terça-feira, 12 de abril de 2016

02.02.1983 - DOSSIÊ BAUMGARTEN

14 ◙ 1º caderno ◙ quarta-feira, 2/2/ 83           DOSSIÊ BAUMGARTEN                                  JORNAL DO BRASIL

Na carta, a promessa de não comprometer o SNI

Na carta ao General Medeiros, escrita duas semanas antes do dossiê, Alexandre von Baumgarten, ao expor a situação da revista O Cruzeiro e a sua, pessoal, garante: "Jamais procurei me munir de qualquer tipo de documento ou papel que vinculasse o SNI ao acordo que realizou comigo, mesmo porque considero que a palavra de qualquer oficial de nossas Forças Armadas tem mais valor do que qualquer coisa escrita".

No final explica: "Senhor Ministro: considero, sob todos os aspectos, lastimável ter que me dirigir a V. Excia nos termos em que o fiz. Creia, no entanto, que apenas o fiz após muita reflexão e por ter sido colocado em uma situação que não me deixou opções. Fui animado a fazer isso, confiando no seu alto espírito de justiça e na correção de propósitos que acredito ter animado a sua vida". E finaliza: "Minha esperança ao escrever esta carta é evitar o pior".

A carta

Eis a íntegra da carta:

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1981

Exmo. Sr.
General Octavio de Aguiar Medeiros
DD Ministro Chefe do Serviço Nacional de Informações
Brasília ─ DF

Senhor Ministro,

No correr do mes de julho de 1979 o signatario desta fez um acordo com o general Newton de Oliveira e Cruz no sentido de editar a revista O Cruzeiro. Segundo esse acordo a Agência Central do SNI, em uma primeira fase, se incumbiria de conseguir recursos da ordem de oitenta milhões em publicidade ou em espécie. Em uma etapa posterior trinta milhões de cruzeiros, em torno dos quais aliás foram mantidos entendimentos com o ex-ministro Said Farhat por representantes do chefe da AC do SNI que se fizeram acompanhar pelo signatario desta, isso em agosto de 1980. Com esses recursos a revista deveria se manter em circulação por um ano e publicar as matérias solicitadas pelo SNI.

O SNI não manteve o compromisso assumido, enquanto que esta Editora vem fazendo O Cruzeiro circular a 17 meses, publicando em todos os números matérias de interesse do Serviço Nacional de Informações. Em face disso o passivo da Editora anda hoje por volta da casa dos cem milhões de cruzeiros.

No correr do mês de novembro de 1980, por orientação de representantes do general Newton de Oliveira e Cruz, esta Editora fez uma carta a CAPEMI, com data do dia 12, endereçada ao general Adhemar Messias de Aragão propondo a entrega da firma, excluídos os títulos 7 Dias e A Cigarra, a aquela empresa pelo passivo. Uma outra carta da Editora, com data de 17 do mesmo mês, autorizava a CAPEMI a promover uma auditoria contábil, econômica e financeira dentro da Editora. Por solicitação do general Adhemar Messias de Aragão a Editora abriu mão do direito que tinha de indicar um auditor próprio para acompanhar esse trabalho. Ainda no correr da auditoria, por solicitação do presidente da CAPEMI, foi passada uma procuração de amplos poderes para dois funcionários da CAPEMI, lavrada no 9º Ofício de Notas do Rio de Janeiro, livro 2242, folhas 83. Após a lavratura das procurações a CAPEMI, independentemente de um contrato anterior de publicidade da ordem de 12 milhões de cruzeiros líquidos, assumiu compromissos da ordem de 7 milhões de cruzeiros para a compra de papel e impressão dos números 27 e 28 da revista.

Após a conclusão dos trabalhos de auditoria, cujo teor é ainda desconhecido dos diretores desta Editora, começaram a circular informações em diversos setores de que o negócio não mais seria feito por várias razões entre as quais, por improbidade administrativa dos diretores da empresa e notadamente do signatario desta.

Face a isso é que considerei importante escrever esta carta a V. Excia, e colocar alguns problemas como eles realmente ocorreram: Todos os entendimentos com o SNI sempre foram conduzidos de maneira leal, franca e muito correta, não tendo jamais ocorrido qualquer dúvida quanto a honestidade de propositos dos seus subordinados.

Jamais procurei me munir de qualquer tipo de documento ou papel que vinculasse o SNI ao acordo que realizou comigo, mesmo porque considero que a palavra de qualquer oficial das nossas Forças Armadas tem mais valor do que qualquer coisa escrita.

Conduzir sempre tora a coisa com a melhor boa fé, estando por isso, agora, eu e meus associados, Romeu Onaga e Cleo Garrafa, com os seus nomes e patrimonios irremediavelmente comprometidos com o empreendimento.

É forçoso reconhecer irregularidades administrativas na sucursal do Rio de Janeiro. Providencias, no entanto, não foram adotadas face a implicações que envolviam a geração de recursos para o capital de giro da empresa, conforme foi muito bem explicado aos representantes do SNI, tendo inclusive o Sr. Francisco Salles de Oliveira Júnior, contratado em nível de diretor pela Editora por indicação do SNI, tomado conhecimento de toda a documentação e do problema na sua mais ampla expressão. Todos à época, abril de 1980, concordam que as providencias deveriam aguardar que a empresa chegasse a uma situação economica equilibrada.

─ É também certo que durante sua gestão o Sr. Francisco Salles de Oliveira Junior sempre manteve o SNI informado da situação real da Editora através de documentos e ligações telefônicas quase que diárias.

Ainda que tivesse todo o direito jamais me beneficiei pessoalmente com qualquer coisa decorrente da circulação da revista. Muito pelo contrário. Não apenas comprometi todo o meu patrimonio e bom nome, como também investi todos os meus recursos no empreendimento. Não aceito e repudio, por tanto, qualquer tipo de insinuação sobre a minha honradez e correção de propositos. Fiz a revista porque acreditei estar prestando um serviço a Nação e sempre dei cobertura ao presidente João Figueiredo porque acredito na sua correção de propositos. Os 28 numeros da revista editados até agora comprovam isso muito bem.

Isto posto, senhor Ministro, é importante ressaltar, por outro lado, que as constantes protelações para a solução do problema vem inibindo a direção da Editora de tomar qualquer ação administrativa mais drástica. Para que V. Excia tenha uma ideia, é bom que saiba, que nesta data há pelo menos tres pedidos de falencia contra a Editora já ajuizados e cuja decretação, a cada dia que passa, fica cada vez mais difícil de adiar ou de sustar e o SNI e a CAPEMI estão informados disso.

A par disso tudo não há recursos para editar o nº 29 da revista. A não ocorrer uma injeção mínima de meios. O Cruzeiro não sairá mais e é certo que a Editora tera sua falência decretada, seus diretores desmoralizados e seus patrimônios liquidados.

Senhor Ministro considero, sob todos os aspectos, lastimavel ter que me dirigir a V. Excia nos termos em que fiz. Creia, no entanto, que apenas o fiz após muita reflexão e por ter sido colocado em uma situação que não me deixou opções. Fui animado a fazer isso confiando no seu alto espírito de justiça e na correção de propositos que acredito têm animado a sua vida. Minha esperança ao escrever esta certa é evitar o pior.

Agradecendo a atenção de V. Excia, fico na expectativa de um pronunciamento.

Atenciosamente,

Alexandre von Baumgarten

copias para: Gal. Newton de Oliveira e Cruz Gal. Adhemar Messias de Aragão Sr. Romeu Onaga Sr. Cleo Garrafa

Baumgarten teve o cuidado de anexar aos documentos todos os recibos dos Correios
Arquivo ─ 24.2.82
No carnaval passado, Medeiros ocupou um camarote para ver o desfile na Sapucaí

Autoridades questionam versões do desaparecimento

Carlos Rangel

Se há dúvida que é de Alexandre von Baumgarten o corpo que apareceu na Av Sernambetiba, perto do Restaurante Âncora, na Barra da Tijuca ─ a despeito do auto de exame cadavérico ─, a partir de ontem as autoridades encarregadas de investigar o assunto, desde a Polícia Naval até o IML questionavam todas as hipóteses de afogamento, assassinato e até o paradeiro da traineira Mirimi.

Na delegacia de polícia encarregada do inquérito sobre o que se convencionou chamar "o desaparecimento do jornalista", fazia-se até um exercício de imaginação, levantando-se hipóteses razoáveis de que não tivesse havido qualquer pescaria, e até uma simulação de sequestro por parte de Baumgarten. O difícil era explicar o paradeiro da mulher, Jeannete, e do barqueiro, Manuel Augusto Valente Pires.

Banco de dados

Na Capitania dos Portos, onde um oficial afastou a hipótese de assaltantes do mar, como acontece na zona portuária de Santos, lembrava-se o regime de ventos e dos mares da entrada da Baía de Guanabara, e um outro funcionário remetia o repórter para a Diretoria de Hidrografia e Navegação. Lá existe um banco de dados que dá até a natureza da corrente do mar na madrugada do dia 13 de outubro, uma quarta-feira, quando Baumgarten foi visto pela última vez, antes de se fazer ao mar.

O fato de que a Mirimi tenha desaparecido em definitivo, com as suas 11 bóias, a despeito da busca numa área superior a 60 milhas, há não surpreende ninguém. Um funcionário da Capitania, com experiência até de entrar na barra dentro de um submarino, disse que a traineira (com sete metros, de fibra de vidro) poderia ter ficado no fundo para sempre, na variada costa que vai desde a Barra até a ponta da restinga da Marambaia.

─ Mas quem garante que tenha sido esse o trajeto da traineira? ─ perguntou. E, de fato, não há qualquer pedido de socorro nem mesmo no serviço de rádio da Sudepe, que funciona na Praça Quinze, de onde a Mirimi teria saído, com Baumgarten e a mulher, depois que deixou o ancoradouro do Caju, lugar onde o pescador Manuel Augusto Valente Pires, o Português, guardava a embarcação.

Há indicações vagas de que a Mirimi, segundo um professor que dá aulas para mergulhadores na Urca, teria encostado nas imediações do Cassino na manhã em que desapareceu. Mas ele evitou fazer outras especulações quando se aproximou um funcionário da Capitania dos Portos.

Na Praça Quinze ─ quase quatro meses depois que a traineira sumiu ─ apenas dois homens que trabalham no mercado de peixes lembram de Manuel, o Português, que vinha apanhar passageiros para pescarias em determinados dias (todas as quartas-feiras, sempre ao amanhecer). Ele encostava num quadrado reservado a frágeis embarcações, perto de onde partem os aerobarcos para Niterói. Era uma entre as dezenas de traineiras que vão parar até em Macaé ou Cabo Frio, em um roteiro bem diferente daquele que se supõe ─ as ilhas Cagarras, o lugar favorito de Baumgarten.

O que se dizia ser intrigante, quanto ao paradeiro da Mirimi, não faz sentido: uma embarcação como aquela poderia afundar, para nunca mais voltar a tona, se o terreno fosse arenoso, lamacento ou formado por pedras, onde se encaixaria com o decorrer do tempo. Quando o terreno é arenoso no fundo do mar, também prende ou pode prender para sempre uma embarcação. Com a lama se fixa com mais firmeza.

Quanto ao corpo

Um corpo, que não tenha sido devorado de todo pelos peixes, é normal que venha dar à praia. Mesmo que tenha sido baleado e registrem-se outras perfurações deliberadas, para fazer escapar os gases, e assim evitar que o cadáver flutue.

E uma idéia romântica, disse um mergulhador, pensar que as ondas trazem tudo à praia. Se uma garrafa lançada do alto da Ponte Rio-Niterói leva tempo para chegar até o nível da barra, e possa até perder-se em águas paradas numa reentrância do Saco de São Francisco, ainda dentro da baia de Guanabara, o mesmo não acontece com uma pequena embarcação ─ do tipo da Mirimi ─ que busque retornar à barra, depois de alcançar a costa de Copacabana ou Ipanema.

─ Chegar até as Ilhas Cagarras não é tão simples assim ─ disse o fotógrafo Heinz Prellwitz, companheiro de Baumgarten nas pescarias e seu ex-funcionário na revista O Cruzeiro. "Ainda mais se o tempo está ruim, com uma cabeça dágua como aconteceu na quarta-feira, dia 13. Eu desisti da pescaria, mas teria impedido se tivesse pressentido (Heinz deixou um recado na secretária eletrônica cancelando).

O fotógrafo, que viajou ontem para o Nordeste, a serviço da empresa para a qual trabalha, disse que não é fácil, como alguns supõem, retornar à barra depois de se fazer ao alto mar. "É preciso conhecer o Sudeste ─ um vento chato e traiçoeiro à entrada da baia. Apavora a princípio, e é preciso deixar a embarcação entrar firme na correnteza".

'Na Capitania dos Portos, uma fonte disse, também, que na madrugada em que o Mirimi desapareceu, havia temporal e soprava a ventos Nordeste (com o Sudeste é mais fácil penetrar na baía). O barqueiro conhecia a rota, era pedreiro de profissão, mas tinha carteira de arrais amador, segundo informou sua mulher, Dona Cisaltina. Era um barco de recreio com registro na Capitania.

Casa onde Baumgarten diz ter
ficado estava alugada a empresa

Porto Alegre ─ Uma casa branca de janelas azuis, de material, simples, com um pequeno jardim na Rua Gravataí, 336, na Praia de Cassino, onde há cerca de seis meses o jornalista Alexandre von Baumgarten teria estado ─ segundo bilhete que deixou para o porteiro do seu edifício, no Rio ─ esteve alugada para a empresa Sultepa, de 6 de março a 10 de dezembro, para seus funcionários. Por ali, durante o ano de 1982, "passaram vários funcionários, numa rotatividade normal. Alguns ficavam dias ou meses, e depois saíam, por necessidade de trabalho", informou ontem um dos assessores da Sultepa de Rio Grande, Raul Ax.

Nesta mesma casa, durante esse mesmo período, explicou Raul Ax, também estiveram funcionários da Cehab e alguns da Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), empresa do Estado que controla as obras que a Sultepa ─ a maior empresa de construção de estradas do Estado ─ realiza em Rio Grande: um canal ligando Pelotas a Rio Grande. A casa pertencia ao médico aposentado Ozires Carvalho, que passou-a para a filha. Maria Tereza Carvalho Moraes, e o genro, também médico, Ernani Moraes. Na secretaria da Fazenda do Rio Grande, o registro de propriedade tem o nome do casal.

Ontem, o repórter Mairo Cavalheiro esteve na residência e uma mulher loira, Maria Teresa, abriu a janelinha da porta, não quis se identificar, mas garantiu não conhecer o jornalista assassinado, ao ver uma foto dele. Seu pai, o médico Ozires, contatado pelo JB, pelo telefone, em Rio Grande, afirmou ter lido a matéria da revista Veja, mas também disse não conhecer Alexandre von Baumgarten.

A Construtora Sultepa S.A, empresa gaúcha, atua no ramo da construção civil há 26 anos, dedicando-se basicamente à engenharia pesada, como construção de estradas, portos, pontes e obras de saneamento básico. No pólo petroquímico gaúcho é responsável pela infraestrutura da estação de tratamento de efluentes líquidos.

A empresa tem um capital de Cr$ 1,6 bilhão e seu último balanço registrou, no ano passado, um faturamento de Cr$ 5,5 bilhões. O diretor-presidente da Sultepa é José Portela Nunes e há ainda outros seus membros na diretoria: os vice-presidentes Dagoberto Silveira e Sérgio Lins e os diretores Valdemar Barreto, Marco Aurélio Azambuja, José Carlos Nunes e Astir Brasil Santos e Silva.

Pelo menos uma pessoa, na Praia de Cassino, garante se lembrar de Alexandre na praia. É o cabo PM Irioci Garcia, do posto da Polícia Militar de Cassino (a cerca de 25 km de Rio Grande). Ele normalmente ficava num açougue ao lado do conhecido Bar do Alemão: "Me lembro desse cara bebendo no Bar do Alemão", garante o cabo, há 14 anos lotado em Cassino. Seu colega, cabo PM Nei Acosta, há dois meses no lugar, tem a impressão vaga de conhecê-lo, na praia, antes de ser transferido para Cassino. É que o cabo Nei ia com freqüência a Cassino. O cabo Garcia acha que viu Alexandre no verão passado.

No Bar do Alemão, apenas um dos garçons, José Barbosa, se lembra "vagamente de ter visto esse cara da foto por aí, mas não me lembro de tê-lo servido aqui no bar".

Na Sultepa de Rio Grande, um dos assessores da direção, Raul Ax, disse que vários funcionários passaram pela casa. "A pedido do JB, ele perguntou a dois dos funcionários, que lá permaneceram alguns dias, se conheceram o jornalista, mas ninguém se lembrou dele. Raul Ax disse que a empresa não permitiu que pessoas estranhas fizessem uso da casa, no período do aluguel, de março a dezembro. Também acha difícil que algum funcionário convidasse um amigo para passar.

Jornal do Brasil, quarta-feira, 2 de fevereiro de 1983

segunda-feira, 11 de abril de 2016

19.03.1971 - Terrorista é condenado à morte em conselho baiano

Edição Nacional
JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro ─ Sexta-feira, 19 de março de 1971
Ano LXXX ─ N.º 293
Teodomiro dos Santos (em primeiro plano) foi condenado à morte; seu companheiro Paulo Pontes à prisão perpétua

Terrorista é condenado à morte em conselho baiano

Teodomiro Romeiro dos Santos, de 19 anos, foi ontem condenado à morte por um Conselho de Justiça Especial da Aeronáutica, que decidiu por unanimidade em Salvador, Bahia. Seu companheiro Paulo Pontes da Silva, de 26 anos, foi condenado, na mesma ocasião, à prisão perpétua.

Êles foram acusados de haver assassinado o agente secreto do CODI baiano Válder Xavier de Lima, em 27 de outubro do ano passado, quando surpreendidos num aparelho do PCBR, nas proximidades do dique de Itororó. Teodomiro foi o autor dos disparos e Paulo apenas assistiu à cena, sem alertar a vítima.

Teodomiro e Paulo foram defendidos pelo advogado de ofício da Auditoria de Salvador porque ─ segundo declarações de seus familiares ─ nenhum advogado baiano quis aceitar a causa. Seu defensor vai apelar ao Supremo Tribunal Militar. No julgamento ─ segundo reconheceu ─ fêz apenas "uma análise" do fato e do processo.

Ambos os acusados denunciaram terem sido maltratados na prisão. Teodomiro, contra o parecer do promotor, obteve permissão do Conselho de Justiça ─ nomeado pelo Ministro da Aeronáutica ─ para não assistir ao julgamento ─ preferindo aguardar o resultado na cela em que está prêso, na Penitenciária Lemos de Brito, em Salvador. (P. 7)

Jornal do Brasil, sexta-feira, 19 de março de 1971

domingo, 10 de abril de 2016

04.10.1992 - 111 mortos no maior massacre

O ESTADO DE S. PAULO
DOMINGO - 4 DE OUTUBRO DE 1992      Cidades               O ESTADO DE S. PAULO - 1
ELETRODOMÉSTICO
É NO  PONTO FRIO 
 LIGUE JÁ.
260-5000

111 mortos no maior massacre

◙ Rebelião na Casa de Detenção teve número recorde de vítimas
◙ Fleury justifica a ação da PM, que deixou 130 presos feridos
◙ O Pavilhão 9, local do motim, ficou totalmente destruído
◙ OAB forma comissão para acompanhar as investigações

Foi o maior massacre de presos da história do Brasil. A rebelião ocorrida sexta-feira na Casa de Detenção de São Paulo terminou com 111 detentos mortos e 130 feridos ─ 35 em estado grave. Iniciada logo após o almoço a partir de uma briga pelo poder entre duas quadrilhas do Pavilhão 9, a rebelião foi sufocada pela Polícia Militar, que entrou em confronto com os presos amotinados. De acordo com o comando da PM, os policiais foram recebidos a bala pelos detentos. O conflito durou meia hora, num ambiente escuro (a energia tinha sido cortada) e 32 policiais ficaram feridos. Mas a tensão continuou. À noite a tropa de choque voltou a entrar no presídio. Guardas penitenciários e parentes disseram ter ouvido tiros. A situação só foi totalmente controlada às 4 horas de ontem. O quadro encontrado pelos guardas penitenciários foi o de dezenas de corpos espalhados, presos gritando por socorro, muitos feridos na cabeça, nas costas ou no peito, canos arrebentados, água por todos os lados, fogo nos corredores e nas celas. Segundo o comando da PM, havia um preso carbonizado, alguns degolados e vários mortos a facadas, a pauladas e a tiros. Os corpos foram distribuídos por vários locais. O nervosismo tomou conta dos policiais. Nenhum dado oficial era transmitido, embora desde a madrugada circulassem informações dando conta de mais de cem mortos. Pela manhã, duas irmãs da Pastoral Carcerária, Isabel Oliveira e Maria Emília Gomes Ferreira, saíram do presídio informando que a polícia tinha acabado de descobrir 13 corpos e que alguns estavam com as mãos para trás, metralhados. O número oficial só foi divulgado pelo secretário de Segurança, Pedro Franco de Campos, pouco antes das 17 horas, negando que a escolha do horário tivesse relação com o encerramento da votação. Antes ele havia almoçado no QG da PM. Massacre? "Usar a palavra massacre é prejulgar um fato que ainda está sendo apurado", disse o secretário, acrescentando que a ação policial visava impedir uma fuga em massa do presídio. Ele afirmou que foram abertos dois inquéritos: um sobre a rebelião e um Inquérito Policial Militar para apurar se houve excessos por parte da polícia. O governador Luiz Antônio Fleury Filho justificou a invasão. "Na verdade o que havia lá dentro era um confronto de quadrilhas muito bem armadas", disse. "Se a ação foi correta ou se houve excessos, isso será devidamente apurado." A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) constituiu uma comissão para acompanhar as investigações. A Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos quer que o Estado responda na Justiça pelas mortes.

Tensão
O aposentado Joaquim M. da Silva luta com cachorro da PM em frente à Detenção: ataque e reação

Centro de conflitos

Av. Cruzeiro do Sul
Entrada da Casa de Detenção. Aqui se concentraram ontem durante todo o dia os parentes de detentos, à espera de informações sobre quem estava vivo. Várias vezes os PMs que faziam o cordão de isolamento atiçaram cães contra as pessoas.

Pavilhão 9
Local do conflito e das mortes. Aqui havia 2.500 detentos, na maioria presos pela primeira vez e com idade entre 18 e 23 anos, presos por roubo, tráfico de drogas ou estelionato. Por ser o pavilhão que concentra os mais jovens, é o que mais dá trabalho no presídio.

Rua Antonio dos Santos Neto
Subindo no muro de uma oficina, uma mulher gritou o nome de seu marido para os presos do Pavilhão 9, ontem de manhã. Os detentos que estavam nas janelas repetiram o nome para os de dentro, até ficarem sabendo se o preso estava bem ou não. Então repassaram a informação para a mulher. A operação foi repetida dezenas de vezes, cada vez com o nome de um preso.

Prédio tinha barricadas, móveis
em chamas e celas às escuras

MARCELO FARIA DE BARROS          

Ao invadirem às 15 horas de sexta-feira o Pavilhão 9 da Casa de Detenção, por autorização de três juízes da Vara dos Presídios, os 340 policiais militares encontraram o prédio preparado para uma luta. Havia barricadas feitas com grades, detentos armados e corredores entulhados de movéis, cobertores e colchões em chamas.

O Corpo de Bombeiros foi chamado para apagar os pontos de incêndio do pavilhão, àquela hora já às escuras ─ a energia havia sido cortada ─ e dominado pela fumaça. Os bombeiros usaram maçaricos para abrir as grades fechadas a cadeado pelos detentos.

Com a entrada dos policiais, houve tiros e muita correria pelos corredores. Alguns presos entrincheiram-se no telhado, casa de máquinas, banheiros e celas escuras. Eles explodiram botijões de gás para retardar a ação da tropa de choque.

O conflito demorou cerca de meia hora. Ao final, 32 policiais militares estavam feridos a bala, golpes de estiletes, explosões de botijões de gás e pauladas. Numa explosão, o coronel Ubiratan Guimarães, comandante do policiamento metropolitano, teve os tímpanos afetados e chegou a desmaiar. Do outro lado do conflito, mais de uma centena de mortos. Segundo o coronel Hermes Bittencourt Cruz, chefe do Estado Maior do Comando de Policiamento Metropolitano, havia um preso carbonizado, alguns degolados e vários mortos a facadas, pauladas e tiros. A PM informou que foram recolhidos dos presos 165 estiletes, 25 canos de ferro e 13 armas de fogo, entre revólveres e pistolas automáticas.

Um bilhete recebido ontem por parentes de presos, no entanto, nega que os detentos possuíssem armas de fogo. O bilhete é assinado por Nego Cão, que se declara membro de uma comissão de presos. "Nós confirmamos que em nosso poder não tem arma de fogo e sim temos muitos estiletes", diz Nego Cão no bilhete. Segundo ele, na confusão os PMs atiraram em si mesmos, "revoltados ao verem os companheiros deles feridos".

Os presos da Casa de Detenção há muito planejavam uma fuga em massa, segundo o coronel Cruz. Uma briga, anteontem, entre Luiz Tavares de Azevedo e Antônio Luiz do Nascimento, líderes de quadrilhas que controlavam o tráfico de drogas no Pavilhão 9, precipitou a revolta. A briga entre os chefes de quadrilha que gerou a rebelião teria sido provocada por uma disputa por 2 quilos de cocaína e 2 de maconha. "Depois que Azevedo agrediu Nascimento a pauladas, os integrantes das duas quadrilhas rivais começaram a brigar entre si e o conflito ficou descontrolado", conta o oficial.
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Mais informações na página 2

ELEIÇÕES.

Votação no País é marcada pela tranqüilidade

Depois da agitação das manifestações pró-impeachment, as eleições transcorreram com tranqüilidade nas principais cidades do País. Com os trabalhos de boca-de-urna, as ruas ficaram cobertas de folhetos de propaganda de candidatos e deixaram a difícil tarefa de remover as toneladas de lixo extra depois da festa. As ocorrências policiais decorrentes da votação foram poucas. Na maior parte das capitais, os eleitores preferiram votar cedo para aproveitar o resto do dia.

Em São Paulo, ontem, o clima era de preguiça e feriado. A não ser pela agitação da boca-de-urna, o paulistano queria mesmo aproveitar o bom tempo e relaxar. "Ter de sair do Ibirapuera para votar tem gosto de limão", disse a estudante de Direito Marina Castro. Passado o impeachment, o assunto do sábado era dó eleição para a maioria. Mas alguns, como o eletricitário Luiz Roberto Rodrigues, ainda protestavam. Ele usava a camiseta com os dizeres "O verde-amarelo é nosso e não delle", repudiando Collor. "Votar tem sabor de vitória", disse.

O funcionamento do comércio era facultativo na Capital e a maior parte das lojas ficou fechada. Não houve problemas de trânsito nos principais corredores de tráfego da cidade. Mas a concentração de grupos de cabos eleitorais na Avenida Paulista provocou lentidão no sentido Paraíso─Consolação, desde a Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

A Zona Sul do Rio foi um dos pontos mais tranqüilos da cidade, que ficou bastante suja com os folhetos espalhados pela boca de urna. Muitos eleitores preferiram votar cedo e ir à praia ou passear na orla marítima. O trânsito ficou engarrafado nas principais avenidas de Copacabana, Leblon, e Lagoa, porque as ruas próximas à orla foram interditadas para áreas de lazer. Somente em São Conrado foi registrado um início de tumulto. Os eleitores não conseguiram se organizar e a PM teve de ordenar as filas de votação.

A prefeitura de Porto Alegre autorizou os ônibus municipais a funcionar no esquema de passe livre, ontem, para evitar o transporte irregular de eleitores. A calmaria da capital gaúcha não se repetiu no interior do Estado, onde houve muitas prisões e queixas de candidatos. Só em Ronda Alta, a 360 quilômetros de Porto Alegre, houve 15 ocorrências policiais.

O mecânico Sílvio Selmo Parreira de Moura, 30 anos, foi atingido com um tiro na testa de manhã pelo comerciante Benedito Ribeiro do Socorro, após uma discussão política na cidade de Bonfim, a 88 quilômetros de Belo Horizonte. Moura foi internado em estado grave.

No Recife, o clima também era calmo. Até as 13 horas, apenas duas pessoas tinham sido presas e liberadas em seguida. Anteontem à noite, quatro militantes da coligação PL-PMDB foram presos em Vitória de Santo Antão, por crime de tentativa de compra de voto, ao distribuir leite em pó e colchões para eleitores.
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 Mais informações na página 2

Muito papel
Lixo extra: o trabalho de boca de urna deixou as ruas cobertas
por toneladas de folhetos com a propaganda dos candidatos

O Estado de São Paulo, domingo, 4 de outubro de 1992

sábado, 9 de abril de 2016

12.09.1973 - Suicídio de Allende?

JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro ─ Quarta-feira, 12 de setembro de 1973                                                               Ano LXXXIII ─ N.º 157
Hoje tem "Caderno de Automóveis

O Presidente Salvador Allende, do Chile, suicidou-se ontem com um tiro na boca no Palácio de La Monéda, segundo dois repórteres do jornal "El Mercurio", que entraram no Palácio e viram o corpo reclinado num sofá, no meio de uma poça de sangue. O Palácio fora submetido a intenso bombardeio de aviões e tanques durante mais de quatro horas.

As autoridades se recusaram a confirmar ou desmentir a morte do Presidente, prometendo para hoje um comunicado sobre o destino de Allende. Segundo um dos jornalistas de "El Mercurio", Allende, antes de morrer, disse a dois dos seus mais próximos colaboradores, Orlando Letelier e José Toha: "Estas são as últimas palavras que vocês ouvirão de mim. Confiem em seus dirigentes. Continuem a confiar no povo".

O corpo de Allende teria sido retirado do Palácio às 19h 30m e levado para local ignorado. A Junta Militar que o depôs anunciou logo depois ter o país sob controle e prometeu devolver a nação à normalidade. Foi decretado o estado de sítio e o toque de recolher.

O movimento militar começou de manhã, em Valparaíso, principal porto chileno, onde unidades de fuzileiros navais ocuparam a estação de rádio e os pontos-chave da cidade. Logo depois, em Santiago, o General Augusto Pinochet, Ministro da Defesa, o Brigadeiro Gustavo Leigh Guzman, da Aeronáutica, o Almirante José Toribo Medina, da Marinha, e o General César Mendonça, do Corpo de Carabineiros, constituíam uma Junta Militar e exigiam a renúncia de Allende.

A resistência ao movimento, em Santiago, concentrou-se no Palácio de La Moneda e outros pontos do centro da capital, onde franco-atiradores fustigaram até o fim da tarde as tropas que atacavam a sede do Governo.

Em seu primeiro comunicado, os membros da Junta exigiram de Allende a entrega do cargo e sua retirada do Palácio, dizendo-se unidos "na histórica missão de libertar a nossa pátria do jugo marxista". Asseguraram aos trabalhadores a manutenção das "conquistas econômicas e sociais".

Allende foi visto pela última vez em público às 9 horas da manhã, quando de uma das sacadas do Palácio acenou a um pequeno grupo de pessoas. Meia hora depois, sua voz era ouvida pelo rádio: "Um grupo de militares sediciosos levantou-se contra o Governo na cidade de Valparaíso, violando as leis e a Constituição. Confio em que as Forças Armadas saberão esmagar a rebelião".

Poucos minutos depois, iniciou-se o bombardeio aéreo ao Palácio e à casa de Allende no bairro El Alto, que foi mais tarde saqueada pelos seus adversários políticos.

Imensas colunas de fumaça cobriram então o Palácio, totalmente cercado por tanques, jipes armados com metralhadoras e outros veículos militares. O ataque foi suspenso por volta do meio-dia, quando se renovou o ultimato. Com as mãos para cima, alguns funcionários civis saíram, mas o Presidente e seus colaboradores mais próximos permaneceram no Palácio.

A Junta Militar justificou o levante: Pôr fim à "gravíssima crise econômica, moral e social do Chile", devido à incapacidade do Governo de conter o caos, o crescimento de grupos armados e organizados por Partidos da coalizão governamental, e ter fortalecido a luta de classes, "uma luta fratricida alheia à nossa formação".

Nos últimos meses, a economia chilena ficou praticamente paralisada, em consequência de uma sucessão de greves, tanto no setor de produção como de comércio, de uma inflação sem controle e que pode chegar a 400% este ano. Sem crédito no exterior, as importações caíram a níveis insignificantes, causando escassez de combustíveis e até mesmo de alimentos.

O enviado especial do JORNAL DO BRASIL, Humberto Vasconcelos assistiu em Santiago aos últimos momentos do Governo Allende e destacou que os esquerdistas foram tomados de surpresa com a ação militar, que pôs fim a 41 anos de normalidade constitucional no Chile. Em 1932, o Presidente Juan Esteban Montero foi obrigado a renunciar sob pressão das Forças Armadas. Salvador Allende Gossens, de 65 anos, casado, pai de 3 filhas, permaneceu no Poder dois anos, dez meses e sete dias. (Págs. 2, 3, 4, 5, 7. Coluna do Castello. Caderno B e editorial na página 6)

Jornal do Brasil, quarta-feira, 12 de setembro de 1973

sexta-feira, 8 de abril de 2016

29.09.1984 - DRUMMOND CIAO

JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro ─ Sábado, 29 de setembro de 1984
caderno B

DRUMMOND
CIAO

HÁ 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal moderníssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

─ Sobre que pretende escrever?

─ Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento desse contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao ─ adeus sem melancolia mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de onze presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um, bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a 2ª Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal da poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um e que são certamente as melhores. Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa, não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem esta vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a fez o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico, etc, mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou o comentário precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto-de-vista não ortodoxo e não trivial, e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido no anos A.C. de 1920 ? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas, ter aliviado a amargura de mão que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: "É pra você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História." Ele sabe que não passarão. E daí ? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem-feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional.

A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ─ o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e este JORNAL DO BRASIL, por seu conceito humanístico da função da imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro, e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é a sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Cede espaço aos mais novos e vai cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

Jornal do Brasil, sábado, 29 de setembro de 1984

quinta-feira, 7 de abril de 2016

20.06.1996 - Polícia prende serial killer

PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 20 DE JUNHO DE 1996                              ZERO HORA
MUNDO
46
Imagem compartilhada por: Lucy Schmitt
www.oaprendizverde.com.br
EUA
Polícia prende serial killer
Criminoso de Nova York pode ter atacado também na Califórnia
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Nova York


Depois de três horas de tiroteio, a polícia de Nova York conseguiu prender Heriberto Seda, 26 anos, suspeito de ser o "assassino do zodíaco", matador que espalhou pânico na cidade em 1990. O criminoso estava entrincheirado no seu apartamento no Brooklyn, em companhia da irmã, que foi ferida. No local, os policiais encontraram armamentos e evidências que ligam Seda ao serial killer (assassino em série).

As impressões digitais de Seda coincidem com as que foram descobertas há seis anos nos locais dos crimes cometidos pelo assassino do zodíaco e com as encontradas numa carta enviada ao New York Post. No apartamento havia também bombas e fuzis de fabricação caseira semelhantes aos usados pelo famoso homicida.

O zodiac killer começou a atuar em 8 de março de 1990, quando tentou matar quatro pessoas — dos signos de Escorpião, Gêmeos, Touro e Câncer. A próxima seria de Leão. Apenas uma, Joseph Proce (Touro), morador do Brooklyn de 78 anos, morreu. Nas cartas enviadas pelo criminoso à polícia, ele prometia assassinar 12 pessoas, uma para cada signo zodiacal.

♦♦♦♦
O assassino mandava
cartas para a polícia e
prometia matar 12
pessoas, uma para
cada signo do zodíaco
───

Uma das vítimas sobreviventes lembrou que antes de disparar o homem perguntou sua data de nascimento. Os investigadores dos assassinatos e tentativas de homicídio estavam intrigados exatamente com o método usado pelo matador para saber os signos das vítimas. Os policiais chegaram a procurar a ajuda de astrólogos, astrônomos e outros estudiosos. O assassino sempre deixava junto aos corpos mensagens cifradas e sarcásticas, contendo referências à mitologia clássica, constelações e signos.

As ações do criminoso disseminaram o terror entre os nova-iorquinos, aconselhados pelo chefe de investigadores, Joseph Borelli, a não comentarem suas datas de nascimento com estranhos. O então prefeito de Nova York, David Dinkins, ofereceu uma recompensa de US$ 10 mil para quem fornecesse informações sobre o assassino.

A polícia considerou a hipótese de o criminoso ser o mesmo que aterrorizou San Francisco, Califórnia, de 1966 a 1974, e garantiu ter assassinado quase 40 pessoas. Pelo menos seis vítimas fatais deste atirador foram confirmadas pelas autoridades. O caso nunca foi solucionado. Em 1994, o matador de Nova York escreveu uma carta ao New York Post, assumindo mais dois homicídios.

Zero Hora, quinta-feira, 20 de junho de 1996

quarta-feira, 6 de abril de 2016

28.02.1960 - Fernanda é rainha


Fernanda é rainha


RIO ─ Fernanda Montenegro, integrante do Teatro dos Sete, foi eleita Rainha das Atrizes de 1959 por 181 votos assinados por senadores, deputados, vereadores, artistas de teatro e pessoas de destaque na sociedade carioca. A nova rainha foi coroada pelo Prefeito Sá Freire Alvim no baile oferecido em sua honra no Teatro João Caetano.

Embaixadas no hotel

RIO ─ Cinquenta representantes de missões diplomáticas credenciadas junto ao Govêrno brasileiro se reuníram no Itamarati a fim de tratar dos planos de transferência das embaixadas e legações para Brasília. Ficou acertado que cada representação fará comunicação do número de funcionários que se mudarão até o dia 21 de abril, para que a Novacap possa providenciar sua acomodação no Brasília Palace Hotel, até que os prédios das suas respectivas embaixadas sejam construídos.

Quanto à participação dos diplomatas estrangeiros na festa da mudança, ficou acertado que o Itamarati enviará a cada embaixada um convite indicando o número de pessoas que poderão comparecer.

Viagem pré-inaugural

RIO ─ O Boeing 707-727 da Braniff Airways estêve no Rio e em São Paulo, trazendo mais de sessenta convidados, representante dos círculos financeiro, industrial e jornalístico dos EUA. O avião chegou ao Aeroporto do Galeão vindo diretamente de Lima em 4 horas e 28 minutos. Houve uma demora de meia hora devido ao fato de o aparelho ter-se desviado da rota para sobrevoar Brasília. Os integrantes da caravana foram recebidos por JK em Petrópolis.

O Boeing 707, que dia 18 partiu para Buenos Aires, está em viagem de demonstração pela América Latina e deverá ser brevemente utilizado regularmente pela Braniff nos seus vôos intercontinentais. Sua velocidade é de 1.017 km por hora, e sua capacidade é de 112 passageiros, 38 de primeira classe e 74 de classe turista.

A 1.018 km/h o Boeing fez Lima─Rio em 4 h e 28 min, passando por Brasília

Polícia se entrosa

RIO ─ Sob a presidência do Coronel Jacques Júnior, chefe do Departamento Federal de Segurança Pública, realizou-se no Ministério da Justiça a Conferência Nacional de Polícia. Foi aprovada a criação da Polícia Interestadual (Polinter), com o fim de promover o entrosamento e maior aproximação entre as polícias dos Estados, tornando assim mais efetivo o combate aos criminosos.

Avião de Botucatu

SÃO PAULO ─ Encomendados pelo Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento da Aeronáutica, de São José dos Campos, foi construído em Botucatu (SP), pela Sociedade Aeronáutica Neiva, um avião cuja função é a de servir como elemento de ligação durante operações conjuntas do Exército e da Marinha.

Trata-se de um aparelho monoplano de asa alta, equipado com motor Lyconing de 150 H.P., podendo transportar duas pessoas. Com capacidade para 400 quilos de carga útil, é equipado para vôos noturnos e a sua futura versão civil será destinada ao combate às pragas da lavoura.

Banco do Livro

RIO ─ Com o fim de angariar livros didáticos para distribuição aos estudantes pobres, p vespertino carioca Tribuna da Imprensa está promovendo a organização de um Banco do Livro. A iniciativa conta com o apoio do Ministério da Educação, do Departamento da Educação da Prefeitura, da Universidade do Brasil, do Instituto Nacional do Livro e de organização estudantis e eclesiásticas.

Em Niterói, as sedes das entidades estudantis funcionam como postos coletores de livros. O Govêrno do Estado do Rio, através da Secretaria da Educação, também presta colaboração. Quando se iniciar o ano letivo, uma comissão percorrerá as escolas e as faculdades (fluminenses e cariocas) para distribuir os livros.

Estrada na Bahia:
Foi entregue ao tráfego no dia 7 do corrente a rodovia Salvador─Feira de Santana (BR-28) de 108 km. Sua construção desenvolveu-se em ritmo acelerado, chegando a atingir uma média diária de 1.275 m. Dentro em breve, será inaugurada oficialmente pelo Presidente da República.

Revista Visão, domingo, 28 de fevereiro de 1960