri — de onde viria para a Central do Brasil — o "Barrinha" parou no sinal da passagem de nível, a 700 metros de distância da estação, logo depois de uma curva.

Tudo indica que o cargueiro, que pesava aproximadamente duas mil toneladas, tenha perdido o freio ao descer a Serra das Araras, a cerca de 30 quilômetros do local do acidente. Às 8h12m, o cargueiro entrou em contato com o controle de tráfego de Barra do Piraí, avisando que estava sem freio e em velocidade excessiva.

Um minuto depois, por telefone, o controlador de tráfego do posto 64, a cerca de quatro quilômetros da passagem de nível deu o mesmo aviso ao auxiliar de controle de tráfego da estação de Japeri, Francisco José Ferreira. O funcionário do posto 64 viu quando o cargueiro passou em alta velocidade, avançando um sinal que estava vermelho. A estação de Japeri foi avisada três minutos antes da colisão.

Dois passageiros conseguiram
se salvar pulando do vagão

Alguns moradores perceberam que ia acontecer uma tragédia e começaram a gritar para que os passageiros pulassem. Dois rapazes que estavam numa das portas do trem olharam para trás, viram o cargueiro em alta velocidade e se atiraram de qualquer maneira no leito da ferrovia. conseguindo escapar ilesos, embora em estado de choque. Outros não tiveram a mesma sorte: tentaram salvar a vida pulando pelo outro lado do trem — o esquerdo — e acabaram encontrando a morte debaixo dos vagões, quando a composição descarrilou e tombou depois da colisão.

A maioria dos passageiros, no entanto, sequer teve tempo de se mexer antes da tragédia. O cargueiro colheu o trem por trás, os dois embicaram para cima e a composição de passageiros tombou. Os 18 vagões do cargueiro descarrilaram e avançaram, envolvendo o outro trem, num choque que produziu um estrondo ensurdecedor.

Uma mulher grávida de sete ou oito meses foi esmagada sob um dos vagões e o feto expelido para os trilhos. Outras pessoas tiveram membros amputados. Vísceras misturavam-se às pedras do leito da ferrovia. Bolsas, sapatos, pedaços de roupas e documentos espalhados no local compunham uma cena dantesca em Japeri.

Um dos primeiros a chegar ao local foi o enfermeiro Élio Rodrigues Fortin, de 38 anos.

— Parecia o som de um trovão muito forte em dia de tempestade violenta. Os moradores correram para a passagem de nível. Eu e outras pessoas começamos a tentar socorrer os feridos. Muitas vitimas, ensangüentadas, gritando enlouquecidamente, saiam do trem e corriam pelas ruas. Em poucos minutos as ambulâncias do Hospital Municipal de Japeri começaram a chegar. Depois que ajudamos a socorrer os feridos, só nos restou recolher os corpos e as vísceras — contou o enfermeiro.

Os feridos foram levados para o Hospital Municipal de Japeri e para a Casa de Saúde Nosso Senhora da Conceição, a 200 metros do local do acidente. Dali, as vítimas em estado mais grave foram transferidas para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Três feridos morreram na ambulância, a caminho da Posse. Outra mulher grávida, Rosilda Penedo, de 29 anos (no quarto més de gestação), morreu na Casa de Saúde Nossa Senhora da Conceição. Um homem, que ainda não foi Identificado, morreu ao chegar ao Hospital da Posse. No local do desastre, dez pessoas morreram. Entre os mortos, estava o agente de trem Ilmar Figueiredo, de 44 anos, que viajava num dos vagões de passageiros.

Na lista de feridos estão os maquinistas do cargueiro, registrados na Rede Ferroviária Federal apenas como P.A. de Carvalho e J.S. Silva. Os maquinistas do trem de passageiros, Daniel Rodrigues e Cláudio Guimarães, também se feriram.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e em poucos minutos chegaram carros dos quartéis de Nova Iguaçu e Paracambi. O quartel central, no Rio, mandou logo reforço. No total, foram 50 bombeiros trabalhando no resgate das vítimas e chefiados pelo comandante do quartel de Nova Iguaçu, coronel Pascoal.

A cidade parou. De todas as ruas saía gente para ver o desastre. A multidão ocupou o leito da ferrovia, se acotovelando para ver o trabalho dos bombeiros e dos voluntários. Policiais do 24º BPM (Queimados) tiveram de isolar com uma corda a entrada da passagem de nível, para facilitar o transito de quem estava empenhado no resgate das vitimas. Um helicóptero da Coordenadoria Geral de Operações Aéreas (CGoa) sobrevoou o local.

A locomotiva que saiu de Dias Tavares puxando os vagões de carga apresentou problemas e teve que ser trocada já no Rio, na estação de Barra do Piraí. Segundo o presidente da Rede Ferroviária Federal, Isaac Popoutchi, todo trem que entra no Rio é vistoriado em Barra do Piraí exatamente por ser a última estação antes da descida da Serra das Araras. A locomotiva que causou a tragédia, de acordo com ele, também passou por uma inspeção e teve testados seus freios. Além disso, informou, foram examinados a posição das rodas e outros equipamentos.

— Tomamos todas as precauções para a descida da serra — afirmou. — Um acidente dessas proporções não é normal. Há 20 anos não se registrava um desastre assim.

Vistoria de trem em Barra do Piraí
não foi feita dentro das normas

Uma comissão interna foi formada pela Rede Ferroviária para, em sete dias, informar as causas do acidente. Já se sabe, no entanto, que a vistoria feita em Barra do Piraí não seguiu as normas. Segundo funcionários da Rede Ferroviária, são necessários quatro dias para uma vistoria completa, que inclui a verificação de 71 itens. A inspeção no trem, no entanto, não levou muito mais que dez minutos.

Um aviso na estação de Barra do Piraí, assinado pelo engenheiro Cristiano Matos, pedia a liberação rápida da composição. Apenas dois itens foram examinados: a carga e justamente os freios, que acabaram falhando.

O gerente de Transportes da Rede Ferroviária Federal, engenheiro Mário Sidrim, esteve no local da colisão. Ele também disse que todo cargueiro passa por vistoria ao entrar no Rio. Sidrim confirmou que a estação de Japeri foi avisada sobre o cargueiro sem freto trinta minutos antes do acidente, mas não soube dizer se ainda daria tempo para alertar os dois maquinistas do trem de passageiros.

— Vamos ouvir as fitas com a gravação das conversas do centro de controle para saber exatamente o que aconteceu para acontecer a colisão — disse o engenheiro.

Mário Sidrim afirmou que a locomotiva tinha condições de trafegar com segurança:

— É difícil precisar as causas de um acidente dessas proporções. Ainda mais que o cargueiro passou pela vistoria e o freio estava em perfeitas condições — garantiu ele.

Pelo telefone,
o anúncio
da tragédia

O telefone tocou às 8h13m na sala de controle de tráfego da estação de Japeri. Atônito, o funcionário da Rede Ferroviária Federal de plantão no Posto 64, a quatro quilômetros de distância, dava a informação que três minutos depois se transformaria na tragédia.

— O cargueiro está sem freio, está sem freio! Passou aqui a mais de cem por hora, sem respeitar o sinal. Vai bater no "Barrinha", vai bater! — gritava o funcionário para o colega de Japeri Francisco José Ferreira, de 47 anos. 

Francisco correu os olhos pelo painel de controle que informa o tráfego da ferrovia e viu a aceleração do cargueiro.

— Não dava para fazer nada. Nem para avisar os maquinistas do trem de passageiros. Foram três minutos de pavor, de angústia, sabendo o que estava para acontecer e sem poder lazer nada para evitar. De repente, o painel ficou todo iluminado. Era o choque dos trens. Eu vi o desastre pelo painel. A tragédia chegou a nós através de luzes num simples painel — repetia Francisco, emocionado e abatido, enquanto observava os bombeiros resgatando corpos. 

Francisco ficou com sentimento de culpa por não ter podido avisar os colegas e os passageiros:

— Eu queria tanto poder ajudá-los. Se houvesse tempo de correr pelos trilhos, mandar todo mundo sair do trem... Mas três minutos era muito pouco para correr 700 metros. Já estou meio velho, meio cansado. Restou-me esperar que a tragédia se consumasse ou que a mão de Deus impedisse a fatalidade. Só um milagre os salvaria.

O Globo, quinta-feira, 19 de setembro de 1996