terça-feira, 19 de abril de 2016

08.12.1989 - A banda Maria Angélica, no Dama Xoc.


A banda Maria Angélica, no Dama Xoc.


O grupo Maria Angélica (Não Mora Mais Aqui) é atração de hoje no Dama Xoc. A banda (foto) apresentará as composições de segundo LP, ainda sem título, a ser lançado em agosto próximo, como "A Song is Born"; "An affair to Forget"; "Viridiana", "Flash" e outras. O programa também inclui músicas do primeiro LP, Outsider, como Another Life, Shyness e Dog's Life.

Apesar de ter gravado seu primeiro disco em janeiro último, Maria Angélica já tem quatro anos de estrada. A maioria das letras do grupo é em inglês. Suas melodias caracterizam-se pelo som acoeso, rápido e algumas vezes até furioso, resultante de influências variadas, que vão do The Byrds a Buzzocks. A banda é formada por Vitor Leite (bateria), Vitor Bock (guitarra), Lu Stopa (baixo), Carlos Nishimyia (guitarra) e Fernando Naporano (vocais).


Às 24h. Ingressos: NCz$ 8,00. Dama Xoc ─ R. Butantã, 100, tels. 211-2725 e 815-7476.

O Estado de São Paulo, 8 de dezembro de 1989

segunda-feira, 18 de abril de 2016

04.01.1993 - CEEE adere a programa estadual de produtividade


CEEE adere a programa
estadual de produtividade

por Lilian Bem David
de Porto Alegre

A maior estatal gaúcha, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) finalmente foi incluída oficialmente no Programa de Qualidade e Produtividade do governo do estado, em parceria com a iniciativa privada, instalado em novembro de 1992. Somente na última quinta-feira a concessionária passou a ter um compromisso obrigatório para com o programa, através de um termo de adesão assinado pela secretária de Energias, Minas e Comunicações, Dilma Rousseff.

Entre as metas a serem atingidas pela CEEE, por exemplo, está a redução do tempo médio de atendimento às reclamações de consumidores, de 2h10 para 1h40, chegando à mesma performance hoje alcançada pela concessionária de energia do Paraná, a Copel. O programa incluirá auditorias aos projetos de qualidade das principais estatais gaúchas, com base nas normas da ISO-9000, informou Dilma.

Gazeta Mercantil, segunda-feira, 4 de janeiro de 1993

domingo, 17 de abril de 2016

19.11.1999 - Gigante P-36 chega para operar Roncador


Gigante P-36 chega para operar Roncador
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MAIR PENA NETO

Após 20 dias de viagem, a plataforma P-36, a maior semi-submersível do mundo, chega hoje ao Rio para colocar em operação o Campo de Roncador em março de 2000, pouco mais de três anos depois de sua descoberta. Roncador garantiu à Petrobras o recorde mundial de exploração e produção em águas profundas, a partir de um poço piloto que já produz a 1.853 metros.

Campo mais ao norte da província petrolífera de Campos, Roncador foi descoberto em outubro de 1996, em águas ultraprofundas — 1.500 a 2.000 metros —, a leste do Frade e a nordeste de Albacora. Com reservas de 3 bilhões de barris de óleo equivalente, estará produzindo 100 mil barris diários até o fim de 2000 e 180 mil barris/dia em 2001.

O desenvolvimento de Roncador se dará em três fases. Na primeira, a cargo da P-36, serão desenvolvidas as áreas norte e leste, bombeando óleo de 31° API, por meio de 21 poços. O investimento previsto é de US$ 2 bilhões, que a Petrobras está buscando em project finance. A segunda fase, cujos estudos de viabilidade deverão estar concluídos em meados do ano que vem, destina-se à produção da área sudoeste do campo, em águas de 1.500 a 1.850 metros. A terceira fase, ainda sem prazo definido, desenvolverá as áreas mais profundas a sudeste do campo, que chegam a 2.000 metros.

Grande porte — A história da P-36 começou há nove anos, em Gênova, na Itália. O estaleiro Fincantieri começou a construí-la por encomenda da empresa britânica Midland Scottish Resource (MSR). A plataforma, projetada para perfuração e produção de 100 mil barris/dia, foi concluída em 1994 e entregue em março de 1995. Por uma mudança em sua política, a Msr decidiu vendê-la e a Petrobras quis comprá-la para operar no campo de Marlin Sul. Após dois anos de negociação, a Petrobras assumiu a Spirit of Columbus, como era batizada, mas resolveu destiná-la para Roncador, cuja qualidade de óleo e potencial de produção exigiam plataforma de maior porte.

Em 1997, a plataforma saiu de Palermo para Quebec, no Canadá, onde foi transformada exclusivamente em unidade de produção, com capacidade elevada para 180 mil barris/dia e condições para operar a 1.400m de profundidade. A adaptação às condições de Roncador exigiu corte de mais de 2,5 toneladas da estrutura original e o acréscimo de 5,5 toneladas de no-vos equipamentos.

Durante as transformações, o estaleiro Davie, contratado pela Marítima, vencedora da licitação da plataforma, entrou em concordata, retardando financiamento de órgãos canadenses. A Petrobras assumiu a responsabilidade pelos contratos e fez um empréstimo-ponte. 

Jornal do Brasil, sexta-feira, 19 de novembro de 1999

sábado, 16 de abril de 2016

19.11.1999 - Oleoduto é vitória de Washington


Oleoduto é vitória de Washington

INSTAMBUL — Os Estados Unidos obtiveram importante vitória diplomática com a assinatura, ontem em Istambul, de acordo para a construção de um oleoduto de 1.730 quilômetros e orçado em US$ 2,4 bilhões, que sem atravessar território russo ou iraniano levará petróleo da capital do Azerbaijão, Baku, no Mar Cáspio, ao porto mediterrâneo de Ceyhan, na Turquia — país-membro da Otan — rumo aos mercados ocidentais. A construção deve começar no início de 2001 e terminar em 2004.

"Este oleoduto dará segurança ao mundo inteiro, porque garantirá o transporte de reservas de energia por múltiplas rotas, em vez de um gargalo único", disse o presidente americano Bill Clinton, depois que os presidentes da Turquia, do Azerbaijão e da Geórgia assinaram o acordo num palácio da era otomana às margens do Estreito de Bósforo, em evento paralelo à cúpula da OSCE. Os três, mais Turcomênia, ainda firmaram protocolo de intenção de construção de um gasoduto.

Alívio — Para os Estados Unidos, maior importador de petróleo do mundo — o que os obriga a ginásticas inclusive militares para garantir seus suprimentos no Golfo Pérsico —, é um alívio não depender da "instável" Rússia ou do "potencialmente hostil" Irã para ter acesso aos ricos campos de óleo do Mar Cáspio. Além disso, esperam os EUA, quando o oleoduto estiver em operação acenderá um alerta vermelho na sede da poderosa Opep, cujos xeques anteontem mesmo anunciavam calmamente que devido ao frio a produção de petróleo deve cair aos índices de 1996, o que elevará ainda mais o preço do barril.

Mas a grande derrotada pelo acordo é mesmo a Rússia, que na era soviética controlava sozinha o petróleo do Cáspio — reforço estratégico de suas reservas na Sibéria. Ultimamente Moscou negociava mudança no traçado do oleoduto que já mantém em parceria com o Azerbaijão, o Baku-Novorossiisk, que transporta petróleo bruto até o porto russo de Novorossiisk, no Mar Negro, e de lá para o Ocidente.

Chechênia — Mas o duto atravessa a rebelde Chechênia, e o abastecimento é precário. A Rússia queria então construir uma variante que contornasse, pela Geórgia, a república separatista "Tarde demais", disse Natik Aliyev, presidente da petrolífera azerbaijana, Socar. "O tremia partiu. Deveriam ter pensado nisto há dois anos e meio."

O presidente georgiano, Eduard Shevardnadze, disse que o acordo estabelece cooperação entre "parceiros confiáveis" na região do Cáspio. Chanceler da antiga União Soviética na era Gorbachev, Shevardnadze não quer Moscou nesta lista. Além do interesse em trocar óleo pelas moedas fortes ocidentais, o sentimento anti-Rússia é tão forte que as repúblicas caucasianas preferem afrouxar os laços com Moscou e cair nos braços dos Estados Unidos. Shevardnadze inclusive quer ver a Geórgia na Otan.

Mapa — "Moscou vai considerar Baku-Ceyhan parte dos planos dos EUA de expulsar os russos do Cáucaso", previu Bulent Aliriza, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Washington. O assessor para Segurança Nacional de Clinton, Sandy Berger, disse que o oleoduto não está "de jeito nenhum" direcionado contra Moscou. O novo mapa dos dutos, porém, mostra que a antiga área de influência soviética mudou de mãos.

Há contudo obstáculos a superar até que o oleoduto funcione. O maior é sua própria viabilidade econômica, possível com a produção anual de 50 milhões de toneladas, ou 1 milhão de barris diários. O Azerbaijão produz hoje um décimo disso: 100 mil barris. A Arábia Saudita sozinha bombeia 8 milhões de barris/dia, e o Brasil produziu em setembro 1,126 milhão/dia.

Briga — Especialistas afirmam também que a infra-estrutura necessária ao oleoduto demandará bilhões de dólares — a Turquia se compromete a cobrir tudo que ultrapassar os US$ 2,4 bilhões. Mas agora é que vai começar a briga de foice entre governos e companhias de petróleo em torno do financiamento do projeto.

Veteranos nesta luta, funcionários da British Petroleum-Amoco, que opera nos campos do Cáspio, já começaram a dizer que provavelmente estão erradas as estimativas que davam as reservas da região como as maiores do mundo. Israfil Mamedova, executivo da Socar, desdenhou: "Assim que os investimentos começarem a produção vai crescer." 

Jornal do Brasil, sexta-feira, 19 de novembro de 1999

sexta-feira, 15 de abril de 2016

01.11.1985 - Cartas

JORNAL DO BRASIL
10 ◙ 1º caderno ◙ sexta-feira, 1º/11/85

Cartas

Bolívia

Quero referir-me ao artigo Inflação de 24.400% ao ano e corrupção Inviabilizam a Bolívia, de Ruth Aquino, publicado no dia 26/10/85, nesse jornal. Sobre o assunto, permito-me enviar-lhe meus comentários, porque, como boliviana, preocupa-me a imagem de meu país no exterior, e artigos desse tipo em nada ajudam a melhorá-la. De um modo geral a análise contida no artigo em pauta apresenta uma realidade, ainda que também contém informação distorcida e não contém nenhuma informação sobre o que se está fazendo para corrigir o desastre descrito no mesmo artigo.

A informação distorcida seria sobre a emissão de dinheiro novo: "Toneladas de cédulas são impressas para manter em funcionamento a economia deste pais...", na realidade não foi emitido dinheiro novo após 6 de agosto. Em relação à inflação, o artigo indica também que "Após a eleição de Victor Paz Estenssoro, em agosto, quando a inflação ainda era calculada em (apenas) 9.000%..., esse dado não reflete a realidade e depende de quais índices foram tomados em conta, já que, na época, a Confederação de Empresários Privados da Bolívia publicava o índice de 45.000% de inflação ao ano."

O artigo não menciona a Nova Política Econômica que dispõe sobre a descentralização das empresas estatais, a ampla liberdade de comércio, o livre fluxo dos preços, a flutuação do peso em relação ao dólar, congelamento de salários, etc. e que apesar de ser um pacote de medidas que exigem um sacrifício da população a curto prazo, os primeiros resultados a serem obtidos são otimistas e alentadores. Por outro lado, não menciona que o novo governo está dedicando seus esforços para devolver ao povo boliviano tranqüilidade para trabalhar e meios para viver melhor, assim como devolver ao Estado Nacional o respeito e a dignidade que havia perdido durante os últimos anos. Moira Paz Estenssorro — Rio de Janeiro.

Cemitério

Ao inicio do ano em curso, em visita ao Cemitério do Catumbi, onde estão sepultados os meus trisavós, o Visconde e a Viscondessa de Souto, e onde estão os túmulos originais de meus tios-trisavós, o Duque e a Duquesa de Caxias (exumados em 1949 para o Panteão Nacional), fiquei chocado com o estado de abandono e deterioração do histórico e precioso cemitério, onde repousam os restos mortais dos grandes vultos históricos do II Império, e que representava um conjunto arquitetônico de rara beleza, sem similar no Brasil, todo em mármores importados de Carrara, delicadamente esculpidos. Encontrei esses mármores das campas, lápides e capelas fragmentados, perdidos num matagal de quase dois metros de altura, em meio a cacos de garrafas, fezes humanas e até ossadas expostas. E é lá que estão sepultados o Marquês de Olinda, o Conde de Ipanema, Theóphilo Otoni, Barão de Maruim — e todos aqueles que construíram a nossa História. Uma favela avançara sobre o cemitério, e o túmulo do próprio Theóphilo Otoni estava desaparecendo sob um barraco.
(...)
O JORNAL DO BRASIL foi o primeiro a apoiar a minha denúncia, mobilizando uma equipe de repórteres para constatar, in loco a situação da antiga necrópole e publicando grande reportagem sobre o assunto, em sua edição de 7/4/1985. Seguiram-se manifestações de diversos outros órgãos de imprensa, e até no Paraná e em São Paulo a situação repercutiu, ora provocando reportagens, ora apresentando-se sob a forma de assunto para editoriais. Foram 14 as manifestações de jornais brasileiros, e todas elas encaminhei, junto à minha denúncia, ao Ministro da Cultura, à SPHAN e a outras autoridades.

Ao início do mês em curso, estive no Rio e fui recebido pelo arquiteto Dr. Umberto Napoli, da SPHAN, que, me exibiu a espessa pasta contendo minha denúncia, que deu início aos estudos visando ao tombamento do setor histórico do Catumbi. Já estão no papel os planos de reurbanização, restauração e até arborização da antiga necrópole; e assegurou-me o arquiteto que, num curto período de tempo, o tombamento pela SPHAN será uma realidade. Causou-me surpresa constatar que inexistia qualquer processo, na SPHAN, para o referido tombamento, e que tal processo só se iniciou à partir de minha denúncia. Na mesma ocasião, iniciei novo processo, visando à colocação de uma placa de bronze no interior da Capela Mayrink (já tombada, e enriquecida neste século por quatro painéis de Portinari), alusiva ao Visconde de Souto, que foi quem mandou construir a linda capela em 1860, na chácara de sua propriedade, no coração da Floresta da Tijuca. Tal homenagem representará, no mínimo, um desagravo de nossa imemorial Memória a um vulto histórico tão rapidamente esquecido de nossos compêndios. O apoio que recebi do seu prestigioso jornal foi fundamental para que a SPHAN se sensibilizasse com a questão e encaminhasse os estudos pró-tombamento com tanta determinação, como vem fazendo. (...) Dr. Francisco Souto Neto — Curitiba (PR).

Benefícios do mel

Além de ser alimento energético, e por isto os esportistas habitualmente o consomem, e também certos artistas, como Rita Lee e Nei Matogrosso, por exemplo, o mel contém vitaminas e sais minerais, além de uma substância de capital importância: as enzimas. Estas são secretadas pelas vesículas das abelhas operárias. Tais vesículas são uma espécie de laboratório, onde o néctar das flores é transformado em mel, e em seguida depositado pelas operárias nos alveólos (células hexagonais) dos favos. O mel legítimo, puro, é igualmente portador da inibina, substância antibiótica, bactericida.

Desde a antiguidade, o mel é usado, como eficaz remédio para diversas afecções. Sendo muitas as doenças que podem e devem ser combatidas com o usos do mel, limito-me a mencionar apenas as seguintes: gripe, duodenite, afecções cardíacas, insônia, prisão de ventre etc.

O mel contribui para o aumento dos glóbulos vermelhos do sangue. Não sendo fator de acidez, o pediatra e patologista do Hospital de Bronx, Nova Iorque, Dr. Paulo Luttinger, em 1922, já recomendava o uso de mel para bebês, cujos intestinos tinham dificuldades de assimiliação de açúcar, dissacarídio (sacarose, açúcar comum), pois o mel de néctar, puro, contém somente até 2% de sacarose. Os açúcares predominantes no mel são a glicose e levulose, monosacarídeos, que são assimilados diretamente pelo sangue. Portanto, o mel é altamente benéfico para a saúde, sendo apenas contra-indicado para diabetes malignas. João Candido Nogueira de Sá — Rio de Janeiro.

O saldo médio 

Essa Seção publicou recentemente carta de outro leitor a respeito de uma taxa debitada aos clientes pessoas físicas pelo Banco Econômico naqueles casos, em que o saldo não corresponda a um X de Obrigações Reajustáveis, aparentemente por ele arbitrado. É o antigo, famigerado e estranho "saldo médio" de que se valem os bancos para emprestarem dinheiro, ou o "me empresta que te emprestarei". Agora pelo menos o Econômico evoluiu e debita uma taxa na conta do cliente com saldo pequeno. E o somatório dos saldos pequenos no Brasil inteiro não interessa ao banco? Eles, com a sua fértil imaginação, vão criando coisas para ganhar sempre mais.

Naquela carta o leitor pedia que algum órgão do Governo ou da categoria dos banqueiros esclarecesse o assunto, sem dúvida do interesse de milhares e milhares de pessoas. Também aguardo e não vi qualquer resposta. Raul de Carvalho — Rio de Janeiro.
As cartas serão selecionados para publicação no todo ou em parte entre os que tiverem assinatura, nome completo e legível e endereço que permita confirmação prévia.

Jornal do Brasil, sexta-feira, 1 de novembro de 1985

quinta-feira, 14 de abril de 2016

09.12.1962 - IMPÔSTO SINDICAL É ILEGAL, DIZ EVARISTO MORAIS FILHO


IMPÔSTO SINDICAL É ILEGAL,
DIZ EVARISTO MORAIS FILHO 

— O Imposto Sindical é inconstitucional e incompatível com a liberdade sindical. Enquanto receber impôsto da mão ao Estado, o sindicato não se livrará de sua tutela — disse, ontem, o Professor Evaristo de Morais Filho, designado pelo Ministro da Justiça para elaborar o anteprojeto do Código do Trabalho.

Afirmou o Professor Evaristo de Morais Filho que "já é tempo de se enfrentar o problema com medidas que façam o sindicalismo brasileiro voltar às suas origens de liberdade e autonomia, respeitando-se, contudo, a sistemática da unidade sindical, que tão bons resultados vem dando".

INCONVENIÊNCIAS 

Considera o Professor que a atual Consolidação das Leis do Trabalho, com seus 19 anos de vigência, já prestou relevantes serviços ao País, "mas é preciso que se note que foi feita para um regime do tipo corporativo, autocrático, ditatorial, cujas características se alteraram completamente diante da Constituição de 1946".

— Muitos dispositivos da Constituição — continuou —esperam regulamentação. Assim é o caso do salário mínimo familiar, participação nos lucros das emprêsas, estabilidade dos trabalhadores rurais, direito de greve e liberdade sindical.

TRABALHO 

Sôbre aquelas matérias, lembrou o Professor Evaristo de Morais Filho que já se fizeram projetos de origens várias. Uns já aprovados pela Câmara, outros por ambas as Casas do Congresso, ou com substitutivos apresentados no Senado. Tôdos serão levados na devida conta, com aproveitamento ou reelaboração, na estrutura do novo Código. Quanto ao Direito do Trabalho, observou que já está totalmente superada a velha polêmica da Codificação da Legislação do Trabalho. 

— E pela sua abundância, pelo seu particularismo — constitucional, didático e científico — está o Direito do Trabalho em estado de maturidade para receber a forma sistemática e ordenada de um código.

— Aliás — continuou — a Consolidação de 1943 nada mais é do que um código. Não se limitaram os seus autores a conglobar a legislação esparsa anterior. Legislaram inovando, preenchendo lacunas, sistematizando, em uma palavra: elaboraram um código. Como na época, enfeixavam-se nas mãos do Chefe do Govêrno os podêres executivo e legislativo, nenhuma dúvida podia haver quanto à constitucionalidade da Consolidação. Hoje, seria discutível.

Depois de afirmar que não se pode dizer que o Código poderá estancar o progresso da legislação do trabalho, o Professor Evaristo de Morais Filho citou o civilista Biagio-Brugi: "Qualquer código começa a morrer exatamente no dia mesmo que é o primeiro de sua vida".

— E por que? Porque "o Direito deve ser estável, mas não pode permanecer imóvel", nas palavras de Roscoe Pound.

Segundo o Professor, tôda a parte coletiva da Consolidação está superada pelos fatos econômico-sociais de nossos dias.

— A tão temida CGT aí está em plena função — disse ─ tornando letra morta a regulamentação corporativa de 1943. Transformou-se também em letra morta o sistema corporativo das convenções coletivas somente entre entidades sindicais. É preciso dar-se liberdade e autonomia sindical aos órgãos de classe, fortalecendo-os, ao mesmo tempo em que permitir convenções de emprêsas, mais dúcteis e praticáveis na realidade".

Jornal do Brasil, domingo, 9 de dezembro de 1962

quarta-feira, 13 de abril de 2016

09.02.1988 - A política do feijão-com-arroz

JORNAL DO BRASIL                                        Opinião                                      terça-feira, 9/2/88 


A política do feijão-com-arroz 

Rubens P. Cysne 


Não são raras as viagens em que o momento de maior alegria e prazer se dá quando da volta para casa. Na fase de planejamento, o espírito aventureiro se excita e distrai com as possibilidades usualmente muito bem exploradas pela imaginação. No decorrer do processo, entretanto, o acaso há de dar o seu toque especial na jornada, corroborando ou não as expectativas previamente assentadas.

É bem verdade que o charme do inesperado pode ocorrer sob a forma de uma boa companhia no assento ao lado no avião (o que, convenhamos, requer uma razoável dose de sorte) ou de uma inesperada aculturação junto a um povo distante. Mas nem sempre a sorte se sobrepõe desse modo ao azar. Muitas vezes o oposto ocorre sob a forma de perda de conexões, extravio de bagagens, perda de passaporte, inadaptação aos temperos alienígenas, queimaduras de sol, etc... Nesse caso, a volta ao aconchego do lar é também a volta à paz e à tranqüilidade.

De qualquer forma, as experiências, mesmo quando não baforadas pelo lado bom do destino, trazem consigo, pelo menos se vividas por atores atentos, o necessário aprendizado que vem com o tempo. Daí a sua utilidade.

A viagem da qual agora retornamos iniciou-se, como se sabe, em 28/02/86. Não houve nenhuma bela companhia ao lado no avião (na segunda escala, a da moratória, não houve seguer outro passageiro), o passaporte para o fim do túnel foi perdido, vários extravios de bagagens foram noticiados e ninguém se divertiu como esperava. E bom também lembrar que todas as conexões foram perdidas e o próximo avião demorará pelo menos um ano (talvez dois) para chegar (o pior é que ninguém sabe dizer para onde ele vai).

De volta de tão inesperado percurso, vem a apologia do lar, representada pela economia do feijão-com-arroz. A formulação de política econômica abandona a amante heterodoxa e volta para a esposa que havia (alguns dizem, a contragosto) abandonado no início de 1986. Tratando-se de um marido que a própria teoria econômica quis bígamo por excelência, mais uma vez a opção por apenas um dos lados da gangorra (miserável gangorra que nunca pára no meio!) trará de volta os problemas que assolavam a vida do casal entre 1983 e 1986: ausência de perspectivas, desemprego e altas taxas de inflação. Mas por que necessariamente desemprego?

Teoricamente, há vários motivos que dificultam uma estabilização da inflação em patamares da ordem de 15% a 20% ao mês. O problema não é comparar o número 15 (ou 20) com o número zero, mas sim uma inflação ascendente com uma inflação estável. Quando a taxa de variação do nível de preços se eleva, vários motivos concorrem para que este processo se torne auto-sustentável. Dentre estes, incluem-se:

a) o aumento das expectativas inflacionárias, elevando os preços, salários e a aquisição de bens de consumo duráveis;

b) os repasses pela indexação;

c) a queda no valor real da arrecadação tributária do governo, haja vista o intervalo de tempo entre a arrecadação efetiva e o fato gerador do imposto;

d) a queda da demanda por moeda decorrente das inovações financeiras que costumam acompanhar a elevação das taxas de inflação;

e) a maior variação dos preços relativos, elevando o custo de informação por parte do comprador e, conseqüentemente, tornando-o menos sensível aos novos aumentos de preços.

É claro que todos esses fatos podem ser devidamente contornados com uma adequada restrição de demanda (o que, aliás, é exatamente o que se espera da política do feijão-com-arroz). Mas é claro também que isto implica uma desagradável redução da atividade econômica (principalmente devido à indexação e à instabilidade das expectativas de inflação). Em adição, um segundo problema se contrapõe à compensação monetário-fiscal. Por motivos políticos, ela costuma ser muito mais monetária do que fiscal, o que eleva as taxas de juros, inibindo os investimentos privados e a taxa de acumulação de capital no longo prazo.

Mantida a atenção que vem sendo dispensada à política de demanda (com monitoramento não apenas do governo, mas também, futuramente, de agências internacionais), o Brasil não deverá sofrer nenhum processo hiperinflacionário em futuro próximo. Mas não se deve esperar muito, também, em termos de crescimento. Se o corte do déficit público fosse significativo, crível e de conhecimento comum, seria até possível que a retomada dos investimentos privados em pouco tempo reativasse a economia. Mas com uma política em banho-maria mais calcada no aperto monetário do que no saneamento definitivo das finanças do setor público (principalmente, na questão dos subsídios e transferências), não há de se esperar uma grande elevação da oferta de empregos no setor privado.

Dentro em breve, a volta ao lar e ao feijão-com-arroz passará a se caracterizar pelo seu lado cansativo e tedioso. A afeição da ausênça terá dado lugar ao descolorido da rotina. O dilema entre recessão e hiperinflação (o que, na prática, significaria um novo congelamento) se mostrará cada vez mais explícito.

Para as pessoas físicas e jurídicas residentes no país, toda essa espera por uma solução definitiva para o processo inflacionário (ao menos no nível dos saudosos 40% ao ano vigentes entre 1973 e 1978) é claramente enervante. Além das perdas, a favor do governo, do valor aquisitivo da moeda com que transacionam, tanto firmas quanto indivíduos são obrigados a operar com uma menor quantidade de liquidez real em mãos, o que dificulta sobremaneira o seu dia-a-dia. Isso para não mencionar o efeito altamente perverso do imposto inflacionário sobre a distribuição de renda, visto que a percentagem desta última mantida em termos monetários é certamente maior nas camadas menos favorecidas da população.

Essa deterioração da ambiência para se ter uma vida menos complicada nesse país não se iniciou há pouco. As drásticas mudanças no patamar inflacionário iniciaram-se em 1979. O que preocupa, no entanto, é a demora na reversão do processo. O problema claramente transborda a concepção puramente técnica, encontrando suas raízes em fatores culturais, institucionais e políticos.

A dificuldade de contenção do déficit público, por exemplo, enquadra-se muito bem nessa visão mais ampla do processo inflacionário. Boa parte das despesas públicas reflete uma série de medidas isoladas que em muito beneficiam poucos, e em pouco prejudicam muitos. Mas como essas medidas não são poucas, acabam mesmo em muito prejudicando todos. A inflação é uma das conseqüências de atos deste tipo. Na ausência de consciência, representatividade e cobrança da maioria prejudicada, ela destrói um a um todos os percalços em seu caminho.
Rubens P. Cysne é professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas.

Jornal do Brasil, terça-feira, 9 de fevereiro de 1988