terça-feira, 29 de março de 2016

15.09.1974 - E o povo só aplaudiu, como estava previsto

46 ─ O ESTADO DE S. PAULO                                                                        DOMINGO, 15 DE SETEMBRO DE 1974

E o povo só aplaudiu, como estava previsto


Tudo transcorreu como fora previsto. As bandas chegaram a tempo, as recepcionistas mantiveram o sorriso numerado, os crachás foram suficientes, o povo se aglomerava atrás dos cordões de isolamento contido por vigilantes policiais, os altifalantes funcionaram como deviam e até o locutor soube dar, à sua voz, o timbre que caracteriza os mestres de cerimônia dos grandes espetáculos circenses. À grande festa de ontem cedo, não faltou nada. Talvez o protagonista principal ─ o metrô ─ tenha perdido um pouco de importancia pelo brilhantismo dos coadjuvantes ─ as autoridades. À platéia, restou o papel de sempre: assistir. Mas isso também havia sido previsto. Afinal, o povo estava ali justamente para aplaudir. E aplaudiu obediente a cada pedido de "uma espontanea salva de palmas" do mestre de cerimônias. Na região da cidade entre Vila Mariana e Jabaquara, o grande espetáculo tomou toda a manhã. Conseguiu alguns sorrisos das crianças que ganhavam balões de gás e ofereceu a alguns candidatos uma boa oportunidade de se mostrarem às vésperas das eleições. Tudo estava previsto. Os inconvenientes ficaram apenas para aqueles que foram às estações do trecho de sete quilômetros na esperança de participarem do espetáculo, como extras talvez, mas também tiveram de se contentar com a assistência convencional. Eles estavam ali para bater palmas e manter o complemento indispensável. Afinal, o que seria da grande festa se não houvesse assistência? Para assegurá-la, existiam os folhetos promocionais, coloridos. Havia balões de gás para as crianças e a oportunidade de todos verem de perto as ilustres autoridades. Tudo como havia sido previsto. Quando a festa terminou e a platéia deixou o local do espetáculo, a ela restava apenas a esperança de amanhã, sem balões, bandas de musica, crachás, mestre de cerimônia, altifalantes, cães pastores da PM e cordões de isolamento, poder passar pelas bilheterias, pagar um cruzeiro e 50 centavos e viajar de metrô.

Para o grande espetáculo do metrô, tudo foi preparado com a devida antecedência, até mesmo a "espontaneidade" das manifestações populares

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DICÇÃO - ORATÓRIA - CULTURA GERAL
Dicção ─ técnica básica, empostação vocal, desinibição, postura, expressão verbal e personalidade.
Problemas de fala: rouquidão, gaguez, voz velada, esganiçada ou estridente: falhas de articulação, pronúncia, ritmo e outras anomalias.
CULTURA GERAL ─ apreciação artística, história das artes ─ sessões integradas de música, artes visuais e literatura. Processo audio-visual e criativo.
Professora: Maria José de Carvalho, ex docente da Esc. de Comunicações e Artes da USP.
Informações ─ Tels.: 247-3157 e 63-4510
CONVITE
A nova forma de atendimento de saúde aos funcionários da Prefeitura de São Paulo e seus dependentes, que poderão escolher livremente os médicos de sua preferência, bem como outros aspectos importantes da moderna sistemática administrativa, seus objetivos e benefícios, implantados por orientação do Prefeito Miguel Colasuonno, serão abordados amplamente pelo Secretário de Higiene e Saúde, Dr. Aldo Fazzi, nesta terça-feira, às 14 horas, durante palestra que fará, como convidado especial, no anfiteatro do Hospital do Servidor Municipal.
Prefeitura do Município de São Paulo
Secretaria de Higiene e Saúde
TELESP
TELECOMUNICAÇÕES
DE SÃO PAULO S.A.
SUBSIDIÁRIO DA TELEBRÁS

COMUNICA

A TELESP comunica que continuam abertas as inscrições de novos telefones apenas para as áreas de Perdizes e Anhangabaú, ou seja, apenas para as ruas cobertas pelas estações 62, 65, 262, 227 e 228.

A DIRETORIA
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sem problemas de coluna.

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Uma festa sob encomenda na manhã tropical

Num curto trecho de pista da Domingos de Morais, em frente à estação Vila Mariana, as bandeirinhas, os balões de gãs e os chapéus de sol distribuídos por 100 recepcionistas que receberam entre 100 e 500 cruzeiros da Companhia do Metropolitano, demonstrava, logo cedo as características dadas à festa de inauguração do primeiro trecho da linha Norte-Sul.

Em manhã de sol que o incansável locutor da radio Mensagem classificava de "tipicamente paulistana" em transmissões que se estenderam por dezenas de altifalantes, as recepcionistas uniformizadas concediam à comemoração o toque mais evidente de que ela pertencia exclusivamente às autoridades: à entrada da área impedida, afixavam dezenas de crachás ─ os tipos variavam conforme o grau de importância do convidado ─ nas roupas de quem se identificasse devidamente. Fora dos cordões de isolamento, o povo esperava os colegiais que surgiam desfilando com a marcação da Banda da Polícia Militar.

De espontaneo, as pessoas que assistiam aos preparativos para a festa manifestavam apenas o descontentamento em não pode ultrapassar as cordas que as separavam da estação Vila Mariana, onde se encontrava a verdadeira e unica atração da festa.

Com sua movimentação limitada pelos cordões de isolamento, Jorge Soares Cápua Júnior, por exemplo, não soube como explicar aos três filhos que trouxe de Campinas, porque eles não iriam passear de metrô. As autoridades, que os três meninos puderam ver, chegaram às 9 e 15. Dos altifalantes, a ordem para uma espontanea salva de palmas ao prefeito e ao governador foi imediatamente atendida. Passaram os aplausos, ouviu-se nos altifalantes o elogio às "comunidades de Vila Mariana, Vila Clementino, bairros da Saudade e Ibirapuera, soberbamente representadas em sua estação". Junto às autoridades, dezenas de agentes de segurança muito mal disfarçados sob os crachás de "convidados". Entre eles, os agentes da empresa Vigilância Global, contratada pelo metrô, misturavam-se com empregados da Jaraguá Promoções, uma nova firma contratada pelo metrô para cuidar de sua festa.

Depois do hasteamento das bandeiras, o coral do Colégio Alfredo Ascar tentou cantar. Não pôde: seus integrantes calaram-se ante o aviso que surgiu nos altifalantes, de que as autoridades "estavam ansiosas para experimentar o metrô". E elas partiram para satisfazer o seu desejo, "rigorosamente dentro do horário, como aliás deve acontecer em solenidades como esta", afirmava a voz que saia dos altifalantes.

No mezanino da estação, outro coral esperou inutilmente sua vez de cantar. Dom Paulo Evaristo Arns abençoou rapidamente o local e saiu. Já na Domingos de Morais, ele pode ouvir a informação do sistema de som: "O Cardeal Arns procederá, agora, à bênção de todo o sistema metroviário". Depois, o pedido para que "sigam lentamente, com muita calma, tranquilamente para os vagões". Nas plataformas, na troca de empurrões, ministros separaram-se do prefeito, deputados não puderam acompanhar o governador.

Não muito distante dali, na estação praça da Árvore, o motorista Odilon Januário, com sua roupa de passeio ─ paletó marrom e calça verde-escuro ─ não se importava em perder algumas horas de serviço para tentar ver a inauguração. Mas demorou-se apenas cinco minutos: levando a frustração de não ter podido "andar de metrô" e a certeza de que a festa não era para o povo.

A exemplo de Odilon, muita gente acabou deixando a praça da Árvore por não poder nem mesmo entrar na estação. Mantido a distância por cordões de isolamento e um policiamento ostensivo que incluia até mesmo cães pastores, o povo acabou sendo apenas um espectador passivo de um cenario artificialmente festivo, onde as autoridade e convidados desfilavam sua vaidade.

Antes que o "trem das autoridades" partisse de Vila Mariana, a estação da praça da Árvore era apenas um imenso vazio ocupado por funcionários, pessoal da segurança e serventes que se desorientavam em apressadas ordens e contra-ordens. Mas, quando o trem começou a chegar, o supervisor da estação Jamil Nemes, deixou tudo de lado para ensaiar uma voz radiofonica e ler o texto reservado para o momento: "Bem-vindos ao metrô de São Paulo no início de sua operação remunerada...".

Fora, o diretor do Colégio Bilac, Amaro de Abreu, não conseguia conter o seu entusiasmo: ele era o responsável pela coordenação das "manifestações espontâneas" na praça da Arvora. A frente de um grupo de "lideres da comunidade", o professor gritava e gesticulava as providencias para que nada saisse errado. A ele caberia "saudar o governador e o prefeito" quando estes descessem do trem e subissem ao mezanino. Não deu certo: a aglomeração que se formou logo após a chegada do "trem das autoridades", abafando a mensagem de Jamil Nemes, não permitiu que o professor deixasse o seu anonimato. Depois de vencer a barreira de agentes de segurança, funcionários do metrô e convidados, ele chegou perto do governador e do prefeito. Mas com tempo apenas para um aperto de mão. Quando esboçou a ensaiada saudação, foi afastado pela segurança.

À custa do sacrificio das crianças e jovens que ficaram sob o sol por muito tempo, o programa de homenagens na terceira escala da festiva rota do metrô pôde ser cumprido normalmente. Com discursos, entregas de flores e apresentações de fanfarras que incluiram o "Parabéns a Você", aproveitando a "coincidencia" da data de aniversário do governador.

Mas os insistentes apelos do mestre de cerimonia não foram correspondidos desta vez: os poucos aplausos demonstraram que o publico não estava sintonizado com a euforia oficial. Os populares dispensaram-se rapidamente logo depois que as autoridades deixaram a praça, embora os altifalantes anunciassem repetidamente "novas atrações".

E o "trem das autoridades" prosseguiu na sua viagem.

Quando a voz empolgada do locutor da radio Mensagem substituiu o som estridente de uma orquestra norte-americana nos altifalantes da estação Santa Cruz, na rua Domingos de Moraes, ainda havia algumas pessoas perto do palanque instalado na frente do Colégio Arquidiocesano. Mas a ordem dada pelos organizadores da festa encarregou-se de acabar com a ultima possibilidade de o povo participar da segunda fase da maratona inaugural: os cordões de isolamento foram reforçados, guardas da Policia Militar colocaram-se estrategicamente nas esquinas do quarteirão, com cães ameaçadores. E o povo, naturalmente, sumiu atrás das bandeiras e fanfarras infantis.

Por isso, quando o governador Laudo Natel e seu sequito chegaram, encontraram apenas um pequeno grupo de politicos profissionais e alguns jornalistas. O presidente da Assembléia, Salvador Julianelli, estava ali porque se atrasou na saida da estação Vila Mariana. O deputado Rui Codo juntou-se a ele: assim, puderam disputar com mais chances o privilegio de uma foto junto às autoridades que inauguravam o trecho de sete quilometros.

O ar sombrio da cinzenta estação Santa Cruz ganhou logo animação quando os convidados oficiais começaram a descer do trem para a rua. E quando o governador Laudo Natel, praticamente arrastado por seus homens de segurança, conseguiu chegar ao palanque azul, os discursos, entregas de placas e agradecimentos oficiais recomeçaram. Só que, desta vez, entre disfarces e barulhos esporadicos de alguns "traques" colocados por um convidado bem humorado.

Apesar dos esforços dos rapazes da "Jaraguá Promoções" em distribuir bandeirinhas, balões e chapéus, o que chamou mesmo a atenção foram as enormes faixas da Associação Comercial, saudando o "arrojo" dos construtores do metrô e o volume da vitrola do Colégio Arquidiocesano, onde girava um disco da Aquarela do Brasil na versão alemã de Fischer Chôre.

É claro que o séquito do governador não passou despercebido: um ritmo desenfreado de baterias encarregou de anunciar que as ilustres autoridades estavam chegando. Depois que o locutor da rádio Mensagem recorreu "às crianças do Brasil" para saudá-las, os organizadores da festa conseguiram encontrar as flores que tinham desaparecido e finalmente entregá-las aos principais homens da comitiva.

Nessa hora, o fotógrafo ambulante Adalberto Jacob viveu um dos seus momentos de maior glória: confundido com um dos representantes da imprensa, ele nunca foi tão requisitado para registrar mostras de congratulações. E pode até fazer o que seria considerado, por alguns jornais, "um furo de reportagem": fotografou, o quanto quis, o novo tom castanho dos cabelos de um velho político, antes grisalho, dedicado agora à difícil tarefa de renovação de sua imagem conservadora. Calmo, político, o homem não se importunou.

Por um instante, de repente, tudo parou. Um som estranho de buzinas invadiu a rua em meio à apoteótica manifestação "espontânea" de agradecimento que caía das sacadas do Arquediocesano sob forma de confetes, arroz e serpentina. Na frente do palanque surgiam, ao mesmo tempo, bandeiras de todos os países do mundo que possuem metrô. E, para compensar a ausência do símbolo do metropolitano de Moscou, os organizadores da festa lançaram à frente de uma fileira de colegiais fantasiados, três pequenos meninos que poderiam lembrar cossacos.

Depois que a ruidosa comitiva viu tudo isso e partiu tão confusamente como tinha chegado, os moradores dos quarteirões próximos puderam ver de perto das bandas das 13 escolas que participaram da festa. E, como que para provar a "espontaneidade" da manifestação, a perua da firma de promoções contratada pelo metrô passava pela rua, lotada de rapazes que levavam ─ para quem quisesse ver ─, os buquês de flores padronizados, preparados para os colegiais entregarem ao governador se ele não estivesse com tanta pressa.

Quando a festa terminou, centenas de operários da empreiteiras responsáveis pela construção do "mais moderno sistema de transporte urbano" tiveram de tomar a sua condução habitual: sobre as caçambas metálicas dos caminhões basculantes, eles se espremiam e não demonstravam nenhuma preocupação pela iminência de qualquer acidente. Apesar de não ser permitido esse tipo de transporte, nenhum policial de transito tomou qualquer providência, preferindo o tratamento pouco delicado aos motoristas que procuravam orientação sobre os caminhos a seguir.

Antes do meio-dia, toda a grande festa já havia terminado. O cenário montado para o espetáculo já não se justificava. Era apenas um conjunto de palanques, recepcionistas já sem sorriso e confetes e serpentinas pelas ruas. As estações fechadas, mantinham o clima escuro que permanecerá até amanhã, às nove horas, quando enfim começará realmente a "operação remunerada" no pequeno trecho de sete quilometros.

Ao fim da festa, nem a Companhia do Metropolitano de São Paulo, nem a Prefeitura do Município, informaram quanto custou o grande espetáculo.

aE
agência ESTADO

AGOSTO DE 1974
PLANO DE AUTOFINANCIAMENTO
DE VEÍCULOS
UNIÃO ECONÔMICA
83.ª ATRIBUIÇÃO DE VEÍCULOS "0 KM"

Ficam os senhores participantes do Plano de Autofinanciamento de Veículos "UNIÃO ECONÔMICA" e público em geral, devidamente informados conforme determina o artigo 11.o do seu regulamento, dos nomes contemplados no ultimo dia da Loteria Federal de 31-08-74, para receberem seus veículos "0 KM", cabendo salientar que o referido Plano de Autofinanciamento de Veículos atinge com a presente ATRIBUIÇÃO o montante de Cr$ 31.385.741,99.

N.º Privativo  Contr.        PARTICIPANTES             Veículo
de inscrição   Pagas                                    Marca
     2401       246    ADELINO RODRIGUES              VOLKS-1300
     3398       163    AMERICO FRANC. T. CONCEIÇÃO    VOLKS-1300
     1812        83    JAIME DE OLIVEIRA              FORD-F-350
     3555       170    JOSÉ MARIA REY                 VOLKS-1300
     4359       165    LAURINDO DOS SANTOS HELENO     KOMBI-ST
     1888        83    MARIA DULCE RABELLO RANGEL     VOLKS-1300
     1429        83    ROBERTO FONSECA LEAL           KOMBI-ST

Os senhores participantes acima relacionados estão nesta data sendo informados por carta de Atribuição de Veículos que lhes couberam e demais atinentes a liberação dos mesmos.
OBS: Os pagamentos para a próxima atribuição deverão ser efetuados até o dia 27-09-74.
EXECUÇÃO E ADMINISTRAÇÃO
UNIÃO DOS SERVIDORES DA CAIXA ECONÔMICA DO ESTADO DE S. PAULO
Praça Pedro Lessa, 61 ─ 11.o Andar ─ São Paulo ─ Capital.
São Paulo, 15 de setembro de 1974.

FURUKAWA INDUSTRIAL S.A. PRODUTOS ELÉTRICOS

(NOVA DENOMINAÇÃO SOCIAL DE KAISER ALUMINIO DO BRASIL S.A.
Com sede à Av. São João, 473 ─ 15.º andar, tendo transferido para outra organização, KAISER ALUMINIO COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA, seus telefones:

36-7232 ─ 35-694 ─ 32-8401

comunica que doravante, continua atendendo unicamente pelos seguintes telefones:

36-3757
32-9052
35-5547
32-6952

O Estado de São Paulo, domingo, 15 de setembro de 1974

segunda-feira, 28 de março de 2016

25.03.1974 - David Bowie sábado no Anhembi

FOLHA DE S. PAULO
São Paulo, segunda-feira, 25 de março de 1974
David Bowie, apontado "o rei do grupo do Rock", exibe-se sabado proximo no Anhembi.

David Bowie sábado no Anhembi

Em 1971, apareceu em Londres no album "Hunky Dory", de David Bowie. Era uma nova edição do album, que antes passará desapercebido ao grande publico e da critica. Dessa vez, fez sucesso. E a partir de então Bowie que estava se apresentando no Anhembi não parou de fazer sucesso.

Antes, fizera parte de um conjunto, os Buzz, que surgiu um pouco na cola dos conjuntos de "blues" existentes na época. Depois do sucesso de "Humky Dory", Bowie fundou um conjunto novo, "Spiders From Mars" (Aranhas de Marte), que logo estourou no cenario musical inglês, e, sem demora, no cenario internacional.

Hoje, alguns criticos dizem, de Bowie, que "é a maior expressão musical inglesa desta decada"; ou "é o novo Elvis Presley", ou "o rei do grupo de Rock", ou "o inquietante novo rei do rock".

O MENINO DE BRIXTON

Um crítico recentemente disse: "Um concerto de David Bowie não se compara a nenhum outro. No palco, esplendidamente vestido, David move-se com fascinante graça animal, enquanto os sons hipnoticos da guitarra cosmica de Mick Ronson ecoam por todo o teatro. E quando a agudeza de voz fria de David se eleva pelo auditório, até os mais cansados filosofos do rock não podem deixar de ser presos pelo drama visual que se desenrola. Este é então David Bowie, o homem que agarrou a musica pelo pescoço e arrastou-a para uma nova era."

Como os Beatles, que vieram timidamente de Liverpool, Bowie tambem timidamente veio de Brixton, uma região suburbana de Londres. E, como os Beatles, foi para a cidade grande cheio se ideias novas, cheio de vontades novas. Ele que na verdade se chama David Jones, teve de ingressar no mundo artistico com outro nome, Bowie, para não se fazer confundir com xará que começava a fazer grande sucesso ─ Davey Jones, na epoca com o conjunto Monkees.

Não obtendo logo um sucesso de publico e critica, Bowie resignou-se a trabalhar em carater mais ou menos privado, em seu laboratorio musical ─ instalado em sua propria casa em Kent ─ e foi ai que desenvolveu suas pesquisas e inovações.

Nessa epoca ─ fins de 69, começo de 1970, cercou-se de uma pequena mais muito fertil comunidade artistica, e todos trabalhavam no laboratorio.

NOVOS ELEMENTOS DE ROCK

As pesquisas de Bowie revelaram-se frutiferas. Rapidamente, ele incorporou ao rock novo, que já cultivava, elementos até então ineditos, como a mimica e um mais variado e policromico jogo de cena.

De toda uma complexa mistura que foi aos poucos sendo enriquecida, surgiu Bowie como espetaculo, coexistindo e sobrepondo-se talvez ao Bowie dos discos.

Não admira que ele seja, hoje, um dos astros de rock mais solicitados para espetaculos em todo mundo. Foi um dos precurssores da pintura no rosto, das cores extravagantes e de todo um conjunto de elementos que compõem o rock espetaculo que leva as multidões ao delirio.

Para sua apresentação em São Paulo, no proximo sabado, o local estabelecido foi o Anhembi, atendendo já a uma previsão de enorme afluencia de publico.

Folha de São Paulo, segunda-feira, 25 de março de 1974

domingo, 27 de março de 2016

01.05.1974 - Conselho homenageia no Dia Nacional da Mulher as 10 que se destacaram em 73


Conselho homenageia no
Dia Nacional da Mulher as
10 que se destacaram em 73

As 10 mulheres que mais se destacaram em 1973, segundo escolha do Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, foram homenageadas ontem "por sua participação no desenvolvimento sócio-econômico-político do país" em cerimônia comemorativa do Dia Nacional da Mulher, realizada no Salão Pedro Calmon da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As homenageadas foram Aída Carvalho Cortez Pereira (assistência social), Embaixadora Francisca Fernández Hall, Carmem da Silva (jornalismo), Hilda Macedo (policial), Hildegard Angel (TV), Lígia Fagundes Teles (escritora), Magdalena Tagliaferro (pianista), Maria Elisa Carrazzoni (museóloga), Maria Ester Bueno (tenista) e Nise da Silveira (psiquiatra).

MOMENTO HISTÓRICO

No discurso de abertura, a presidente da CNMB, Sra. Romi Medeiros da Fonseca, declarou que tem esperanças de que "num futuro próximo possa agradecer ao Governo da Revolução por seu interesse na participação feminina nos três Poderes da República." E, em outro ponto: "A mulher está deixando de ser objeto para ser sujeito, estamos assim vivendo um momento histórico da humanidade."

A primeira a ser chamada foi o destaque em Assistência Social, Sra. Aída Cortez Pereira, mulher do Governador do Rio Grande do Norte, que divide o cargo de secretária do marido com o de presidente da Linha Auxiliar da Comunidade (LAC), órgão executor da Assistência Social no Estado. Dedica-se ao amparo de menores abandonados.

A Embaixatriz da Guatemala no Brasil, Sra. Francisca Fernández Hall, engenheira, é a primeira mulher de seu país a ocupar o cargo de Embaixatriz. No Brasil foi antes Encarregada de Negócios e em Israel, onde também foi Embaixatriz de seu país, era a decana do Corpo Diplomático de Jerusalém. Formou-se em Engenharia no Rio de Janeiro e recebeu duas importantes condecorações nacionais: a Ordem do Cruzeiro do Sul e a Medalha General Rondon.

A JORNALISTA

Carmem da Silva, da revista Cláudia, foi considerada a mulher que em 1973 mais contribuiu para a renovação do jornalismo feminino. Escreve também nos diários argentinos Clarín e La Razón.

A policial Hilda Macedo, outra escolhida, é a fundadora da Polícia Feminina de São Paulo (195) e observou nos Estados Unidos e na Inglaterra, a convite dos Governos locais, o funcionamento das respectivas policiais femininas, "trazendo subsídios aplicáveis à organização brasileira."

Hildegard Angel, produtora de um telejornal da TV Rio, afirmou em suas declarações, ao ser chamada, que "a mulher brasileira, na televisão, está num lamentável segundo plano."

A ESCRITORA

Outra homenageada, a escritora Lígia Fagundes Teles, acaba de ser eleita para a vaga de Cassiano Ricardo na Academia Paulista de Letras. Lembrou que seu livro mais recente, As meninas, é mais um dado em sua longa luta pela emancipação feminina.

Em seguida foi distinguira a Sra. Maria Elisa Carrazzoni, personalidade do ano passado em educação, por procurar dinamizar a instituição que dirige (Museu Nacional de Belas-Artes), "inclusive incentivando jovens artistas." Não puderam comparecer as homenageadas Magdalena Tagliaferro, atualmente em tournée pela Europa ─ no momento está em Paris; Maria Ester Bueno e Dra. Nise da Silveira, também ausentes do País.

Jornal do Brasil, quarta-feira, 1 de maio de 1974

sábado, 26 de março de 2016

16.08.1990 - Inseminação ainda é polêmica

36/Quinta-feira, 16 de agosto de 1990


Inseminação ainda é polêmica

◙ Códigos penal e de ética médica
são omissos A infertilidade
causa problemas psicológicos e
a fecundação em laboratório é
uma opção, mas merece cuidados
Arquivo/ZH
Cada caso de inseminação artificial deve ser examinado detalhadamente e são inconvenientes as generalizações, defendeu, ontem, o geneticista Francisco Mauro Salzano, durante o painel "Justiça e Inseminação Artificial: a volta da questão ética", dentro do projeto Ciência às Seis e Meia, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os vários tipos de inseminação não estão previstos no código de ética médico e do código penal, lembrou.

"É preciso iniciar a discussão", defendeu. Entre as interrogações que começam a aflorar na classe médica, está a utilização em pesquisas dos embriões congelados que não forem usados para reimplantação no útero. A Igreja considera que o direito à vida ocorre no momento da fecundação ─ mesmo que ela aconteça in vitro ─ quando o esperma e o óvulo se encontram. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que esse direito está vinculado à existência independente, quando o embrião, já com forma de feto, pode ser retirado e sobreviver.

A questão é polêmica. Nos Estados Unidos a legislação considera antiéticas pesquisas em embriões que sobraram de uma paciente fecundada. Na Austrália, é comum e legal.

INFERTILIDADE ─ No Brasil, pesquisas apontam que existem 200 mil mulheres inférteis por terem as trompas doentes ou bloqueadas. "Isso causa problemas psicológicos e a fecundação in vitro é a mais adequada", disse Salazano. Porém, o médico trouxe à tona os questionamentos que podem ser gerados nos casos de inseminação nas mães substitutas e pais biológicos. O geneticista acha que deve ser discutida a seleção de doadores (evitando doenças e muitas diferenças físicas com o pai e mãe legais), e o anonimato deles. Salzano considera antiética a comercialização de espermas e óvulos, para resolver casos de infertilidade.

Zero Hora, quinta-feira, 16 de agosto de 1990

sexta-feira, 25 de março de 2016

15.05.1979 - EXCLUSIVO: O NOVO VOLKS.

O ESTADO DE S. PAULO ─ Terça-feira, 15-5-79                                                                     JORNAL DA TARDE ─ 3
CARROS

EXCLUSIVO: O NOVO VOLKS.

Alguns já admitem: é o carro que poderá "matar" o velho fusca, a médio prazo. Aproximadamente do tamanho da Brasília, como motor refrigerado a ar, tração dianteira, queimando álcool ou gasolina, e lembrando bastante um Passat: é assim o carro que a Volkswagen está preparando para lançar em 1980, cujos protótipos já estão em experiência não só na pista de testes da Fábrica 2, na Zona Leste, como em diversos pontos do País. Seu nome: Angra.

Durante um vôo de helicóptero o fotógrafo Oswaldo Luís Palermo conseguiu fotografar o carro rodando na pista de testes da Fábrica 2, na rua Vemag. Não foi possível, no entanto, fazer mais do que três fotos: avisado pelas sentinelas, o piloto do novo Volks levou o carro rapidamente para uma das garagens improvisadas na pista justamente para esses casos.

Já existem mais de dez protótipos do Angra em experiência, mas eles saem da fábrica dentro de caminhões fechados, e mesmo depois que desembarcam é praticamente impossível descobrir suas características: a maior parte do carro fica coberta com capas de lona. É assim que eles vêm sendo testados, por exemplo, em trechos de estrada no litoral Sul.

O Angra será um carro destinado a competir com o Chevette e o Fiat, e está sendo inteiramente desenvolvido no Brasil. Até agora, ainda se levanta a possibilidade de que a Volksvagen venha a produzir sem modelo "Pólo" para entrar nessa faixa de mercado, mas as fotos do Angra provam o contrário. Não é verdade, também, que após o lançamento desse carro a fábrica simplesmente suspenda a produção dos modelos do "besouro": de fato o Angra poderá substituí-los, mas a Volkswagen vai esperar que isso aconteça com naturalidade.

Há muitas semelhanças externas entre esse carro e o Passat, especialmente na frente e no interior, e o modelo definitivo vai ficar ainda mais parecido: o protótipo atual ainda está semelhante aos modelos anteriores do Passat, com lanternas embutidas nos pára-choques e faróis redondos; o definitivo deverá ter faróis quadrados e lanternas nas extremidades dos pára-lamas dianteiros.

A grade tem frisos largos, como os do Corcel II, e as ponteiras dos pára-choques são de plástico preto, em forma de barbatanas, como as do Passat deste ano; também o painel de instrumentos e o volante são praticamente iguais aos desse carro.

Do final das portas para trás, no entanto, desaparecem quase todas as semelhanças: há uma janela bastante grande, a ponto de evitar que a coluna traseira fique larga demais, dando ao motorista grande visibilidade; logo atrás da caixa da roda traseira direita, fica a tampa do tanque de combustível; e as saídas de ar do interior do automóvel ficarão, ainda como no Passat, embutidas nas portas.

Embora pequeno, o carro terá grande espaço para bagagens atrás, e o acesso ao bagageiro será feito através de uma terceira porta, dois terços da qual envidraçados. O espaço ficou maior ainda por causa da colocação do estepe no compartimento do motor, na frente, como no Fiat.

A traseira do Angra termina truncada em vertical, também como no Fiat 147, e ali estão duas grandes lanternas divididas em três partes, onde ficam as luzes de freio e pisca-pisca, a lanterna propriamente dita e os faróis de ré.

Embora pareça um contra-senso, a fábrica decidiu adotar para esse carro o motor de 1.300 cc refrigerado a ar. Já não é, contudo, o mesmo 1.300 usado até agora nos sedans: segundo se sabe, o motor foi muito aperfeiçoado, e só sua transferência para a frente, para receber refrigeração direta, já melhorou o desempenho.

Os engenheiros de desenvolvimento de produtos da fábrica, contudo, fizeram outras modificações, entre elas a remoção da ventoinha, que, além de ocupar bastante espaço, tirava cerca de 4 HP da potência total; a ventilação, quando o carro não estiver em movimento ou quando a temperatura passar do limite adequado, será feita provavelmente por um ventilador elétrico, que se ligará automaticamente ─ como no Passat, no Fiat ou no Corcel II.

Com as modificações, o motor 1.300 ganhará no mínimo 10 por cento a mais de potência, alcançando pelo menos 50 Hp ─ contra a potência atual de 46 Hp. Alguns problemas ainda precisam ser resolvidos, como o do nível de ruído interno, por exemplo, e, segundo se sabe, problemas desse tipo já estão provocando um atraso no projeto.

O tipo de motor, no entanto, já está definido. A decisão de adotar um motor já existente ─ embora aperfeiçoado ─ foi tomada levando-se em conta principalmente os custos e facilidade de manutenção. A Volksvagen estudou a instalação, no Angra, de um motor refrigerado a água, de quatro cilindros, da mesma família do motor do Passat, mas ele enfrentaria problemas de manutenção ─ o que a fábrica não quer que aconteça para um veículo que deverá ser produzido em grande escala.

Quando for colocado à venda, o Angra já deverá contar com duas versões desse motor: a gasolina e a álcool, já que em fins de 1981 deverá estar bastante ampliado o número de postos de abastecimento que fornecem álcool. Esse carro está integrado nos planos que a Volks tem para executar entre 1979 e 1984, lançando veículos com tração dianteira e traseira, com motores refrigerados a ar ou a água.

No caso do Angra, ele deverá ser produzido na fábrica de Taubaté, capaz de entregar até 450 unidades por dia a partir de setembro deste ano.
Paulo Brito

O Angra será lançado em 1980. Ele tem motor de 1.300cc e refrigerado a ar.

A FÁBRICA SE
PREPARA PARA O FIM
DO VELHO FUSCA

Em 1936, o primeiro modelo.
Em 1967, com motor 1.300cc.
Em 1974, o superfusca, com motor 1.600cc
Em 1979, mudou o retrovisor.


O sedan "besouro" da Volksvagen é, definitivamente, um produto que está com seu ciclo de vida no fim. Já deixou de ser produzido na Alemanha, na Nigéria; nem chegou a ser produzido na nova fábrica da Volks nos Estados Unidos; só é fabricado no México, no Brasil e na África do Sul. E no Brasil, o final do "besouro" está sendo abreviado.

Ele foi sem dúvida o carro mais adequado quando foi lançado no Brasil, com uma economia em desenvolvimento, e em março deste ano já contava com mais de dois milhões e meio de unidades produzidas aqui. Na verdade o Fusca foi um produto tão importante quanto o Ford-T: tem mais de 20 milhões de unidades vendidas no mundo todo.

O "besouro" nasceu em 1936, projetado por Ferdinand Porsche, um construtor de veículos que em todos os seus empregos tentava implantar a idéia de projetar um carro pequeno, econômico, barato, o carro do povo. E que sempre fracassava.

Somente em 1933, Porsche conseguiu apoio para sua idéia: o próprio governo alemão o convidou a construir um carro exatamente como ele queria, e que não custasse mais de mil marcos. Os três primeiros protótipos ficaram prontos em 12 de outubro de 1936, e durante os 70 dias seguintes rodaram cerca de 50 mil quilômetros cada um. Os protótipos suportaram o esforço, mas a Associação da Indústria Automobilística da Alemanha ainda não estava satisfeita: foram feitos mais 30 Volks na fábrica Daimler Benz, e em seguida mais 30, para serem testados por pilotos que tinham a ordem de tentar literalmente destruir o veículo durante o uso, e comportando-se como os mais medíocres dos motoristas.

Todas as unidades se saíram bem nos testes, rodando 80 mil quilômetros cada uma, e decidiu-se então iniciar a produção em série. Com a II Guerra, no entanto, a fábrica construída em Wolfsburg foi usada para produzir veículos militares (70 mil de 1940 a 1945) e depois serviu como oficina de reparos para veículos do exército inglês.

Na reconstrução da Alemanha, após a guerra, uma comissão de técnicos ingleses chegou à conclusão de que o "besouro" era um produto sem oportunidade no mercado, e que, portanto, não valia a pena produzi-lo. No entanto, o oficial inglês responsável pela fábrica havia se entusiasmado pelo carro e, embora sem recursos, iniciou uma lenta recuperação das máquinas e equipamentos; pouco depois, o coronel Radclyffe, responsável pelo setor industrial do governo militar inglês na Alemanha, convidou o engenheiro Heiz Nordhoff para dirigir a Volksvagen.

Ele chegou a Wolfsburg a 1º de janeiro de 1948 e instalou sua cama dentro da própria fábrica, decidido a transformá-la na maior da Europa. Nesse mesmo ano, foram produzidos 19.244 veículos. Quando Ferdinand Porsche, em 1949, já com 74 anos, saiu da Áustria para visitar a Alemanha, decidiu contar os Volksvagen que viu depois de cruzar a fronteira. Não conseguiu.

A produção anual continuou crescendo sempre, desde então, com o carro penetrando cada vez mais em novos mercados. Trinta anos depois do lançamento, contudo, o "besouro" já é um produto desgastado em muitos desses mercados. E começa, enfim, a ser substituído.

No Brasil, depois de mais de dois milhões e meio de unidades produzidas, o "besouro" já enfrenta um mercado que se sofisticou e que exige renovações. É o que a Volksvagen está fazendo, para não correr o risco de perder seus lucros nessa fatia do mercado.

LPS ELDORADO
UMA REVOLUÇÃO
NA MÚSICA
GRAVADA
NO BRASIL

Revendo com a flauta os
Bons Tempos do Chorinho
Carlos Poyares

Entusiasmado com a volta do choro, Carlos Poyares, flautista desde os 8 anos de idade, gravou este LP interpretando alguns dos chorinhos brasileiros mais bonitos, como o conhecido "Flor Amorosa" e o inédito "Choro Serenata" de Sivuca.
Também em cassete.

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O Estado de São Paulo, terça-feira, 15 de maio de 1979